Alex Williams via The New York Times
Alex Williams via The New York Times

coluna

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As guitarras estão de volta, baby!

Definido por alguns como um símbolo de rebeldia dos jovens por 70 anos, o instrumento está passando por um renascimento que pode se estender além do movimento de 'compra de estresse' da quarentena

Alex Williams, The New York Times 

11 de setembro de 2020 | 12h00

Não faz muito tempo, as coisas pareciam não ir muito bem para as guitarras, que foram o símbolo global de liberdade e rebeldia dos jovens por 70 anos.

Com o hip-hop e o pop-espetáculo no estilo Beyoncé que supostamente se apoderaram dos corações e das carteiras da geração millennial e da Geração Z – e tantas divindades da guitarra do século 20, falecidas (Jimi Hendrix, Kurt Cobain) ou apresentando-se em shows solo aos 70 anos (Eric Clapton, Jimmy Page) – as vendas de guitarras haviam caído cerca de 33% na década desde 2007, segundo a Music Trades, empresa de pesquisa que acompanha os dados do setor.

As guitarras Gibson, cuja famosa linha Les Paul contribuíra para colocar o Led no Zeppelin, caminhavam para a falência.

Tudo isto foi o bastante para o jornal The Washington Post declarar “a secreta morte lenta da guitarra de seis cordas” em 2017. Naquele mesmo ano, o próprio Clapton, conhecido simplesmente como “Deus” por seus devotos, há mais de meio século, estava pronto a espalhar as cinzas. “É possível”, ponderou em uma coletiva à imprensa em 2017 para o documentário Eric Clapton: A Life in 12 Bars, que a guitarra tenha acabado”.

Parem os necrológios

Seis meses depois do início da pandemia que ameaçou afundar indústrias inteiras, as pessoas estão se voltando para a guitarra como companheira da quarentena e salvação psicológica, gerando um aumento das vendas de algumas das mais famosas companhias (Fender, Gibson, Martin, Taylor) que impressionou os próprios veteranos do setor.

“Jamais teria previsto que este seria um ano recorde”, disse Andy Mooney, diretor executivo da Fender Musical Instruments Corp.. Foi a gigante das guitarras sediada em Los Angeles que equipou a Rock & Roll Hall of Fame desde que Buddy Holly pegou em uma reluzente Fender Stratocaster com recorte duplo, nos anos 1950.

“Nós quebramos vários recordes”, disse Mooney. “Este será o ano mais sensacional em volume de vendas da história da Fender, com um crescimento recorde diário de dois dígitos, vendas no comércio de eletrônicos e equipamento para iniciantes. Se você me perguntasse em março, nunca imaginaria que chegaríamos ao ponto em que nos encontramos hoje”.

E não são apenas os baby boomers já grisalhos que querem viver uma última fantasia à la Peter Frampton. Jovens adultos e adolescentes, muitas mulheres, estão contribuindo para potenciar o renascimento da guitarra, afirmaram fabricantes e revendedores, colocando sua marca geracional no instrumento que embalou a geração dos seus pais, e descobrindo ao mesmo tempo os poderes da terapia de seis cordas.

Espantando o baixo astral 

Tudo começou com um ponto de ruptura coletivo, segundo Jensen Trani, professor de guitarra de Los Angeles, cujos milhares de vídeos instrumentais no YouTube, segundo calcula, tiveram cerca de 75 milhões de visualizações nos últimos 14 anos.

“A certa altura, pude dizer aos meus alunos que anestesiar-se com a Netflix, Instagram e Facebook não estava mais funcionando”, disse Trani, de 38 anos. “As pessoas já não aguentavam mais procurar os mecanismos de sempre para suportar a situação. Eles se perguntavam: “Como vou passar o meu dia? “

Ao que parece, para muitos, a resposta foi “dedilhando uma guitarra”.

Pouco depois da ordem de permanecer em casa, Trani viu um aumento repentino da exibição dos seus vídeos, e rapidamente triplicou o número dos alunos particulares que assistiam às aulas remotamente. Os lugares populares para aprender o instrumento, como JustinGuitar.com e GuitarTricks, constataram um crescimento semelhante.

E a maioria dos novos alunos não procurava reavivar as lembranças de Foghat ao vivo em 1976. A maioria provavelmente sequer tinha ideia de quem foi Foghat, considerando que grande parte dos novos alunos de Trani, era, como ele disse, de aparência feminina, em torno dos 30 anos.

Os maiores nomes do ensino de guitarra online registraram um movimento semelhante. A Fender disse que seu aplicativo do curso de guitarra, Fender Play, com Trani como instrutor, viu o número inicial de alunos disparar de 150 mil, para 930 mil, entre o final de março e final de junho, graças a uma considerável promoção de três meses.

Cerca de 20% dos recém-chegados tinham menos de 24 anos, e 70% menos de 45, informou a companhia. As mulheres já eram 45% nessa nova onda, em comparação com 30% antes da pandemia.

Em sentido estrito, este aumento fazia sentido. Os futuros músicos que nunca haviam encontrado tempo para pegar em um instrumento, de repente não tinham desculpas para deixar de fazê-lo. Como disse James Curleigh, diretor-executivo da Gibson Brands: “No mundo da aceleração digital, o tempo é sempre o nosso inimigo. E de repente, o tempo se tornou nosso amigo”.

Mas não era só isso, segundo Trani. Muitos novatos no instrumento estavam buscando um oásis de tranquilidade em um mundo turbulento. “As pessoas sentem a necessidade de aprender a conversar consigo mesmas”, explicou.

Foi o caso de uma de suas novas alunas, Kayla Lucido, de 31 anos, de San José, Califórnia, que em março decidiu dar vazão às suas antigas ambições de aprender a tocar guitarra, apesar dos seus  horários frenéticos e dos malabarismos entre o trabalho remoto de gerente de coordenação de projetos de uma empresa de tecnologia, e os deveres de mãe de um bebê de 17 meses.

“É uma terapia para mim aprender algo novo, e conseguir esquecer todo o resto”, disse Kayla, que já consegue dedilhar músicas como Beautiful Stranger de Halsey ou Bluebird de Miranda Lambert, mesmo por 10 minutos por dia.

“Você precisa se concentrar no lugar onde deve pôr a mão, nas cordas em que está tocando, e enquanto isso dedilhar”, acrescentou. “Se eu trabalho fora, minha mente ainda vagueia, mas quando toco guitarra, só me perco no que estou fazendo. É como uma meditação”.

Não surpreende. Aprender a tocar guitarra, piano, oboé ou baixo, faz bem para o cérebro em um nível profundo, segundo Daniel Levitin, neurocientista, músico e autor do best-seller This Is Your Brain on Music, de 2006, segundo o The New York Times. (Muitos estudos psicológicos também mostraram os efeitos benéficos de tocar um instrumento.

É um processo “neuroprotetor”,  escreveu Levitin em um e-mail, porque “exige que você encontre novos caminhos neurais – algo que se pode fazer literalmente em qualquer idade”. E acrescentou: “Usar o cérebro para algo desafiador, mas não impossível, torna-se uma forma de recompensa, e por isso é reconfortante.”

Aprender a tocar guitarra, escreveu, é também um processo voltado para o futuro, acalentando esperança e otimismo, que ajuda a regular componentes químicos estáveis do estado de espírito, como a serotonina e a dopamina.

Além disso, “existe uma verdadeira sensação de domínio e realização”, disse Levitin. “Estou trabalhando neste momento em uma peça de Chopin no piano -  Prelúdio em Mi menor – e fico lembrando a mim mesmo que estou pondo os dedos nas mesmas configurações de Chopin. Por alguns minutos, posso ser Chopin.”

“O mesmo acontece com Clapton, quando toco guitarra”, acrescentou.

“Cada dia é uma Black Friday” 

“Trabalho no comércio de instrumentos há mais de 25 anos e nunca vi nada disso”, afirmou Brendan Murphy, vendedor sênior da Sweetwater, varejista online de guitarras e outros instrumentos, em um e-mail em julho: “Cada dia parece uma Black Friday”.

Outros varejistas online falaram a mesma coisa. Embora tenha fechado 293 de seus 296 gigantescos showrooms em março e abril por causa do coronavírus, o Guitar Center logo viu um crescimento das vendas de três dígitos da maioria das principais marcas de guitarra, segundo Michael Doyle, o vice-presidente sênior da companhia.

Evidentemente, as guitarras não são o único produto de consumo a experimentar um salto na quarentena. As vendas subiram também para muitos outros itens desde o início do fechamento – bicicletas, fermento de padaria, jogos de mesa, colchonetes de ioga, lentilhas e até mesmo Everclear, uma bebida de alto teor alcoólico.

Mas uma guitarra não é um saquinho de lentilhas. Em geral, uma nova guitarra exige um investimento de centenas de dólares, quando não milhares, e os novos músicos e virtuosos muitas vezes vivem também com seu fiel instrumento por vários anos, em uma espécie de declaração de gosto e estilo pessoal.

É o que os economistas chamariam de compra “discricionária”, o produto de consumo não essencial que em geral é a última coisa que uma pessoa pode comprar quando a economia vai de mal a pior e o desemprego cresce vertiginosamente.

Se acrescentarmos o fato de as fábricas estarem fechadas há meses, além do virtual desaparecimento das lojas físicas, a situação se torna quase apocalíptica.

“Eu imaginava que esta seria uma daquelas situações em que um negócio de repente afunda”, observou Chris Martin, o diretor executivo da C.F. Martin & Co., fabricante  de violões acústicos há 187 anos, que forneceu astros contemporâneos como John Mayer e Ed Sheeran, além de lendas como Bob Dylan, Joni Mitchell e um sujeito chamado Elvis, durante décadas. “Vamos juntar os pedaços e reconstituir a companhia, quando for possível”,

Então, depois de um março “terrível”, com um faturamento 40% abaixo do normal, os negócios voltaram bombando.

“É uma coisa maluca”, disse Martin, o Martin da sexta geração na frente da companhia. “É inacreditável, agora a demanda é de violões acústicos. Já vi booms de guitarras anteriormente, mas este me pegou de surpresa”.

As guitarras elétricas talvez não tenham exatamente o mesmo apelo de algumas notas de Neil Young, mas as vendas foram muito consistentes para as gigantes das guitarras elétricas Fender e Gibson, também (ambas também produzem violões acústicos.)

A pandemia aconteceu em um momento sensível para a Gibson. A companhia havia pedido recuperação judicial em 2018, depois de um esforço agressivo da administração anterior para expandir-se nos setores de eletrodomésticos, de áudio eletrônica comercial, e tentar impulsionar no futuro a companhia fundada em 1894 com reinterpretações, para o século 21, de produtos Gibson clássicos que costumavam fazer furor nos estádios – alguns com robôs eletrônicos sintonizadores embutidos.

Uma nova administração com Curleigh, o ex-presidente da Levi’s Brand, à frente, abandonou a robótica para veículos autônomos, recuperou a linha Epiphone mais barata da marca e lançou novas coleções Original and Modern com interpretações atualizadas de clássicos Gibson dos anos 1950 e 1960, cujo custo hoje chega a cinco a seis dígitos no mercado de antiguidades.

Antes que as fábricas fechassem em abril, a companhia recebia avaliações delirantes por sua nova linha de produtos, e pelo aprimorado controle de qualidade.

“Se não temos produção”, disse Curleigh, “não temos vendas, vamos ter de encarar a situação”.

No entanto, no final do verão nos Estados Unidos, “literalmente não conseguimos produzir o suficiente para atender a toda a demanda”, afirmou. “Tudo o que fazíamos, vendíamos”.

Para Curleigh, o renascimento da guitarra significa que existem correntes psicológicas mais profundas circulando entre uma população traumatizada. “É a hierarquia das necessidades de Maslow”, observou, referindo-se a uma teoria da motivação humana proposta pelo psicólogo Abraham Maslow, nos anos 1940. 

A pirâmide das necessidades de Maslow, composta de seis andares, propunha que as pessoas primeiramente precisam atender às suas exigências fundamentais, como subsistência e segurança pessoal, antes de se dedicarem gradativamente a objetivos mais altos de realização criativa.

“Foi isto que o mundo experimentou”, afirmou Curleigh. “Primeiramente tivemos de atender às necessidades essenciais básicas – onde comprar papel higiênico, garantindo a nossa segurança na quarentena. Depois houve a necessidade de uma recomposição psicológica. E as pessoas passaram a dizer: Ainda posso me atualizar, posso me realizar”./ TRADUÇÃO DE ANA CAPOVILLA

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