As razões para a alta estão mais perto do que se imagina

Análise: Sidnei Nehme

DIRETOR DA NGO CORRETORA DE CÂMBIO , O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h07

Há duas máximas pertinentes ao mercado de câmbio brasileiro: 1) nem tudo o que se vê é exatamente o que parece; e 2) este é um mercado de muitos espertos e poucos distraídos.

A taxa cambial tem revelado alta expressiva nas últimas semanas, com os mais variados "diagnósticos". Uns a atribuem aos problemas da Grécia; outros, às turbulências e desajustes das economias da zona do euro/União Europeia; há ainda quem cite os Estados Unidos e sua "guerra cambial"; por fim, há quem não saiba exatamente por que ocorre.

Quando se abre a janela para o exterior, de fato, vê-se problemas demais, preocupações demais, incertezas e desconfianças demais. Mas por que sempre olhamos para fora para identificar o que ocorre internamente? Seria a nossa memória reavivando o Brasil pequeno, dependente de crédito externo, altamente endividado, etc., nos mantendo prisioneiros do sentimento de inferioridade? É possível.

Alguns conseguem enxergar uma demanda pressionando o mercado à vista, que efetivamente não existe em proporções para justificar tamanha alta; outros entendem que o dólar sobe porque é sempre assim quando há crise no exterior.

Não é que não sejamos vulneráveis. Afinal, não somos uma ilha e fazemos parte da economia global. Devemos estar preparados para solavancos. Mas o fato é que poucos, poucos mesmo, olham para o mercado de câmbio e para o mercado de derivativos para interpretar os movimentos e posicionamentos existentes para prospectar, naquele emaranhado de números e atores, as causas de tudo o que está acontecendo.

No Brasil de hoje, o caos externo não influencia de forma direta, mas marginal, o mercado de câmbio. O governo sempre soube que, no País, o mercado de derivativos determinava a taxa à vista. Quando as autoridades perceberam que o real valorizado asfixiava a indústria não agrícola, interveio, criando limitações e tributando-o com o IOF. Com a medida, o mercado de derivativos ficou travado, sem liquidez.

Contudo, ficaram lá represados os fundos hedge (os mais arriscados do mercado, que fazem operações que podem resultar em expressivas perdas) com um posicionamento líquido vendido em cupom cambial-DDI (ou seja, taxa de juro em dólar aqui no Brasil) em US$ 13,5 bilhões. Não é pouco para quem apostava que o real continuaria a se valorizar. Sem liquidez, o mercado fica extremamente sensível a qualquer movimento mais forte em busca de uma acomodação melhor.

O problema é que a alta do dólar fugiu ao controle, irradiando repercussões na mídia que facilmente podem se transferir para os preços. O Banco Central, então, resolveu dar liquidez ao mercado, anunciando que não rolará uma posição a vencer dos chamados swaps cambiais reversos (US$ 2 bilhões). Além disso, fez uma oferta de swap cambial de US$ 5,6 bilhões, dos quais foram absorvidos US$ 2,7 bilhões.

A moeda americana cedeu. Mas a volatilidade continuará até que os fundos hedge zerem suas posições, pois o BC certamente fará novas ofertas. Depois disso, voltaremos a ver o dólar em R$ 1,70. Ficará claro e evidente que as causas diretas estavam aqui, bem pertinho, no prédio do BM&FBovespa, no centro de São Paulo.

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