Raj Patidar|Reuters
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Temos chance de eliminar os males que afetaram a humanidade por milhares de gerações, do analfabetismo até a mais abjeta pobreza

Nicholas Kristof, The New York Times

23 Setembro 2016 | 05h00

O mundo está uma bagunça, com bilhões de pessoas prisioneiras de inescapáveis ciclos de guerra, fome e pobreza, com o maior número já visto de crianças morrendo em decorrência da fome, doença e violência.

Essa descrição parece ser a única coisa em torno da qual os americanos estariam de acordo; em relação a todos os demais tópicos, o que se vê é a polarização. Mas várias pesquisas de opinião descobriram que 9 de 10 americanos acreditam que a situação da pobreza global piorou ou se manteve a mesma nos 20 anos mais recentes.

Felizmente, o único ponto de consenso entre os americanos está completamente equivocado.

Com lideranças de todo o mundo se reunindo para a Assembleia-Geral das Nações Unidas esta semana, todas as evidências indicam que estamos num momento histórico de inflexão. O número de pessoas vivendo na pobreza extrema (US$ 1,90 por pessoa por dia) caiu pela metade em duas décadas, e o número de crianças pequenas morrendo teve queda semelhante – são seis milhões de vidas salvas todo o ano pelas vacinas, incentivo ao aleitamento materno, remédios para pneumonia e tratamentos contra diarreia!

Os historiadores podem concluir que o processo mais importante desenrolado no mundo durante o início do século 21 foi uma impressionante redução no sofrimento humano.

Talvez você esteja pensando que eu finalmente perdi o juízo depois de passar tempo demais em locais em situação desesperadora. Portanto, vamos aos dados:

1. Até recentemente, em 1981, quando eu estava terminando a faculdade, 44% da população mundial vivia na extrema pobreza, de acordo com o Banco Mundial. Agora, acredita-se que essa proporção seja inferior a 10%, e a queda continua. “Essa é a melhor notícia do mundo atual”, disse Jim Yong Kim, presidente do Banco Mundial.

2. Durante toda a história da humanidade até os anos 60, a maioria dos adultos era analfabeta. Agora, 85% dos adultos de todo o mundo foram alfabetizados, e a proporção está aumentando.

3. Embora a desigualdade tenha aumentado nos Estados Unidos, a tendência global é mais animadora: no panorama internacional, a desigualdade está em queda por causa dos ganhos conquistados pelos pobres em países como China e Índia.

A ONU tem como objetivo erradicar a pobreza extrema até 2030, e os especialistas acreditam que seja possível algo bem perto disso. Em resumo, ainda no nosso turno, temos uma chance considerável de virtualmente eliminar os males que afetaram a humanidade por milhares de gerações, do analfabetismo até a mais abjeta pobreza.

Mas o público acredita no oposto: que a pobreza está aumentando. Uma pesquisa de opinião divulgada na quinta-feira pela firma holandesa Motivaction revela que apenas 1% dos americanos participantes tinha consciência que a pobreza extrema global tinha sido reduzida pela metade num período de 20 anos.

Equívoco. Eu me pergunto se nós do universo do jornalismo e das agências humanitárias não erramos ao dedicar tanta atenção para o sofrimento humano a ponto de dar ao público a impressão equivocada segundo a qual tudo está sempre piorando.

Já cobri histórias de massacres no Sudão do Sul, campos de concentração em Mianmar e casos generalizados de crianças com o desenvolvimento prejudicado pela má nutrição na Índia, mas também é importante reconhecer o contexto de progresso global. Caso contrário, o público pode vir a enxergar a pobreza como um problema sem solução e desistir de continuar na luta – justamente no momento em que estamos obtendo as melhorias mais aceleradas já observadas.

Quando tive meu primeiro contato com o mundo dos países em desenvolvimento, em minhas viagens na época de estudante de Direito nos anos 80, às vezes andando no teto de trens e ônibus e escrevendo artigos para pagar as contas, o aspecto mais revoltante da pobreza que encontrei foi a onipresença de pedintes cegos, dos quais tinha sido tomada a dignidade e qualquer chance de serem produtivos.

Isso é muito menos comum hoje, em parte porque a ajuda humanitária (apesar de seus limites concretos) fez muita diferença na área da saúde. O heroico trabalho do ex-presidente Jimmy Carter e doações farmacêuticas da Merck tornaram o mal do garimpeiro menos comum. Cápsulas de vitamina A com custo de US$ 0,02 por dose também reduziram a cegueira. Os antibióticos ajudaram a limitar os casos de tracoma cegante. E uma simples cirurgia de US$ 25 desenvolvida pelo oftalmologista nepalês dr. Sanduk Ruit permite que pessoas com catarata voltem a enxergar.

A cena dos mendigos cegos em cada esquina logo desaparecerá para sempre.

Os cínicos apontam que, se mais vidas de crianças forem salvas, estas vão crescer e ter mais filhos, causando novos ciclos de pobreza e fome. Não é verdade! Quando os pais têm a garantia da sobrevivência dos filhos, eles optam por ter um menor número deles. Conforme as meninas recebem educação e métodos contraceptivos se tornam disponíveis, a taxa de natalidade cai – exatamente como ocorreu no Ocidente. As mulheres indianas têm hoje uma média de apenas 2,4 nascimentos; na Indonésia, são 2,5; e, entre as mexicanas, apenas 2,2.

Assim, logo voltaremos às urgentes necessidades globais, da guerra à mudança climática e aos refugiados. Mas, primeiro, façamos uma pausa de um nanossegundo de silêncio para reconhecer os maiores ganhos no bem-estar humano jamais vistos na história de nossa espécie – não para que isso nos inspire complacência, mas para incentivar nossos esforços no sentido de acelerar aquela que pode ser a mais importante tendência do mundo atual. / TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL

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