'As pessoas vão pagar para ler no iPad'

Para executivo da Time, interesse pela leitura só deve aumentar com a chegada de novas ferramentas tecnológicas

Aiana Freitas, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

ENTREVISTA

Jim Jacovides, Vice-presidente da Time Inc.

Cerca de 200 novas revistas deverão ser lançadas no mercado brasileiro até 2020. O número ainda coloca o Brasil numa posição distante daquela ocupada por países em que esse mercado é mais maduro - para efeito de comparação, enquanto 4 mil títulos circulam aqui no País, 7 mil estão nas bancas americanas. O otimismo do setor, no entanto, é semelhante nos dois mercados.

Em 1999, 84% dos americanos liam revistas. Dez anos depois, o porcentual continuou idêntico. Só a revista People é lida semanalmente por 45 milhões de pessoas - é mais do que a audiência média do programa American Idol, o mais popular da TV americana.

Esses são alguns dos números usados por Jim Jacovides, vice-presidente da Time Inc., para destacar que o interesse pela leitura continua em alta - e deve até aumentar diante da chegada de novas ferramentas digitais como os tablets, computadores pessoais em forma de pranchetas. A própria Time Inc., subsidiária da Time Warner que publica nos Estados Unidos revistas que são licenciadas para o mundo todo, já tem versões da Time e da Sports Illustrated para o iPad, ao custo médio de US$ 4,99 a edição. Em entrevista ao Estado, Jacovides fala das possibilidades criadas pelos tablets e do potencial do mercado brasileiro de revistas.

A Time Inc. já oferece versões de suas revistas para o iPad. O sr. acha que as pessoas de fato estão dispostas a pagar para ler revistas em tablets, apesar de não demonstrarem a mesma disposição com relação à internet?

As pessoas vão pagar para ler informações no iPad porque o conteúdo será mostrado de uma maneira como nunca foi antes. O Kindle (leitor de e-books da Amazon), por exemplo, é horrível para revistas. Ela fica pequena, sem cores, com poucas fotos. Já o iPad possibilita a interação com a internet e o uso de vídeos. Ele nos permite fazer o que fazemos de melhor. E o que fazemos de melhor é vender uma revista que é editada e desenhada de uma maneira bonita. Nós fazemos isso na mídia impressa, e o iPad permite que façamos isso no mundo digital.

Mas as revistas terão condições de oferecer esse conteúdo diferenciado sem que isso represente um aumento nos custos?

O que fazemos na revista Time, por exemplo, é, em 85% dos casos, pegar a revista impressa e colocar o conteúdo na revista digital, para iPad. O resto, 15%, são fotos adicionais, vídeos, ferramentas de interatividade. Esse trabalho poderá ser feito pelas mesmas pessoas que trabalham na revista impressa. Mas certamente serão necessárias mais pessoas na produção para processar e colocar os vídeos no ar - aí, sim, haverá a necessidade de um gasto adicional.

Como as revistas poderão atrair anunciantes para suas versões em iPad?

O iPad permite que eles falem diretamente com os leitores. O usuário poderá explorar o produto, customizá-lo, aprender sobre ele. É um novo tipo de anúncio, baseado na imersão e na experiência. Vamos pegar o exemplo de um Mustang: o anúncio poderia ser um jogo em que o leitor dirigisse o veículo ou uma ferramenta com a qual ele pudesse customizar seu próprio Mustang. E, como o iPad tem um aplicativo que mostra a localização do usuário, ele poderia marcar um encontro com um vendedor para fazer um test-drive. Esse é o tipo de interatividade que você pode ter num site, mas também numa revista para o iPad.

Hoje existem muitas revistas estrangeiras sendo publicadas aqui no Brasil, com conteúdo local e em português. Mas poucas revistas brasileiras são publicadas lá fora. Esse cenário pode mudar, diante do crescimento da economia e do interesse de outros países pelo Brasil?

Acho que, à medida que a economia continuar crescendo - o Brasil pode estar entre as cinco maiores economias do mundo nos próximos 15 anos -, mais e mais pessoas vão ficar interessadas nos produtos brasileiros, incluindo as revistas. A língua pode ser um problema, porque um editor precisa ler a revista para ficar interessado nela. Então isso pode ser uma barreira. Mas, à medida que economia for crescendo, talvez mais pessoas lerão português. É um mercado muito interessante, as pessoas querem ter mais negócios no Brasil. Certamente isso vai criar muitas oportunidades para as editoras licenciarem produtos e encontrarem outras parcerias internacionais.

Que tipo de publicação tem chance de fazer sucesso em outros países?

Tudo que tem uma fórmula editorial única, algo que não pode ser copiado, interessa. Na revista Fortune, por exemplo, nós temos acesso a líderes de negócios dos Estados Unidos e no mundo a que outras revistas não têm acesso. Esse é o diferencial da Fortune. Esse é o tipo de coisa que pode ser licenciada. Se uma revista tem muito bom acesso a líderes empresariais brasileiros, e a economia brasileira se tornar muito expressiva, as pessoas vão querer essa experiência.

QUEM É

Atuando na Time desde 2001, é responsável pelo licenciamento de marcas como Time, Fortune e Sports Illustrated. Trabalhou durante dois anos como gerente de promoções para o Asian Resources Media Group, em Hong Kong. Integra o conselho da Federação Internacional dos Editores de Revistas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.