Daniel Teixeira/Estadão
Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco, não acredita que a aprovação da reforma da Previdência ocorra no primeiro semestre. Daniel Teixeira/Estadão

‘As pessoas já entenderam que sistema está quebrado’, diz economista do Itaú

Para Mário Mesquita, população está mais aberta a discutir mudança no sistema de Previdência

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2019 | 05h00

Para o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, existem evidências de que o brasileiro está aberto à discussão das mudanças do sistema de Previdência. Segundo ele, com a redução das garantias estatais, deve haver um aumento da predisposição dos cidadãos a pouparem por conta própria. 

Leia os principais trechos da conversa do 'Estadão' com Mesquita sobre o tema:

O brasileiro ainda tem de aprender a poupar?

Há evidências de países asiáticos, e até mesmo o Brasil, de que a baixa renda também consegue poupar com planejamento. Acho que a gente passou por um período de democratização do crédito. E é natural que, nesse cenário, haja um predomínio do consumo presente em relação ao consumo futuro. Mas acredito que já houve um amadurecimento do consumidor brasileiro. Tanto que, mesmo com a taxa de juros no patamar atual (6,5% ao ano, o mais baixo da história), não está se vendo um “boom” de tomada de recursos no Brasil.

Se a política pública mudar, a disposição da população em poupar deve mudar?

Sim. Quanto mais a renda futura é garantida pelo Estado, menor o incentivo individual para poupar. O que as crises fiscais em nível estadual mostraram é que a garantia do Estado não é mais absoluta. O regime de benefício definido que a gente tem hoje só se materializa se a entidade mantenedora é solvente. Por enquanto, o governo tem resolvido essa questão com dívida, vendendo títulos a investidores. Mas isso tem limite. Se não tiver mais condições de tomar dívida para pagar aposentadorias, vai ter de fazer isso com inflação, imprimindo moeda.

O debate sobre Previdência no País está mais maduro?

O grau de conscientização da população sobre Previdência está aumentando muito. As pessoas têm a compreensão de que o sistema atual está quebrado e que não se sustenta no tempo. É claro que é mais fácil falar em termos difusos. Na hora de medir impactos, da discussão no Congresso, o apoio tende a cair.

 

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Reforma da Previdência deve levar brasileiro a poupar mais

Mudança em discussão no Congresso pode ameaçar noção de aposentadoria garantida, incentivando população a ampliar reservas, dizem economistas

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2019 | 05h00

Bem inferior à média global, a taxa de poupança do Brasil é hoje uma das menores entre os principais países da América Latina (exceto Argentina), “lanterninha” entre os Brics (grupo que inclui Rússia, Índia, China e África do Sul) e baixa em relação à maior parte das nações desenvolvidas. Em 2017, o índice brasileiro era de 14,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Apesar de ser influenciada pela crise econômica, a pouca disposição nacional em guardar dinheiro não é explicada só por ela. Segundo economistas ouvidos pelo ‘Estado’, o sistema de bem-estar social – que garante direito universal a educação, saúde e aposentadoria – é um fator que pesa mais na justificativa do fenômeno. 

A reforma da Previdência pode ser um incentivo para o aumento das poupanças individuais no País, apontam especialistas. Embora a Constituição de 1988 garanta acesso universal à saúde e à educação, o cidadão sabe que a qualidade dos serviços deixa a desejar. Não é o que ocorre com a aposentadoria: apesar do alerta dos atrasos recentes no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Norte, os benefícios são historicamente pagos em dia.

“Quanto mais a renda futura é garantida pelo Estado, menor o incentivo individual para poupar. O que as crises fiscais em nível estadual mostraram é que a garantia do Estado não é mais absoluta”, diz Mário Mesquita, economista-chefe do Itaú Unibanco. O economista Simão Silber, da FEA-USP, lembra que o Brasil já gasta “mais que a média da OCDE, o clube dos países ricos, com aposentadoria”.

Como a “nova Previdência” deve resultar no pagamento de benefícios menores, parte da responsabilidade da renda após a aposentadoria será transferida ao cidadão – incentivando reservas. “A correlação é simples: se antevejo o descasamento entre minha renda e os desejos para o futuro, a poupança cresce”, afirma Ricardo Brito, professor da escola de negócios Insper.

Ao relacionarem o aperto na Previdência à elevação da poupança, economistas dizem que o exemplo mais concreto da tendência é a  China, onde a taxa de reservas subiu para quase 50% do PIB após a reforma previdenciária, mesmo com renda média semelhante à brasileira. A “mexida” nas aposentadorias também ampliou reservas em países como Chile e Itália, argumentam especialistas (veja quadro).

Brito, do Insper, rechaça a noção de que o brasileiro é pouco cuidadoso com as finanças. Para ele,  apenas a pequena parcela de trabalhadores que ganha mais do que o teto do INSS – de R$ 5,8 mil – teria hoje incentivo para poupar mais visando à aposentadoria. “O brasileiro seria imprevidente se tivesse uma expectativa de queda brusca de renda na velhice. Nas condições atuais, a poupança é suficiente, pois a taxa de reposição das aposentadorias (quanto se ganha em relação ao salário da ativa) é de cerca de 80%. É muito diferente do que ocorre lá fora.”

Pesquisa da FenaPrevi, federação que reúne os planos abertos de previdência privada, corrobora a confiança do brasileiro no sistema público: entre os entrevistados no levantamento realizado em 2018, 76% disseram que dependerão “muito” ou “totalmente” da renda do INSS após a aposentadoria. 

Com  redução de garantias, porém, o comportamento relativo à poupança tende a se alinhar ao de outras partes do mundo. “A evidência da teoria econômica é de que o ‘bicho-homem’ é mais parecido do que se imagina”, diz Samuel Pessoa, pesquisador do Ibre-FGV. “Sob as mesmas regras, as pessoas tendem a se comportar de forma semelhante. Se um chinês vivesse no Brasil, provavelmente pouparia menos.”

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Brasil perde ‘bônus demográfico’ e vê taxa de poupança encolher

Apesar de total de pessoas em atividade ter crescido, País viu índice de reservas cair de 23% para 15% em 40 anos

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

13 de maio de 2019 | 05h00

Os economistas dizem que explicar a queda da poupança do Brasil não é tarefa simples. Pela lógica, com o crescimento da população – e do total de cidadãos em idade economicamente ativa –, a taxa deveria ter aumentado de forma significativa, de acordo com Samuel Pessoa, economista e pesquisador do Ibre-FGV. No entanto, o economista diz que o Brasil desperdiçou o “bônus demográfico” e viu sua poupança cair em um terço desde os anos 1970. Na época, a taxa de reservas brasileira girava em torno de 23%; hoje, está abaixo de 15%.

A comparação com os anos 1970 faz sentido porque a época retrata uma realidade anterior à atual, em relação a três fatores: demografia (na época, a população era mais jovem), Previdência (o total de contribuintes era bem superior ao de beneficiários) e de contas públicas (o gasto primário da União girava em torno de 11%, metade do atual). O hipotético Estado de bem-estar social criado pela Constituição de 1988 deu garantias à população, estabelecendo uma série de “redes de segurança”, incluindo seguro-desemprego e Bolsa Família, argumenta estudo realizado por Pessoa.

Os benefícios instituídos pelo Estado reduziram a percepção de risco para o aposentado. O Brasil está hoje entre as dez que mais gastam com Previdência em uma lista de 101 países, segundo levantamento do pesquisador do Ibre-FGV. O custo dessa conta que não fecha, segundo o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mário Mesquita, levou a um forte déficit da administração pública – principal responsável pela queda geral do índice da poupança. Ele pondera, porém, que as reservas privadas não subiram de patamar, contribuindo também para o problema. Para Pessoa, isso gera uma ciclo perverso: “Um país não cresce de forma sustentável sem poupar.”

Brasil x China. A China é considerada por economistas uma base válida de comparação com o Brasil porque ajuda a derrubar uma noção equivocada: a de que o brasileiro não poupa porque ganha pouco. Hoje, a renda média de chineses e brasileiros ainda é semelhante. “O que muita gente chama de reforma da Previdência, eu vejo como uma mudança cultural”, diz Ricardo Brito, professor do Insper e autor de um estudo que compara os dois países. “Na China, quem se aposenta consegue, com o benefício público, um porcentual baixíssimo do que ganhava na ativa. Eles são obrigados a guardar dinheiro para a velhice”, explica o professor do Insper. 

No Brasil, uma pesquisa feita pela FenaPrevi em 2018, mostrou que só 38% dos brasileiros dizem estar dispostos a separar parte da renda para uma reserva extra para a aposentadoria. Professor da USP, Hélio Zylberstajn, diz que a introdução do modelo de capitalização – um dos pilares do projeto do governo para a Previdência – poderá ajudar a mudar esse quadro. “Hoje, a ideia das pessoas é: ‘minha aposentadoria está lá, garantida’. Com a capitalização, a cabeça das pessoas terá de funcionar de outra maneira. O desenho do sistema influencia na disposição em poupar.”

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