As montadoras querem mais

O noticiário da semana passada deixou escapar que o governo Dilma, outra vez, está se deixando comover com a choradeira da indústria nacional de veículos e se propõe a lubrificar as vendas no mercado interno, desta vez por meio de novas facilidades a serem concedidas na área do crédito.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2012 | 03h07

A indústria gostaria de que fossem repetidos os favores de meses atrás, quando o governo concedeu redução e isenção do IPI. Como a arrecadação não está se comportando como planejado, o governo já não pode atuar com a mesma generosidade por meio desse canal. Mas já está empurrando o Banco do Brasil (mais seu caudatário Votorantim) e a Caixa Econômica Federal para que acionem as engrenagens do crédito, não se importando demais com o excesso de risco a que estejam se expondo.

Este governo, nascido em grande parte da luta sindical do ABC, se mostra especialmente vulnerável às pressões das montadoras. Essas, por sua vez, acostumadas com molezas federais, com a relativa reserva de mercado proporcionada por elevadíssimas defesas alfandegárias e pouca pressão por mais qualidade - e menos preço -, sempre que se atolam nos estoques não se constrangem a desfilar queixas em Brasília - geralmente misturadas com ameaças de demissões de pessoal.

As autoridades deste governo parecem não se dar conta de que o mercado interno vive momento de saturação. A forte elevação da inadimplência no segmento de financiamento de veículos, que levou bancos privados a pisarem nos freios do crédito, é bom indício desse estreitamento. Outro indício é a incapacidade da indústria de transformação (e não as montadoras) de atender à demanda interna, como ainda ontem mostrou o Índice de Atividade Econômica do Banco Central.

É verdade que, em apenas sete anos, as classes médias brasileiras receberam mais de 40 milhões de pessoas, agora com maior capacidade de consumo. Ocorre que essa parcela da população já enfrenta novas despesas, está sobrecarregada com dívidas e não dispõe de elasticidade orçamentária. Essas pessoas passaram a gastar fatias cada vez mais altas de seu orçamento com serviços - como tarifas de telefone celular, condução, ensino, viagens, academia, cabeleireiro e refeição fora de casa. A disparada da inflação no segmento dos serviços (próxima dos 10% em 12 meses) ajuda a mostrar o impacto dessas despesas no orçamento familiar das classes médias. Forçar ainda mais a estrutura de consumo dessa gente leva o risco de acentuar distorções da economia.

Uma dessas distorções é o baixíssimo nível de poupança, que prejudica a capacidade de investimento. O próprio presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, antes um entusiasta das políticas redistributivas, parece ter mudado de santo: "O momento não é mais de prioridade ao consumo, mas de prioridade ao investimento". E, no entanto, não há no País nenhum esforço destinado a puxar pela poupança, como poderiam ser as iniciativas pelo desenvolvimento de previdência complementar.

Essa desconsideração para com o fortalecimento da poupança parece ser o resultado da postura histórica do PT, segundo a qual basta criar grande mercado interno de massas para que o resto venha por acréscimo: investimentos, produção e emprego. Agora se vê que não é assim.

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