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As pedaladas cambiais

São de conhecimento público as pedaladas fiscais ocultas do Tesouro entre 2011 e 2014, tendo o objetivo de aparentar melhor situação das finanças públicas, na medida em que o custo de uma orientação de governo para incentivar demanda e determinar alguns preços-chave da economia ficava dramático. Mas, além das já conhecidas pedaladas fiscais, há muitas outras que precisam ser desfeitas, inclusive as pedaladas cambiais.

Nathan Blanche, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2015 | 02h07

A atuação do Banco Central (BC) ao longo do primeiro mandato de Dilma também contribuiu para a geração de desequilíbrios, seja pela execução de uma política monetária frouxa que resultou em inflação elevada próxima ao teto da meta ao longo dos últimos quatro anos, seja pela atuação no mercado cambial, num primeiro momento, para evitar a apreciação do real, e, num segundo, para evitar um quadro de inflação ainda mais crítico.

Na esfera cambial, a atuação do BC tem distorcido a formação da taxa de câmbio, acabando definitivamente com o regime de câmbio flutuante. As pedaladas cambiais se dão por meio de oferta de câmbio nos mercados futuros (swaps) e, em menor escala, de linhas de crédito com recompra. Vale lembrar que as pedaladas cambiais começaram, na verdade, em outubro de 2010, mas o objetivo era outro, evitar maior apreciação do real. Tinha-se atuação do BC na ponta de compra de dólares e o governo taxando influxos de dólares via IOF e importação. Neste período houve 20 mudanças em normativos cambiais.

Estudo recente do Nomura Securities indica que o Brasil lidera a oferta de dólares entre os mercados emergentes e é o único que remanesce com essas intervenções até o momento. Além disso, a evolução das contas externas evidencia o fracasso dessa política intervencionista. De 2011 a 2014, o déficit em conta corrente aumentou de 2% para 4% do PIB, e a balança comercial passou de um superávit de US$ 30 bilhões para um déficit de US$ 3,9 bilhões. Para 2015, o cenário também não é alentador, já que a necessidade de financiamento estimada é de US$ 154 bilhões, acima da do ano passado, mesmo com a expectativa de ligeiro saldo positivo da balança comercial (US$ 1,5 bilhão).

Em suma, a distorção de preços relativos está cobrando seu preço. Somam-se a isso as questões estruturais, que tiveram involução nos últimos anos, inclusive com o maior fechamento da economia.

Só a título de comparação, o fluxo médio de comércio dos países do pacto do pacífico (Peru, México, Chile e Colômbia) é cerca de 50% do PIB, enquanto no Brasil é de 21% do PIB, o que significa que convivemos numa economia fechada, protegida e, assim, pouco competitiva. A reduzida competitividade dos produtos brasileiros nos últimos anos pode ser analisada à luz de dois números: a taxa de câmbio real recuou 27% e os salários na indústria cresceram 35% entre 2005 e 2014.

Se essas fragilidades dos indicadores não bastam para justificar nosso prêmio de risco país, medido pelo CDS de 5 anos, de 210 bps (70% a mais em relação aos quatro países citados), o saldo pode ser atribuído aos desdobramentos da Operação Lava Jato.

Concluindo: para o Brasil voltar a trilhar o caminho do crescimento econômico a partir de 2016, é imprescindível a reversão de todas as pedaladas dos últimos anos, do âmbito fiscal ao cambial. É fato que há custos e riscos associados à reversão. Do lado fiscal é algo mais mensurável, do lado cambial não é tão claro. Inclusive, quanto maior o passivo, maiores os riscos associados ao desmonte, uma verdadeira arapuca cambial. A nomeação de Joaquim Levy e sua equipe contribuiu positivamente, mas não é suficiente para mudança das expectativas, pois este governo continua emitindo sinais de ambiguidade ao nomear sua equipe de ministros tendo em vista apoio político.

Assim, é precondição fundamental para os investidores voltarem a acreditar no Brasil que seja definido o atual quadro de ambiguidade marcado pela convivência da política econômica heterodoxa da presidente Dilma com a ortodoxia do ministro Levy.

*Nathan Blanche é sócio-diretor da Tendências Consultoria

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