Eduardo Barcellos/ Divulgação
Eduardo Barcellos/ Divulgação

As emergentes da construção civil

As empreiteiras que cresceram muito acima da média e chegaram perto das líderes do setor

Renée Pereira e Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

Em 1995, a Odebrecht estava construindo o túnel Ayrton Senna na capital paulista; a Camargo Corrêa erguia uma barragem para a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e a Queiroz Galvão fazia a orla da Praia Grande. Naquele mesmo ano, a construtora Mendes Junior estava quase quebrada, a desconhecida Delta Engenharia tapava buracos no Nordeste, a Carioca fazia obras de urbanização em bairros do Rio e a Galvão nem existia. Essas empreiteiras, que na época tinham participação inexpressiva perto das gigantes do setor, hoje dividem com elas o ranking das maiores do País.

Enquanto os nomes mais conhecidos da construção pesada voltavam os olhos para contratos de bilhões de reais, essas empresas concentraram seus esforços em pequenas obras públicas e privadas. Elas correram por fora num momento em que todo o setor estava sendo beneficiado pelo aumento do número de obras de infraestrutura - depois de amargar duas décadas perdidas, em que pouco se construiu no País.

O lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) abriu uma brecha para as empresas médias disputarem projetos menores, como coletoras de esgoto e manutenção de rodovias. "O valor desses contratos não era compatível com o custo das grandes empreiteiras", explica o diretor da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop), Carlos Eduardo Lima.

Juntas, em 2005, Delta, Carioca, Mendes Junior e Galvão faturavam cerca de R$ 1,3 bilhão - valor que foi multiplicado por cinco no ano passado, segundo o ranking anual da revista O Empreiteiro, uma referência no setor. No mesmo período, as empreiteiras mais tradicionais triplicaram a receita.

O caso da Delta Construções é o que mais surpreende. Embora tenha chamado a atenção só agora, a empresa está no mercado há 50 anos. Foi fundada em Recife pelo empresário Inaldo Soares em sociedade com integrantes da família Queiroz Galvão. Sem contratos relevantes, o empreiteiro preferiu seguir carreira como executivo da Queiroz e manteve a Delta em segundo plano. A nova história da empresa começou a ser desenhada em 1996, pelo filho de Soares, Fernando Cavendish. Engenheiro recém formado, ele tentou empreender no setor de confecções e uniformes, mas não teve sucesso e acabou retomando a construtora do pai.

Controverso

 

Nas mãos dele, a Delta Construções saiu do anonimato. Em oito anos, o empresário multiplicou por 19 o faturamento da empresa, que em 2010 alcançou a cifra de R$ 2 bilhões. No mercado, Cavendish é reconhecido por sua eficiência em disputar licitações - habilidade imprescindível para quem quer garantir posição de destaque num setor que sempre foi controverso e é frequentemente alvo de questionamentos judiciais. "Os negócios são definidos mais por relacionamentos do que pela engenharia", diz um consultor de empreiteiras.

Nos últimos três anos, a Delta foi a empresa que mais recebeu dinheiro da União por serviços prestados, segundo levantamento da ONG Contas Abertas. Só em 2010 recebeu R$ 758 milhões do governo federal. A forte participação nos projetos públicos colocou Cavendish na mira do Tribunal de Contas da União (TCU) e do Ministério Público.

Com uma carteira de amigos influentes, como o governador do Rio, Sérgio Cabral, o empresário soube aproveitar um vácuo deixado pelas gigantes, que não queriam projetos pequenos. "Hoje, a Delta faz de meio fio a duplicação de estradas", diz uma fonte do setor. No mercado, Cavendish vem sendo chamado de "Eike Batista da construção civil". O perfil de Cavendish rendeu à empresa grandes empreendimentos, como a reforma do Maracanã, e colocou a empreiteira no calcanhar da Queiroz Galvão.

A gigante pernambucana parece ter vocação para criar seus próprios concorrentes: foi sócia na fundação da Delta e berço da mais jovem construtora do setor. Em 1995, Dario Galvão Filho e seus irmãos venderam as ações da empreiteira para os tios e, no ano seguinte, fundaram a Galvão Engenharia, outro exemplo bem sucedido na construção.

Batizada com um sobrenome que não nega as origens, a empresa faturou R$ 9 milhões no primeiro ano, especialmente em contratos com o governo do Estado de São Paulo e estatais paulistas. Hoje tem obras espalhadas pelo Brasil e deve faturar R$ 2,6 bilhões este ano.

A empresa ficou popular no ano passado depois de vencer, ao lado de outras construtoras menores, o leilão da Hidrelétrica de Belo Monte. Embora já tenha pedido para deixar o consórcio investidor, a Galvão continuará no grupo construtor. A participação na usina vai capacitar a empresa na disputa de outras obras do setor de energia. "Começamos com empreendimentos menores, de origem rodoviária. Hoje temos projetos mais complexos e sofisticados, como petroquímicas e refinarias", diz o presidente Galvão Filho.

Quase 55% da carteira da Galvão é privada, considerando a Petrobrás. O restante vem do setor público. O próximo plano da companhia é a internacionalização - começou a construir um sistema de esgoto em Lima, no Peru, e estuda negócios na Colômbia e em Moçambique.

O que a Galvão está fazendo agora fora do País já colocou a Mendes Junior entre as 11 maiores do mundo na década de 70. Depois de tocar obras importantes no Brasil, como as hidrelétricas de Itaipu e Furnas, partiu para uma empreitada no Iraque, onde fez a ferrovia que liga Bagdá à Síria. No regime militar, com 100% de obras públicas, a companhia chegou a liderar o ranking. Entre as novatas, é a única que sabe o que é estar no topo.

Crise

 

A trajetória de crescimento da Mendes foi interrompida pela Guerra do Golfo, que obrigou a empresa a deixar o país. No mesmo período, a empreiteira entrou numa briga judicial com a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) e com o Banco do Brasil, pendências que até hoje não foram resolvidas.

Em 95, a Mendes Junior estava no auge da crise, com dívidas e sem poder disputar novos contratos. Foi Murilo Mendes Junior, filho do fundador, que conduziu a reestruturação da empresa. Enquanto parte do grupo tentava sanear os problemas, ele passou a se concentrar em novos projetos. Em 98, a empresa começou a retomar o fôlego com o modesto faturamento de R$ 2 milhões. Em 2011, deve atingir R$ 1,7 bilhão, com contratos para a construção de rodovias, hidrelétricas e na área de petróleo e gás.

"Para nós, isso já é estar no topo", diz Murilo Mendes Jr, que aos 83 anos continua na presidência da construtora. Para ele, ser grande hoje é muito mais difícil do que há três décadas. A questão não é o tamanho, mas se manter de pé. "Nossa filosofia sempre foi a mesma, mas as coisas hoje estão muito complexas: tem Ministério Público, Tribunais de Contas, ONGs..."

"Ficou difícil para todos", completa o consultor Paulo Matos, autor de livros sobre o setor. Segundo ele, só as empresas que conseguiram se adaptar às novas "competências de gestão" subiram posições no ranking. "As maiores sempre tiveram o lastro financeiro a seu favor. As outras precisaram correr atrás."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.