As ferramentas do banco central americano

Qualquer que seja o remédio ministrado pelo Fed, o consenso é de que serão doses de desespero refletindo pobreza de ideias

ROBERT J. SAMUELSON, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2010 | 00h00

Uma suposição geral, mas não universal, é de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em breve baixará novas medidas para impulsionar a economia, reduzindo as taxas de juro de longo prazo dos títulos do Tesouro, das hipotecas para compra de casa e dos títulos de empresas.

O que não sabemos é o quanto esses juros deverão cair e até que ponto a produção e o nível de emprego aumentarão. Mas o que está claro é que será e um ato de desespero que reflete uma pobreza de boas ideias para ressuscitar a economia.

O Fed atravessa uma crise de identidade. Exaltado durante a presidência de Alan Greenspan como garantia da prosperidade, hoje luta para restaurar sua reputação. Nas fases agudas do pânico financeiro, no fim de 2008 e primeiro semestre de 2009, o Fed concebeu meios engenhosos para fornecer crédito para algumas partes dos mercados financeiros que estavam sendo abandonadas pelas instituições de empréstimo privadas. Por quase dois anos, manteve a taxa de juro de curto prazo próxima de zero. E, com efeito, tudo isso impediu uma segunda Grande Depressão, mas obviamente não provocou uma recuperação econômica vigorosa.

O presidente do Fed, Ben Bernanke, tem feito discursos periódicos afirmando que a instituição ainda tem muitas ferramentas políticas para reavivar a economia e reduzir a aterradora taxa de desemprego.

A realidade é outra. As ferramentas que o Fed ainda tem são misteriosas, frágeis, ou ambas as coisas. Um comentário de economistas do Bank of Americana diz que: "Pense no Fed como um grupo de soldados numa trincheira. Eles já usaram suas bazucas e rifles... e agora estão usando suas pistolas".

O que o Fed deve autorizar, provavelmente no início de novembro, é uma grande compra de títulos do Tesouro americano, com o objetivo de reduzir as taxas de juro e as taxas sobre títulos da dívida de longo prazo. Já fez isso uma vez. No fim de 2008, o banco aprovou compras maciças de títulos, que no final totalizaram US$ 1,725 trilhão em títulos lastreados em hipotecas, títulos do Tesouro e das instituições Fannie Mae e Freddie Mac. Segundo Bernanke, o programa "foi uma importante contribuição" para a recuperação.

Mas os efeitos perceptíveis foram pequenos. As taxas de títulos do governo de 10 anos, dos títulos hipotecários e de empresas devem ter caído 0,6 pontos porcentuais, de acordo com estudo feito pelos economistas Joseph Gagnon, Matthew Raskin, Julie Remache e Brian Sack.

Desta vez, o declínio pode ser ainda menor, porque as taxas de juro iniciais já estão baixas (em torno de 4,3% no caso de uma hipoteca de 30 anos) e as compras poderão ser menores. Os cálculos geralmente variam de US$ 500 bilhões a US$ 1 trilhão.

Para os economistas do Bank of America, as novas compras terão "um impacto apenas modesto sobre a economia", mas é "melhor do que não fazer nada". Um programa plausível pode reduzir a taxa de desemprego em 0,2 pontos porcentuais (digamos, de 9,6% para 9,4%), segundo a Moody" s Analytics.

O mercado de ações se fortaleceria ligeiramente, levando as pessoas a gastarem mais, e o dólar desvalorizado ajudaria as exportações.

Na verdade, o fato de Bernanke ter indicado uma nova rodada de compra de títulos, já refletiu alguns desses efeitos nos mercados financeiros. O que torna mais difícil para o Fed não confirmar essas expectativas generalizadas. Mas existem riscos. Quando o Fed compra títulos do Tesouro, ele injeta dólares na economia. Até agora, isso não encorajou muitos pedidos de empréstimo por famílias apreensivas e empresas precavidas.

O crédito ao consumidor vem diminuindo desde o verão de 2008. E o Fed não pode estimular o consumidor a gastar, nem investir na economia. Os bancos estão com um excesso de reservas de aproximadamente US$ 1 trilhão. Mas se todo o dinheiro barato estimular um crescimento econômico muito mais alto, grande parte dessas reservas se transformará em empréstimos e aumentará o espectro da inflação.

O Fed então teria de retirar ou neutralizar o excesso de dinheiro aumentando as taxas de juro. Adicionar centenas de milhões mais às reservas já excedentes dos bancos não facilitaria as coisas.

O importante também é que haveria uma pressão enorme sobre a instituição para não elevar as taxas enquanto o desemprego permanecer alto. O economista Allan Meltzer, da Carnegie Mellon University, autor de uma história do Fed em três volumes, teme que o banco - como ocorreu nos anos 60 e 70 _ "espere demais". "Cedo ou tarde, teremos uma grande inflação", ele diz, "mas não neste momento, porque não há demanda agora".

Os economistas estão divididos em dois campos. Alguns, como Paul Krugman, acham que a economia está tão debilitada que o governo precisa fazer alguma coisa (déficits maiores, mais crédito barato) que possa ajudar um pouco; e outros, como Meltzer, temem que medidas com vistas a soluções momentâneas levarão a problemas maiores depois.

Entre eles, prevalece uma ideia comum, tácita, de que não há remédios instantâneos para a letargia da economia. O que significa que o Fed real é muito menos poderoso do que o Fed convertido em mito. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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