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As escolhas do Copom

É provável que o Copom deixe a porta aberta para cortes adicionais dos juros em 2020

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

11 de dezembro de 2019 | 04h00

É unânime no mercado a aposta de que o Copom irá cortar os juros em 0,50 ponto porcentual, para a taxa mínima histórica de 4,50%, na sua reunião hoje, mas apenas porque o Banco Central já telegrafou e repisou que é essa sua intenção.

Caso o BC não tivesse se comprometido com uma sinalização tão peremptória, talvez as condições atuais não corroborassem uma aposta unânime de mais um corte de 0,50 ponto da taxa Selic, após o salto na cotação do dólar e a alta mais forte da inflação registrada em novembro, apesar de a pressão ter sido concentrada em alguns preços, como o da carne, da energia elétrica e de loterias. Sem falar na atividade econômica, que surpreendeu positivamente no terceiro trimestre, levando a uma rodada de revisões para cima nas estimativas de crescimento do PIB para 2019 e 2020.

Assim, se o Copom surpreendesse o mercado e não reduzir os juros hoje, o estrago na sua comunicação seria irreparável. Sua credibilidade poderia ficar abalada. Mas ao levar adiante o corte de 0,50 ponto, como prometeu no comunicado da sua última reunião, em outubro, poderia essa decisão ser vista como insustentável pelos investidores?

Foi o que o mercado chegou a indicar quando o dólar chegou próximo de R$ 4,30: a curva de juros inclinou, com alta nas taxas dos contratos mais longos, refletindo a percepção de que, com o câmbio naquele patamar, não haveria mais espaço para uma redução adicional de 0,50 ponto da Selic.

Desde então, uma combinação de fatores fez o dólar recuar para o patamar de R$ 4,12: leilões de venda à vista da moeda americana pelo BC, melhora na perspectiva de um acordo comercial entre Estados Unidos e China e a revisão para cima dos números das exportações brasileiras pelo Ministério da Economia, diminuindo a percepção de piora acelerada nas contas externas do País. Com o recuo do dólar, a curva de juros reduziu sua inclinação, passando a endossar a redução da Selic para 4,50%.

Na última reunião do Copom, o dólar estava em R$ 4,05 e as projeções de inflação para 2019 e 2020 em 3,29% e 3,60%, respectivamente, conforme a pesquisa Focus. Agora, a estimativa do IPCA em 2019 é de 3,84% e em 2020 permanece em 3,60%. Também na última reunião do Copom, a projeção de crescimento do PIB era de 0,91% em 2019 e de 2,0% em 2020. Agora, essa estimativa é de uma expansão de 1,1% em 2019 e de 2,24% em 2020.

Desde a última reunião do Copom, as condições estão um pouco menos favoráveis para o afrouxamento monetário em termos de nível de câmbio, de inflação corrente e de perspectiva de maior crescimento da economia. De fato, esse cenário exigiria um Copom mais cauteloso do que foi há 45 dias, na última decisão.

Só que, no fim das contas, o câmbio deve voltar a se fortalecer com uma entrada maior de dólares no curto prazo, as projeções de inflação seguem ainda bem abaixo das metas de 2019 e 2020 (de 4,25% e 4,0%, respectivamente) e a ociosidade da economia segue elevada apesar da melhora das estimativas de crescimento do PIB neste ano e no ano que vem.

Portanto, o Copom não tem motivos suficientes para ser cauteloso a ponto de deixar de cortar a Selic em 0,50 ponto hoje. O BC pode condicionar a sua próxima decisão, em fevereiro, aos indicadores de atividade e inflação, além do nível do câmbio.

É provável que deixe a porta aberta para cortes adicionais dos juros em 2020, mas sem se comprometer tanto como na sinalização recente. Na pesquisa Focus, o mercado aposta em mais um corte de 0,25 ponto em fevereiro, levando a Selic para 4,25%, mas projeta que até o fim de 2020 os juros voltarão a subir novamente para 4,50%, com o aperto prosseguindo ao longo de 2021 para 6,50%.

Vale a pena, então, cortar tanto a Selic se o Copom será forçado a subi-la de novo em breve? Sim, até porque a curva de juros endossa esse movimento como sustentável. E a natureza da política monetária é essa mesma: após um ciclo agressivo de corte de juros, faz-se necessário retirar estímulos e subir os juros em algum momento.

* É COLUNISTA DO BROADCAST 

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