Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

As pressões sobre o mercado do petróleo

Trump reitera declarações de que os preços da gasolina têm de baixar e a Opep promete aumentar sua oferta, mas, por enquanto, a commodity segue em alta

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 20h46

Não é só no Brasil que os políticos torcem e agem pela redução dos preços dos combustíveis. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump reitera declarações de que os preços da gasolina têm de baixar. E no último encontro dos dirigentes do cartel da Opep, em junho, a Arábia Saudita e a Rússia, grandes exportadores, avisaram que aumentariam a oferta para derrubar as cotações.

No entanto, as cotações seguem altas e podem aumentar ainda mais. No primeiro semestre, as cotações do petróleo tipo Brent (produzido no Mar do Norte) subiram 20,3% para US$ 77,39 por barril de 159 litros, e as do West Texas Intermediate (Golfo do México) subiram 23,4% para US$ 72,94.

Um punhado de fatores atua para manter os preços nesse patamar ou, como vêm predizendo especialistas, até para puxar para acima dos US$ 80.

Apesar das pressões de Trump pela baixa, a política que ele vem adotando em relação ao Irã produz efeito contrário. Se a denúncia do acordo nuclear entre Estados Unidos e Irã tem mesmo de prevalecer, é inevitável que volte o boicote às exportações do Irã ao resto do mundo. E entre elas estão 2 milhões de barris diários de petróleo, o equivalente a 2% da demanda mundial.

A economia da Venezuela, outro membro da Opep, está na lona já conhecida. A oferta histórica de 1,4 milhão de barris diários está reduzida à metade, sem perspectiva de reativação. A Líbia, outro fornecedor de peso, não consegue mais exportar seus 850 mil barris diários, pois vive forte crise política interna.

O projeto da Opep é aumentar a oferta em 1 milhão de barris diários, 1% do total. Mas Arábia Saudita e Rússia não têm dado conta de compensar a quebra de produção dos outros membros da Opep.

Enquanto isso, em parte graças à forte recuperação da economia mundial, os estoques mundiais estão mais baixos e qualquer adversidade fora das previsões pode mexer com o mercado. Os Estados Unidos poderiam aumentar mais rapidamente a produção, especialmente do óleo de xisto. No entanto, aproxima-se a estação dos furacões, que ameaçam a produção do Golfo do México, e isso acrescenta tensão nos mercados.

Do ponto de vista da economia do Brasil, o relativo desequilíbrio entre oferta e procura produz dois efeitos que se contrapõem. A alta de preços dos combustíveis tende a reativar as mesmas pressões que produziram a greve dos caminhoneiros em maio. Se isso acontecer às vésperas das eleições, a temperatura política inevitavelmente aumentará.

Por outro lado, o governo federal prepara-se para realizar o megaleilão de áreas do pré-sal, correspondentes ao excedente da cessão onerosa da Petrobrás. Preços altos do petróleo tendem a aumentar a competição por direitos de exploração desses 15 bilhões de barris recuperáveis e, com isso, garantir R$ 80 bilhões em receitas com prêmios de assinatura. Como se trata de área já suficientemente prospectada, esse leilão tende a antecipar investimentos e, assim, a ajudar o Rio a afugentar o desemprego e a crise fiscal aguda. Mas, para isso, o governo não pode perder a agenda.

CONFIRA:

» Parada nos investimentos

A greve dos caminhoneiros não travou apenas a produção e o consumo. Produziu também grande estrago no investimento, que leva o nome técnico de Formação Bruta de Capital Fixo. O indicador do Ipea mostrou queda de 11,3% nos investimentos em maio sobre abril. Ainda não dá para avaliar até que ponto foi apenas um atraso ou se houve desistência. É o que será visto nos 60 dias seguintes. No período de 12 meses terminado em maio o resultado é ainda positivo: avanço de 1,3%.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.