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As eleições estão chegando

Na perspectiva de Bolsonaro e Trump, a culpa é sempre localizada, atribuída à inadequação de governadores e prefeitos

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2020 | 05h00

Brasil e Estados Unidos foram os dois maiores Estados cuja expansão inicial dependeu do seu compromisso com a escravidão desde a sua origem, enquanto colônias de Portugal e Inglaterra. Depois de alcançarem a liberdade como unidades nacionais, essa dependência aumentou. Houve diferenças, é claro.

A importação de escravos para os EUA se tornou ilegal a partir de 1808, e sua utilização mudou das lavouras de tabaco e arroz para o algodão, com a invenção do descaroçador. No Brasil, a importação legal continuou até 1831, quando foi estabelecido um acordo com a Grã-Bretanha, persistindo ilegalmente por mais duas décadas a partir de então. Os escravos eram a metade da população do Brasil em 1850, metade da população no Sul dos EUA e menos de 2% da população do Norte dos EUA.

Formalmente, a abolição ocorreu nos EUA com a Guerra Civil. Mas a história subsequente, que inclui a Ku Klux Klan, não garantiu oportunidades iguais de educação e aceitação social. Foi somente com as duas guerras mundiais e a migração para o Norte que as condições econômicas melhoraram. Foi necessária uma decisão da Suprema Corte em 1954 para dar início a esforços para oferecer igualdade no acesso ao ensino. Mesmo hoje, depois de Martin Luther King, marchas organizadas pelo movimento Black Lives Matter e outros grupos se tornaram centrais no panorama da política eleitoral de 2020.

No Brasil, foi concedida liberdade aos filhos de escravas nascidos depois de 1871, e finalmente a todos os escravos com a Lei Áurea de 1888. Pouco depois, a primeira República foi fundada pelos militares em 1889. Como todos os demais sistemas escravocratas, com exceção do americano, onde a reprodução ocorria regularmente, a alta mortalidade entre os escravos era a norma no Brasil. Essa característica levou a diferenças importantes na escravidão brasileira.

Também surgiu um grande número de mestiços. 

Esses indivíduos obtiveram a liberdade e conseguiram acesso a uma variedade de cargos, particularmente com a oportunidade de migração e a ascensão das exportações de café. Mas a discriminação não desapareceu. Prossegue desde então, contribuindo para alguns esforços públicos de compensação.

Peço perdão pela longa introdução. Caí na armadilha do meu interesse em história comparada. Há uma distinta aproximação: tanto Trump quanto Bolsonaro utilizam essa história para tentar garantir uma maioria branca suficientemente grande para conseguir a vitória eleitoral nas próximas eleições presidenciais e municipais.

Os EUA já chegam à marca de 200 mil mortos, com o Brasil superando os 135 mil. Em ambos os países, os negros representam a grande maioria da população carcerária, e são os negros que desempenham funções perigosas e expostas pela remuneração mais baixa. A consequência é uma mortalidade muito mais alta. 

Nos EUA, feita a correção por idade e origem étnica, a mortalidade entre os negros é 3,5 vezes maior que entre os brancos. No Brasil, a proporção é menor, aproximadamente 2 para 1. A explicação para essa diferença está no acesso ao atendimento de saúde em ambos os países. Os melhores hospitais ficam nas áreas mais ricas. Nas palavras de um pesquisador da Fiocruz, a pandemia está aprofundando desigualdades históricas em um momento em que as políticas de combate à desigualdade racial praticamente morreram.

Isso ajuda a explicar a indiferença tão visível nas reações desses presidentes. Na perspectiva de Bolsonaro e Trump, a culpa é sempre localizada, atribuída à inadequação de governadores e prefeitos. O federalismo é sempre empregado para funcionar em favor das unidades com as quais eles podem contar e das quais recebem apoio.

Mas há também outra semelhança. A imprensa está sempre equivocada e não é digna de confiança. Twitter e Facebook costumavam oferecer oportunidades para a livre circulação de declarações abertamente enganosas. Agora, estão impondo critérios mais rigorosos e tentando eliminar a suposta correição de todas as declarações publicadas. Isso não vai inibir muito os autores de tais práticas.

O papel do Executivo tem sido inflado magicamente para produzir promessas abrangentes que chegam até a contradizer posições anunciadas anteriormente. Um conselho de funcionários do alto escalão do governo pode prosperar… se declarar seu apoio ao grande líder. Então, suas próprias ambições vão prosperar. O Congresso e o Judiciário parecem não contar – especialmente, quando o assunto é a má conduta individual.

As duas economias sofreram nesse processo.

Quando o Brasil parecia pronto para crescer novamente, a pandemia ocorreu, levando à explosão da dívida externa e ao declínio das manufaturas. As virtudes dos livre mercados não funcionaram plenamente sozinhas. Faltaram autoridade e gasto público inteligente.

Nos EUA, depois de inchar o déficit fiscal com a redistribuição da renda e da riqueza para os ricos, agora os conservadores querem parar. Uma recuperação generalizada em forma de “V” não poderá ocorrer antes da eleição, como esperava Trump. 

E nenhum dos dois presidentes acredita nas temíveis realidades da mudança climática global que exigirão nossa atenção imediata nos próximos dez anos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY 

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