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As epidemias, início e morte dos impérios

Episódios comprovam contribuição de doenças para o surgimento ou para a derrocada de superpotências globais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2020 | 18h19

No dia 28 de abril, a edição em inglês da revista alemã Der Spiegel publicou preciosa entrevista do especialista em História da Medicina Frank Snowden, professor da Universidade Yale.

Lá ele menciona episódios que comprovam a grande contribuição das epidemias para o surgimento ou para a derrocada de superpotências globais.

Entre os casos citados, ele inclui os próprios Estados Unidos. No início do século 19, os escravos do Haiti, então colônia francesa, se revoltaram e constituíram governo próprio. Napoleão mandou para lá um exército de 60 mil homens que, no entanto, foram dizimados não pelos escravos, mas pela febre amarela. O fracasso da campanha do Haiti foi suficiente para levar Napoleão, então com planos expansionistas na Europa, a desistir de suas possessões na América. Foi quando se apressou a vender a Louisiana para os Estados Unidos, que, então, dobraram seu território, fato que marcou o início de sua ascensão a superpotência global.

Snowden citou outros casos. O do alastramento da peste em Atenas no século 5.º antes de Cristo, que deve ser visto como o início do declínio da Grécia Antiga. Na Inglaterra, a sífilis ajudou a derrubar a dinastia dos Stuarts. A enorme derrota de Napoleão em 1812, quando invadiu a Rússia, deve ser atribuída menos a enfrentamentos militares ou ao chamado general inverno, e mais à disseminação do tifo e da disenteria entre seus soldados.

Exemplo não citado pelo professor Snowden é o da destruição do maior império da antiguidade, com a morte de Alexandre, o Grande, vitimado por certas febres, quando retornava de sua campanha vitoriosa pela Ásia.

Uma das perguntas da hora consiste em saber qual será o impacto geopolítico produzido por este coronavírus. Alguns observadores vêm advertindo para a aproximação de uma provável depressão global, a maior desde os anos 30. A principal vítima poderá ser os Estados Unidos, que hoje correm o risco de ficar com mais de 50 milhões de desempregados. A outra talvez seja a velha Europa, que terá de emergir e redefinir as bases de suas alianças.

Esse não é o filme inteiro, porque já se vê que a China deve sair mais inteira dessa catástrofe. Os países emergentes, entre os quais o Brasil, ficarão mais enfraquecidos do que já estão, altamente endividados e, se tudo continuar na direção conhecida, ainda mais desorganizados politicamente.

Os cursos da política e da História não são traçados por determinismos. A última proposta séria nessa direção, a do marxismo, se mostrou insustentável. Outros fatores ou outras forças poderão intervir e mudar tudo, entre elas até mesmo novas pandemias. Pode ser uma guerra nuclear, tão temida nos últimos 70 anos, ou, mesmo, o apressamento do aquecimento global, que pode destruir grandes economias e importantes alianças políticas. No entanto, o fato de ser impossível prever a dimensão desses impactos e seu desenlace não significa que não acontecerão. A melhor maneira de um país se preparar para enfrentá-los é disseminar na sociedade o conhecimento e a capacidade de compreensão. No entanto, estamos mal nessa empreitada. Uma das maiores tragédias do Brasil é o baixo nível do ensino.

CONFIRA

» Os números do colapso

Os primeiros resultados da atividade econômica do primeiro trimestre ao redor do mundo são catastróficos. Em bases anuais, o PIB dos Estados Unidos recuou 4,8%; o da França, 5,8%; o da Itália, 4,7%; e o da Espanha, 5,2%. E esse é apenas o começo do colapso, porque o impacto da pandemia entrou nos cálculos das contas nacionais apenas em fevereiro e março. Há abril e o que virá depois, especialmente nos Estados Unidos, que aparentemente não atingiram o auge da crise do coronavírus.

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