‘As famílias estão muito machucadas’

A que se deve essa queda brutal no consumo?

Entrevista com

Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2016 | 05h00

O consumo foi estimulado excessivamente, o que gerou um endividamento das famílias incompatível com a realidade do País. Como esse modelo estava calcado em indisciplina fiscal, com um estímulo artificial, uma hora a fatura chega. Em parte, o que estamos vendo agora é uma correção por excessos do passado.

No que esse recuo do consumo é diferente?

É diferente porque não estamos falando de um ciclo econômico regular. É um quadro mais grave, que tem mais cara de uma depressão. Tem algo mais severo acontecendo. E tudo isso num contexto em que o crédito sumiu.

O endividamento pesa demais nesse momento, certo?

Sim. As famílias estão apertadas. O endividamento da pessoa física, como proporção da renda, está em quase 45%, o que é equivalente ao endividamento per capita existente no Chile. Só que o Chile tem um PIB per capita 60% superior ao nosso e uma taxa de juros muito menor.

Dada a situação atual, em quanto tempo seria possível retomar os níveis de consumo?

Como esse recuo do consumo não é um ciclo normal é algo mais grave, é possível que a volta seja mais difícil. No passado, o consumidor ajustava o orçamento e, rapidamente, voltava a consumir. Minha dúvida é se isso vai acontecer agora, porque temos famílias muito machucadas. Antes de voltar a consumir, elas precisam pagar as contas. Mas como é uma coisa sem precedentes, não dá para fazer comparações.

A troca de comando na presidência da República pode acelerar esse processo?

Se Michel Temer conseguir apoio para aprovar a Reforma da Previdência, garantir a estabilidade econômica, e os bancos voltarem a afrouxar o crédito, podemos começar a pensar em uma melhora.

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