Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

As lições do ex-jogador Kaká aos investidores

Aos 37 anos, ex-jogador aplica em imóveis e na Bolsa e prepara entrada na gestão esportiva

Cristiane Barbieri, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 10h42

O ex-jogador Kaká olha sua imagem comemorando um gol num de seus primeiros jogos como profissional e dá risada. Era um menino feliz, de braços levantados e meio desengonçado, brincando com o que amava. "Quando você é mais novo, não pensa no que faz: eu ia lá e fazia", diz ele. "Mais para o fim da carreira, eu pegava a bola e dificilmente saia correndo só na intuição. Com o tempo, a gente muda o perfil: o jogo instintivo é muito mais legal, mas o mais pensado também é bacana." 

A seu lado Florian Bartunek, sócio fundador e chefe de investimentos da Constellation, concordava. Uma das gestoras mais tradicionais do mercado, a Constellation tem entre seus acionistas Jorge Paulo Lemann e mais de R$ 7 bilhões sob gestão. "O paralelo com o mercado é claro: o investidor jovem tem mais tempo para errar", diz Bartunek. "É mais destemido, tem menos dinheiro e erra pequeno, é mais curioso e conectado. Mas o que funciona mesmo é a parceria entre o jovem e o velho."

Kaká e Bartunek estiveram juntos na Casa do Saber, em São Paulo, na terça-feira, 22. Kaká foi primeiro convidado da nova safra da série "Fora da Curva: de atletas a empresários de alta performance". Até meados de novembro o ex-tenista Luiz 'Nico' Mattar, o ex-corredor de automobilismo André Ribeiro e a ex-jogadora de basquete Hortência falarão de seus aprendizados como atletas de destaque e suas investidas como empresários.

"O Brasil tem pouca tradição de se inspirar em pessoas de sucesso em suas áreas", diz o advogado Pierre Moreau, sócio da Casa do Saber, que mediou a conversa com Kaká ao lado de Bartunek. Segundo ele, os encontros foram criados exatamente para suprir essa lacuna e devem virar livro. Em 2016, o "Fora da Curva: os segredos dos grandes investidores do Brasil - e o que você pode aprender com eles" foi lançado depois de entrevista com nomes como Luis Stuhlberger, Guilherme Affonso Ferreira e o próprio Bartunek.

Vale para a vida. Na apresentação de Kaká, muitos outros paralelos puderam ser traçados com a vida dos investidores - e toda e qualquer outra profissão, a bem da verdade. Ídolo do São Paulo, bem educado e muito articulado, Kaká falou de grandes eixos de sua trajetória, conduzidos por palavras como amor, sonho, determinação, paciência, talento, fé, responsabilidade, confiança, escolhas, integridade e liderança, voltando novamente ao amor.

Para cada um desses temas, Kaká contou um episódio de sua vida. Mostrou, por exemplo, uma foto na qual, aos 15 anos de idade, parecia ter no máximo 12. Foi apoiado por sua família e pelo São Paulo - até que o atraso em sua idade óssea fosse recuperado. Falou de quando, aos 16 anos, fraturou a sexta vértebra do pescoço e treinou dois dias depois disso, mesmo com dor na cabeça e no pescoço. Não ficou sem andar por um milagre e entrou no capítulo fé.

Outros assuntos com forte relação com o mundo dos investimentos, a adrenalina e o risco do sucesso, apareceram em vários momentos. Logo no começo da apresentação, o canto de um gol é projetado numa tela, com o coro de 60 mil vozes, que acompanhou Kaká durante seis anos, cantando em uníssono: "Siamo venuti fin qua per vedere signare Kaká!!! (Viemos aqui para ver Kaká marcar!!!)". Em 2007, o Milan, no qual Kaká jogava, ganhou todos os títulos da Europa e ele foi considerado o melhor jogador do mundo da Fifa, além de levar a Bola de Ouro da revista France Football. Foi o último brasileiro a levar o título.

Aos 37 anos, Kaká diz se inspirar em Buzz Lightyear na fase pós-gramado, na qual entrou há dois anos. Ao ter seu capacete aberto pelo boneco Andy, no primeiro filme de "Toy Story", o astronauta fala uma frase clássica: "Há vida fora da minha cápsula". Kaká repete e ri da frase. "Tem muita vida fora da minha cápsula", diz. "Fui esquiar, saltar de paraquedas e buscar prazer nas pequenas coisas da vida, como almoçar com minha mulher e meus filhos."

Além de ter uma empresa familiar que investe no ramo imobiliário com terrenos, escritórios e casas em lugares tão diferentes como São Paulo, Natal, Brasília, Itália e Nova York, Kaká opera em bolsa. Fez cursos, acompanha o noticiário e usa softwares de investimento.

Em outra frente, estudou gestão esportiva na FGV, fez o mestrado executivo para jogadores internacionais da UEFA (MIP-Uefa), um curso em Harvard e visitou o Milan, o Real Madrid e o São Paulo estudando a gestão do futebol. Começa também uma carreira de palestrante. "Encerrei a carreira quando muita gente está começando", diz ele. "É uma fase que traz um frio na barriga bom." 

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