As multinacionais em maus lençóis

As empresas globais mostram-se vulneráveis a ataques, mas Donald Trump pode ter chegado tarde à festa

The Economist, Impresso

30 de janeiro de 2017 | 05h00

Uma das muitas coisas de que Donald Trump não gosta são as grandes empresas globais. Anônimas e sem raízes, elas seriam responsáveis por submeter os americanos comuns à “carnificina” da transferência de empregos e fábricas para o exterior. Para o novo presidente dos Estados Unidos, a solução é domesticar essas multinacionais flibusteiras. Impostos mais baixos farão com que elas internalizem seus recursos, tarifas de importação interromperão suas cadeias internacionais de suprimento e os acordos comerciais que até agora as ajudavam a operar globalmente serão renegociados. Para que não sejam alvo de medidas punitivas, “tudo que vocês têm a fazer é ficar por aqui”, disse ele a empresários americanos na semana que passou.

Trump adota um tom protecionista extraordinariamente agressivo. Mas, em muitos aspectos, chegou tarde à festa. Agentes da integração global, as empresas multinacionais já estavam batendo em retirada muito antes da eclosão das revoltas populistas de 2016. Seu desempenho financeiro piorou tanto nos últimos anos que elas já não superam as companhias locais. Muitas parecem ter esgotado sua capacidade de reduzir custos e obrigações tributárias. E já não se mostram mais inovadoras que suas concorrentes locais.

Fim da arbitragem. As multinacionais empregam apenas um em cada 50 indivíduos que fazem parte da força de trabalho mundial. Mas sua importância é enorme. Mesmo que em número não passem de alguns milhares, essas corporações influenciam o que bilhões de pessoas assistem, vestem e comem. Empresas como IBM, McDonald’s, Ford, H&M, Infosys, Lenovo e Honda são referência em administração. Coordenam cadeias de suprimento responsáveis por mais de 50% das trocas internacionais. 

O início da década de 90, marcado pela abertura da China, pela derrocada do bloco soviético e pela integração europeia, foi sua era de ouro. Os investidores se entusiasmaram com as economias de escala e a eficiência das empresas globais. Em vez de atuar como uma série de unidades nacionais independentes, como acontecia com as multinacionais constituídas em décadas anteriores, suas operações se espalhavam pelo mundo afora. Tornou-se algo corriqueiro que uma fábrica instalada na China, por exemplo, tivesse proprietários americanos, utilizasse maquinário alemão e vendesse seus produtos no Japão. 

Por trás da ascensão das multinacionais estava a convicção de que, em comparação com outras empresas, elas eram máquinas muito mais azeitadas de fazer dinheiro. Isso já não é verdade. Nos últimos cinco anos, o lucro das companhias globais sofreu um recuo de 25%. O retorno sobre o capital é o mais baixo em 20 anos. A valorização do dólar e a queda do preço do petróleo explicam parte do declínio. As superstars da tecnologia e as fabricantes de bens de consumo com marcas sólidas continuam tendo bom desempenho. Mas o fenômeno é generalizado e prolongado demais para ser considerado mero contratempo. O retorno sobre o patrimônio de cerca de 40% de todas as multinacionais do planeta é inferior a 10%, indicando performance aquém da esperada. Na maioria dos setores da economia, essas empresas atualmente crescem em ritmo mais lento e são menos lucrativas do que as companhias locais que preferiram não se aventurar alhures. 

A razão disso é que, após 30 anos, está se fechando a janela de arbitragem que impulsionou a formação das empresas globais. Tendo explorado os benefícios fiscais que havia para explorar, elas já não conseguem reduzir suas obrigações tributárias; na China, os salários dos operários estão em alta. As companhias locais se sofisticaram e hoje roubam, copiam ou deslocam as inovações das multinacionais, sem precisar investir recursos vultosos na construção de sedes administrativas e plantas industriais no exterior. Das produtoras americanas de petróleo de xisto aos bancos brasileiros, do comércio eletrônico chinês às empresas de telecomunicações indianas, as empresas de melhor desempenho agora são locais, não globais.

As mudanças no cenário político tornam as coisas ainda mais difíceis para as gigantes globalizadas. Trump é a mais recente, e espalhafatosa, manifestação de uma tendência mundial: as autoridades desejam reter uma proporção maior do valor capturado pelas multinacionais. A China já não se contenta em ter cadeias de suprimento de empresas globais instaladas em seu território. Almeja atividades mais intelectuais, como as de pesquisa e desenvolvimento. No ano passado, Europa e Estados Unidos se digladiaram para ver quem ficaria com os US$ 13 bilhões em impostos que Apple e Pfizer recolhem por ano. 

A chegada de Trump à Casa Branca contribuirá apenas para acelerar um processo de reestruturação que tende a ser, por si só, bastante sangrento. Muitas empresas tornaram-se grandes demais: terão de reduzir as dimensões de seus impérios. Outras tentam fincar raízes mais fundas nos mercados em que operam. General Electric e Siemens estão concentrando cadeias de suprimento, produção, empregos e obrigações tributárias em unidades regionais e nacionais. Outra estratégia é ganhar “intangibilidade”. As estrelas do Vale do Silício, do Uber ao Google, continuam a se expandir no exterior. Redes de fast-food e cadeias hoteleiras, em vez de fritar hambúrgueres e arrumar camas, agora preferem comercializar direitos de marca.

Reassumindo o controle. O recuo das empresas globais deixará os políticos com a sensação de ter mais controle sobre elas. Mas não serão todos os países que conseguirão se apropriar de fatias mais amplas da produção, dos empregos e dos impostos gerados por cada uma dessas companhias. Além disso, o desmanche acelerado da forma corporativa dominante nos últimos 20 anos pode ganhar contornos caóticos. Muitos países com déficits comerciais dependem do fluxo de capital gerado pelas multinacionais. Se o lucro dessas empresas recuar ainda mais, o valor dos mercados acionários provavelmente encolherá.

E quanto aos consumidores e eleitores? Eles manipulam as telas, vestem as roupas e cuidam da saúde com os produtos das empresas que acusam de ser imorais, exploradoras e indiferentes aos problemas dos países em que operam. A era de ouro das empresas globais também foi a era de ouro da eficiência e do poder de escolha dos consumidores. Seu fim talvez faça com que o mundo pareça mais justo. Mas o refluxo das multinacionais não tem como trazer de volta todos os empregos prometidos por políticos do jaez de Trump. 

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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