As razões dos otimistas

Normal no Brasil é o Executivo influenciar o posicionamento da sua base no Congresso

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

22 Julho 2016 | 05h00

Na economia, as coisas estão indo bem até agora para o presidente em exercício Michel Temer. Não se trata, claro, de uma recuperação fulgurante, mas há tímidos sinais de que a queda livre da atividade econômica pode terminar ainda este ano, dando início a uma lenta retomada em 2017.

Na área externa, já houve um grande ajuste, com expectativa de superávit comercial este ano em torno de US$ 50 bilhões, e déficit em conta corrente próximo de zero. Em termos de inflação, o resgate da credibilidade do Banco Central com seu novo presidente, Ilan Goldfajn, e a valorização do câmbio já trouxeram as expectativas do IPCA de 2017 e 2018 de, respectivamente, 5,5% e 5,0%, em meados de junho, para 5,3% e 4,6%, na última coleta de projeções do mercado pelo BC.

O desemprego continua subindo, mas isso já estava na conta, porque o mercado de trabalho reage com defasagem aos movimentos da economia. Na verdade, o aumento da desocupação, embora sofrido e ruim para a popularidade dos governantes, faz parte da dura terapia anti-inflacionária. Reequilibrada a economia, o emprego pode voltar a crescer.

Uma razão para crer que a melhora econômica não é pura ficção é o comportamento do mercado financeiro. Desde o pior momento no fim de janeiro, o índice Ibovespa já se valorizou em 50% e o real subiu mais de 25% em relação ao dólar.

É verdade que o mercado financeiro nem sempre acerta, mas investidores arriscam dinheiro de verdade com base em suposições otimistas sobre a economia. Também é verdade que a liquidez continua abundante no mercado internacional, e o apetite de risco em alta – mas esse ambiente externo positivo é uma efetiva ajuda para o Brasil e, portanto, mais um fator justificado de otimismo.

Tudo isso parece muito bom, mas é uma análise incompleta enquanto não se leva em conta a ainda dramática situação fiscal. Como é bem sabido, haverá déficits imensos nas contas públicas em 2016 e 2017, e os analistas não enxergam, olhando vários anos à frente, resultados fiscais que controlem o crescimento da dívida pública.

A suposição implícita no otimismo, portanto, é que o governo sairá gradativamente da sinuca fiscal, aprovando a emenda constitucional do limite dos gastos e a reforma da Previdência. Já os pessimistas acham que, quando chegar a hora da verdade de cortar despesas, mesmo com a emenda dos gastos aprovada, os grupos prejudicados gritarão e os políticos, sintonizados com o eleitorado, darão para trás. Nesse momento, cairá a ficha para o mercado de que a sangria fiscal não será estancada. O dólar volta a subir, e com ele a inflação e os juros. E o País descobre que a luz no fim do túnel era miragem.

Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, discorda da visão pessimista. “O normal no Brasil é que o Executivo tenha condição de influenciar o posicionamento da sua base no Congresso”, ele diz, acrescentando que isso inclui medidas impopulares. A condição é que o sistema político esteja funcionando normalmente – o que não ocorreu com Dilma no seu segundo mandato, mas aparentemente está voltando a acontecer com Temer.

Segundo Ribeiro, para um típico parlamentar em busca de reeleição, pode ser mais importante a proximidade com as benesses do governo – cargos, verbas, obras no seu reduto eleitoral, legislações em favor de grupos específicos – do que votar contra a reforma da Previdência para atender a uma demanda difusa da população.

O analista lembra ainda que o Legislativo não é influenciado apenas pelo posicionamento da população em geral, mas também pelo que chama de “opinião pública ilustrada” – economistas, empresários, articulistas, formadores de opinião, etc. Num momento de crise como o atual, o Congresso tem entendimento do que se passa no País e é capaz, se houver uma boa articulação política, de aprovar medidas duras, mas necessárias.

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