As notícias ruins e o Banco Central
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As notícias ruins e o Banco Central

As condições da economia brasileira não são nada boas e é preciso falar sobre isso

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 20h19

Nem sempre as pessoas estão dispostas a ouvir verdades duras. Dario III, rei da Pérsia (século 4º antes de Cristo), exasperado quando soube que seu exército fora derrotado por Alexandre, mandou matar o mensageiro que lhe trouxe a notícia. Não deve ter sido o primeiro nem o último a ter esse procedimento.

Mesmo sem serem maiorais do mundo, alguns leitores dizem que não gostam de comentários sobre crises. Um deles chegou a mandar mensagem em que dizia que chega de notícia ruim. 

Em vez de apontar os males do Brasil e do mundo, por que não mostrar o lado cheio do copo ou, então, em vez de criticar o governo, por que não cada qual fazer o que pode, como proporcionar alguma ajuda aos necessitados e contribuições para a Legião da Boa Vontade?

A função de um analista – além de reconhecer acertos – é apontar os equívocos ou omissões das políticas públicas; não é acender um fósforo em vez de reclamar da escuridão.

De mais a mais, não são apenas os críticos que mostram as feridas. O Banco Central, que é instituição de Estado, na sua última ata do Copom, apontou enormes distorções da economia brasileira.

A economia mundial não está mais ajudando. Bancos centrais de economias importantes estão para tomar decisões que tornarão “as condições financeiras mais desafiadoras para as economias emergentes”. E nem se pode dizer que a covid-19 foi derrotada, porque a variante Ômicron está se espalhando com rapidez, o que pode exigir novas restrições que conterão a atividade econômica e aumentarão o desemprego. E há “a questão imobiliária da China”, ou seja, há as consequências da quebra da Evergrande.

No Brasil, o crescimento econômico está decepcionando. Divulgado nesta quarta-feira, o Índice da Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), cuja função é antecipar a trajetória do PIB, mostrou que a produção em outubro, primeiro mês do quarto trimestre, caiu 0,40% na comparação mensal, na série com ajustes sazonais. Foi o 4º mês consecutivo que o IBC-Br apresentou queda. 

A inflação, aponta a ata, segue elevada e disseminada. E tem a questão fiscal. Nessa matéria, prefere ser mais comedido, supostamente para não provocar os responsáveis. Em vez de disparar que a desorganização das contas públicas traz insegurança, prefere dizer que “questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevam o risco de desancoragem das expectativas de inflação”. E lamenta “o esmorecimento no esforço de reformas estruturais”.

O Banco Central não conta com a ajuda do governo e faz o que está a seu alcance: puxa pelos juros. Se fosse um carro de corrida, controlaria apenas o aerofólio e não o motor; nem os freios nem os pneus.

Não há como discordar desse mensageiro. Não só passa a mensagem cabível, mas, também, cumpre a função de advertir que as condições da economia não são nada boas.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA 

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