As médias vêm aí

Com crescimento acelerado, empresas emergentes tornam-se centro das atenções de bancos de investimento

Melina Costa, Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Entrecortado por corredores estreitos e escadinhas com poucos degraus, o prédio onde fica a Linx, empresa de tecnologia para o varejo, é labiríntico. Para acomodar os funcionários, a companhia primeiro ocupou o espaço onde era a garagem, depois alugou a casa do outro lado da rua. Diante da impossibilidade de expandir mais, a Linx decidiu se mudar para um prédio de dez andares - que, segundo prevê Alberto Menache, presidente e sócio, será inaugurado quase cheio.

A falta de espaço é a manifestação mais óbvia do crescimento experimentado pela Linx. Com um faturamento de R$ 80 milhões em 2009 e uma previsão de R$130 milhões para este ano, a empresa atraiu, em janeiro, um sócio de peso, o BNDESPar (braço de participações do banco estatal). E o assédio aumentou. "Recebo a ligação de um fundo por semana", diz Menache.

A Linx é representante de um grupo cada vez mais amplo de empresas médias que passou a atrair a atenção de investidores. O Estado fez um levantamento com bancos de investimento, consultorias e fundos de participação e chegou a dez companhias consideradas especialmente promissoras (veja quadros). Se encaixaram na amostra aquelas com receita entre R$ 50 milhões e R$ 500 milhões.

Trata-se de um grupo ainda distante da Bolsa e que, exatamente por isso, oferece uma série de oportunidades para os assessores do mercado de capitais. São empresas que ainda devem atrair sócios, realizar aquisições, emitir dívida e fazer o IPO (oferta pública inicial de ações). Para se aproximar desse time, os bancos de investimento decidiram criar estruturas específicas. O Bradesco BBI abriu no início do ano uma área apenas para oferecer produtos do mercado de capitais para empresas com até R$ 500 milhões de receita. O Santander dedicou uma vice-presidência à tarefa de aproximar as empresas emergentes, que já são suas clientes, do seu banco de investimento. O Santander mapeou 100 empresas que deverão realizar negócios no curto prazo, como fusão ou aquisição.

Neste mês, a empresa de auditoria britânica Ernst & Young anunciou uma união com a brasileira Terco exatamente para reforçar sua presença entre as médias. Segundo André Viola Ferreira, sócio da Terco, as companhias de médio porte começaram a organizar a estrutura contábil e financeira para não perder oportunidades. "Os empresários se preocupam agora com o passo seguinte: a gestão", diz.

Há até pouco tempo, uma empresa precisava entrar para o clube do bilhão para receber tanta atenção. O que mudou? Primeiro, trata-se de uma evolução natural do mercado de capitais. Chegou a vez das médias. "As empresas grandes já fizeram IPO, já se consolidaram ou ficaram muito caras. As grandes oportunidades agora estarão nas médias", diz Ricardo Lacerda, ex-chefe do banco de investimento do Citi no Brasil e que recentemente fundou a assessoria BR Partners.

A outra explicação está no fato de que as médias vão se tornar grandes em breve. "Com o crescimento esperado do País de 4% a 5% ao ano nos próximos anos, o aumento de demanda será enorme para as empresas médias, exatamente aquelas com estrutura de capital mais frágil", diz João Teixeira, vice-presidente de Corporate e Empresas do Santander. "Um bilhão de faturamento vai acontecer rápido para essas empresas."

Foi esse cenário que fez com que o executivo Carlos Miranda deixasse a Ernst&Young para criar a BR Opportunities, que administra fundos interessados em se tornar sócios de pequenas e médias. "Antes, um fundo demorava de sete a nove anos para conseguir retorno do investimento. Hoje, o período caiu para três a cinco anos", diz.

Setores. A expansão das médias deve se dar em alguns setores específicos: no varejo e na venda de bens de consumo, diante da ascensão da classe C; na infraestrutura, devido aos planos para a Copa do Mundo e a Olimpíada; e no setor de petróleo e gás, com a descoberta do pré-sal. "Só em obras já previstas, serão investidos R$ 500 bilhões na infraestrutura do País nos próximos quatro anos", diz Fábio Mentone, diretor do Bradesco BBI. "Com isso, as grandes empresas vão crescer e levar as médias de carona."

Como estão em estágio inicial de acesso ao capital, o principal dado que mostra, até agora, a ascensão das companhias médias é o aumento no volume de empréstimos. O crescimento desse grupo foi o grande destaque nos balanços do segundo semestre dos principais bancos brasileiros. Uma nova fase, porém, começa a se desenhar. "O desenvolvimento do mercado de capitais vai fazer aumentar o universo de investidores dispostos a comprar ações de empresas menores, com lançamentos menores. Nos próximos dois ou três anos, o mercado deve ficar mais próximo do americano, onde um número enorme de empresas com até US$ 100 milhões de faturamento abrem o capital", diz José Olympio, corresponsável pelo banco de investimentos do Credit Suisse.

 

Grupo Umbria

Onde fica: Rio de Janeiro (RJ)

Faturamento (2009): R$ 360 milhões

O que faz: É dona das marcas de fast-food Spoleto, Koni e dos direitos da Domino"s Pizza no Brasil

Perfil: A rede de massas rápidas Spoleto se transformou, em uma década, em um grupo multimarca que inclui fábricas de alimentos, estrutura de distribuição e lojas. Os dois sócios-fundadores mantêm mais de 90% do capital da empresa - o restante está nas mãos de alguns executivos. Segundo o vice-presidente do Grupo Umbria, Eduardo Ourivio, a companhia tem intenção de comprar marcas do setor de fast-food que sejam complementares ao seu negócio. "Pode ser uma rede maior que a Koni (que vende comida japonesa)", diz ele. Ourivio diz não descartar um IPO ou a entrada de um fundo de investimento no quadro societário.

Georadar

Onde fica: Nova Lima (MG)

Faturamento (2009): R$ 140 milhões

O que faz: Diagnósticos geológicos

Perfil: Criada por um grupo de professores da USP, a empresa foi comprada em 2003 pelo atual dono, o empresário Celso Magalhães. Atua em três frentes. A primeira é o diagnóstico do impacto ambiental de indústrias em grandes áreas e seu tratamento. A segunda é a análise sísmica do solo para encontrar petróleo. Mais recentemente, impulsionada pelo pré-sal, a empresa passou a fazer investigação oceanográfica. No fim do ano passado, o fundo AG Angra, resultado da associação entre o Grupo Andrade Gutierrez e a Angra Partners, comprou metade do capital da Georadar. Desde então, foram realizadas três aquisições.

BS Construtora

Onde fica: Brasília (DF)

Faturamento (2009): R$ 164 milhões

O que faz: Construção civil - com foco em casas populares

Perfil: Foi fundada pelo ex-pedreiro Sidnei Borges dos Santos, que criou um método inovador de construção em módulos. Ele e sua esposa ainda são os únicos sócios. Pela primeira vez, o balanço da BS está sendo auditado. A intenção é deixar a construtora pronta para um possível IPO. Impulsionada pelo programa Minha Casa, Minha Vida, a empresa negocia com três bancos de investimentos que pretendem desenhar seu plano de crescimento para os próximos cinco anos. A BS também escolhe, entre fundos de investimentos, qual deverá ser seu sócio em projetos de construção.

Alog Data Centers

Onde fica: São Paulo (SP)

Faturamento (2009): R$ 81,7 milhões

O que faz: Terceirização de serviços e infraestrutura de TI para grandes e médias empresas

Perfil: Resultado da fusão de duas empresas, a Alog tem o fundo de private equity Stratus como um de seus sócios minoritários. Aluga infraestrutura de data centers e presta serviços para empresas que cresceram e não conseguem mais fazer a gestão de TI sozinhas. Tem balanços auditados e criou um conselho de administração. É assessorada por um escritório de advocacia e um banco de investimentos que preparam a empresa para o IPO, que deve acontecer em dois anos. "Já tivemos contato com os investidores e sabemos que o mercado tem apetite para empresas com faturamento inferior a R$ 1 bilhão", diz Emanuel Dutra, diretor financeiro da Alog.

Poit Energia

Onde fica: São Bernardo do Campo (SP)

Faturamento (2009): R$ 80 milhões

O que faz: Aluga geradores de energia e infraestrutura temporária

Perfil: Com clientes como Petrobrás, Vale e Odebrecht, a Poit Energia aluga geradores de energia elétrica e itens como contêineres e torres de iluminação. "Provemos soluções em situações em que o País cresce muito rápido e falta infraestrutura", diz Wilson Poit, presidente da companhia. Há dois anos, um fundo da GP Investimentos adquiriu 35% do capital da empresa. Entre os cotistas estão o BNDES e os fundos Fucef, Previ e Petros. Em três anos, a empresa espera tornar-se a maior de seu setor na América Latina e estar pronta para o IPO.

Locar

Onde fica: Guarulhos (SP)

Faturamento (2009): R$ 310 milhões

O que faz: Transporta grandes equipamentos; aluga e opera guindastes

Perfil: Fundada por Julio Eduardo Simões, um dos herdeiros da empresa de logística Julio Simões, a Locar começou com o transporte de máquinas pesadas. Hoje, a maior parte do faturamento está no aluguel e operação de guindastes em obras, plantas petroquímicas e refinarias de petróleo. Investiu ainda na área marítima com a compra de rebocadores, balsas para cargas e um terminal marítimo. "Teremos dez anos de crescimento monstruoso pela frente", diz Simões. "Perdi a conta de quantos bancos e fundos me procuraram." Em 2009, a Locar tornou-se uma empresa S.A. e até o fim do ano deve ser registrada na BM&FBovespa (sem abrir o capital) para seguir regras de governança.

Grupo Cepemar

Onde fica: Vitória (ES)

Faturamento (2009): R$ 100 milhões

O que faz: Licenciamento/monitoramento ambiental

Perfil: O Grupo Cepemar ajuda indústrias a escolher áreas para instalação, trabalha no licenciamento ambiental e, depois, monitora o impacto no meio ambiente (uma obrigação legal das empresas). Em 2011, sua receita deve crescer 40% graças a um contrato assinado com a Petrobrás. A partir de agora, a Cepemar fará o monitoramento da costa brasileira com uma embarcação que trabalhou no Golfo do México depois do vazamento de petróleo da British Petroleum (foto). "Nossos clientes são dos setores de petróleo e gás, energia, mineração e papel e celulose", diz o diretor Érik Fabian Cunha. "Crescemos junto com a infraestrutura." Atualmente, a empresa negocia com fundos de investimentos e espera abrir o capital em quatro anos.

 

Aqces

Onde fica: São Paulo (SP)

Faturamento: R$ 200 milhões*

O que faz: Logística para grandes empresas

Perfil: Nascida em meados do ano passado como a empresa de logística do fundo de private equity Green Capital, a companhia transporta matéria-prima, peças e mercadorias de grandes empresas. Hoje, tem 12 filiais espalhadas pelo País e atua em Estados como São Paulo, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Em março deste ano, comprou a Ultracargo, braço de logística do Grupo Ultra, o que aumentou sua escala. Entre seus clientes já figuram empresas como Shell, Braskem, Votorantim, Camargo Corrêa, Basf e Dow. Com o objetivo de faturar R$ 1 bilhão até 2014, a companhia quer basear sua expansão em "crescimento orgânico e aquisições".

Linx

Onde fica: São Paulo (SP)

Faturamento (2009): R$ 80 milhões

O que faz: Desenvolvimento de softwares e outras tecnologias para o varejo e consultoria

Perfil: A Linx começou desenvolvendo softwares de gestão e para uso no ponto de venda de varejistas, especialmente os dedicados a vestuário e calçados. Hoje presta serviços de telecomunicações, logística e consultoria. Atende lojistas dos 50 maiores shoppings centers do País, além de empresas como Casas Bahia, InBrands e Walmart. Sua primeira aquisição foi em 2008. No início do ano, o BNDESPar, braço de participações do banco, tornou-se sócio com quase 22% do capital. Depois disso, a empresa adquiriu outras três concorrentes. "Queremos fazer mais duas ou três aquisições nos próximos 12 meses e esperamos fazer o IPO até 2014'', diz Alberto Menache, presidente e sócio da Linx. ''Queremos comprar empresas com clientes consolidadores para que o nosso sistema prevaleça.''

Zelo

Onde fica: São Paulo (SP)

Faturamento (2009): R$ 285 milhões

O que faz: Rede de lojas especializada em artigos de cama, mesa e banho

Perfil: Fundada em 1962 pelo descendente de libaneses Anis Razuk, hoje é administrada por três de seus cinco filhos: Mauro, Horácio e Fernando. A Zelo tem uma fábrica de acolchoados e edredons na região do Brás e abrirá sua 40.ª loja em setembro. Os donos dizem ter recebido quatro ofertas: dois concorrentes tentaram associação e dois fundos se interessaram em adquirir participação. Nenhuma das negociações avançou. "Até agora, as propostas tratam a empresa como pechincha, mas não descartamos a entrada de um sócio no futuro", afirma Mauro. Dois bancos de investimento já procuraram a empresa oferecendo auxílio em caso de novas negociações.

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