Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Claudio Gatti
Claudio Gatti

'As regras não estão fora de nós, estão na gente', diz Carlos Jereissati Filho

Para presidente da rede Iguatemi, o que faz um país não são os seus recursos naturais, estradas ou aeroportos... é a qualidade do seu povo

Entrevista com

Carlos Jereissati Filho, presidente do Iguatemi Empresa de Shopping Centers

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2021 | 05h00

Com um pé fincado na cidadania e outro em sua experiência como empresário, o paulistano Carlos Jereissati Filho* traça um retrato do Brasil atual: “Muita gente ainda não entendeu o que está acontecendo”. Na luta para reduzir os danos da pandemia, “ainda estamos na metade do caminho”. Atento às demandas da vida real – ele integra, entres outros, os conselhos do Fórum Econômico Mundial, da Universidade Harvard, do Masp, da Bienal e da Pinacoteca –, Jereissati se detém, nesta conversa com a série Cenários, em dois focos. 

De perto, ajuda a recuperar o setor do varejo – como presidente do Iguatemi Empresa de Shopping Centers, que controla 14 shoppings e dois outlets. “O grosso do apoio, estou falando da indústria de shoppings, foi dado por nós mesmos”, destaca. E lembra que a ajuda de todas as esferas de governo, seja municipal, estadual ou federal, foi “praticamente zero”. Exemplo: shoppings, lojas de rua, academias, tiveram de continuar pagando IPTU mesmo que a ordem de fechar tenha vindo de prefeitos.

De longe, ele se preocupa com a saúde da democracia brasileira: “O Estado tem uma dívida enorme com os cidadãos”, adverte. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

O varejo foi uma das grandes vítimas da pandemia. Qual a sua avaliação, neste momento, do presente e do futuro desse setor?

O ano passado foi bem difícil, algumas áreas ficaram quatro, cinco meses fechadas. E o grosso do apoio – aqui estou falando da indústria dos shopping centers – à cadeia varejista foi dado por nós mesmos. Parece que, num primeiro momento, a economia não entendeu tão bem o problema da pandemia como o da saúde. A gente teve de, praticamente, dar o capital de giro, dar a isenção dos aluguéis.

Para ajudar o lojista, né?

Sim. Tivemos de financiar, não havia outro apoio. E, na segunda onda, com o varejo já mais debilitado, aí não veio nada. Se você olhar outros países, verá que houve quedas de 40%, 50%, mas com apoio importante dos governos. Na Suécia, se você desse 50% de desconto (no aluguel das lojas), o governo pagava os outros 50%. E o Brasil não montou nenhum programa efetivo, a não ser a questão da folha de pessoal. O pequeno e o médio varejista aqui estão sofrendo muito. 

Ao que se sabe, o BNDES está muito capitalizado. Não apareceu nenhuma proposta para ajudar o setor?  

Acho que as pessoas não entenderam, conceitualmente, o impacto da pandemia na economia. Se você manda fechar, tem de montar um programa de suporte a essas empresas. Afinal, elas não estão fechando por incompetência, mas por ordem do Estado. 

Nem os governos estaduais? 

Ninguém ajudou de forma contundente. Veja como é: eu fico impedido de usar minha propriedade, mas tenho de pagar imposto sobre o uso dessa propriedade, que é o IPTU. Não houve nenhuma condição especial, nada. Se a pandemia fosse um negócio de três, quatro meses... Mas um ano e meio depois você vê que não houve nenhum auxílio relevante para quem fechou. Vemos que se foca corretamente na questão da saúde, nas vacinas. Mas quando a gente for ver, daqui a alguns anos, o que se fez na economia, é um desastre. 

Vocês, e a associação dos shoppings, apresentaram isso a alguém?

Fizemos um apanhado dessas políticas de apoio feitas no mundo inteiro, temos exemplos na Europa, na Ásia, nos EUA. Os negócios que tiveram quedas de 40% ou 50%, lá fora, receberam créditos, apoio a fundo perdido e pagamento de aluguéis até um certo teto. No Brasil, nada. Nenhuma política forte, do BNDES ou dos governos federal, estaduais e municipais. E quem está financiando a economia? A poupança privada. Houve algum apoio para pessoas físicas. Para as jurídicas, praticamente nada. Acho que daqui a algum tempo haverá pedidos de ressarcimento aos Estados, à União. Muita gente quebrou sem nenhum apoio.

O que o sr. consegue ver daqui para frente? Uma quebradeira geral?

Quebradeira já houve, se você olhar a quantidade de empresas fechadas no País. Hoje, parte disso se deslocou para transações online, delivery. Mas os espaços físicos vão voltar aos poucos. O que ficou evidente foi como o varejo é forte e volta assim que abre. Toda vez que os shoppings reabrem, as pessoas estão loucas para sair, almoçar e jantar fora, fazer compra, se encontrar.

O que os governos poderiam fazer para agilizar a volta ao normal?

Primeiro, lutar para manter essas empresas abertas. No mundo inteiro, quando a ordem era fechar, fechavam tudo quase ao mesmo tempo e você tinha lockdowns menores e todos juntos pagavam a conta. Aqui, só alguns setores pagam a conta. A circulação não diminui, o prazo de fechamento se estende... É certo que, num primeiro momento, o foco era todo na saúde e em salvar pessoas. Mas, daqui por diante, pode-se atuar nos impostos, no crédito subsidiado, no apoio aos setores mais atingidos. A gente vê que Estados Unidos e Inglaterra, com 40% da primeira vacinação e 20% da segunda, tiveram alta queda dos contaminados e dos internados. Aqui, nós estamos na metade do caminho. 

E como você avalia, no momento, a situação do dólar? Ele afeta os shoppings que têm marcas estrangeiras.

Nesse contexto, sem ninguém sair do País, continuamos dependendo da vacinação. A desvalorização do real afetou os preços, sair do Brasil ficou proibitivo. Não me lembro de nenhum período da minha vida, já são 50 anos, em que todos os brasileiros tivessem que, ao mesmo tempo, comprar tudo por aqui. Nessa combinação, alguns empreendimentos nossos ajudaram muito – caso do Iguatemi São Paulo, do JK e do Iguatemi Brasília, com marcas internacionais importantes. 

Quantos shoppings vocês têm?

Dezesseis, somando dois outlets. E a gente imaginando que as pessoas tinham entendido o que estava acontecendo. É uma coisa triste, as pessoas não entenderam que, ao não respeitar (as normas de isolamento), acabam contaminando pessoas, e aí fecha um monte de coisas de novo.

Acho que não é só brasileiro. Quando Paris reabriu a primeira vez, foi uma muvuca na rua... Por que isso acontece?

A melhor explicação disso eu ouvi do (economista) Eduardo Giannetti. É a individualidade selvagem, em muitos casos, de gente que não entende a necessidade de proteger o coletivo. O Giannetti fala também em “internalização da regra”. A regra não está numa autoridade fora de nós, está na gente. Seu exemplo é o cinema: quando há um problema e todos precisam sair imediatamente, as pessoas que têm essa regra interna vão ajudar primeiro os mais velhos e as crianças, para que saiam primeiro e todos ordenadamente. Sem esse regramento, o que há é um corre-corre geral e um monte de gente pisoteada. 

Como empresário, de que forma o sr. põe em prática esse comportamento, de olhar e pensar no outro?

Vou lhe dar um exemplo prático. O JK cuida do Parque do Povo. Ele foi um empreendimento liderado pelo Walter Torre. Aí o Walter nos vendeu a parte dele no JK e com isso herdamos, há mais de cinco anos, a gestão do parque. Lá não tem um centavo da Prefeitura, exceto a segurança. E eu poderia citar ene outros exemplos, que a gente faz com associações próximas, usando o shopping. 

Aqui cabe perguntar, para que servem os nossos impostos pagos?

Acho que eles têm de voltar para a sociedade, principalmente para quem mais precisa. O fato é que o Brasil tem uma dívida enorme para com o cidadão comum. Não é possível pagar impostos e 90% deles serem gastos com folha de pagamento. O cidadão quer esse recurso de volta com serviços de qualidade. 

A Lei de Responsabilidade Social definiu em 60% o limite dos gastos com folha no setor público.

Mas aí criam um monte de subterfúgios para furar esse limite, e que vão sendo aceitos até por Tribunais de Contas. E o que a gente está assistindo na internet é uma revolta contra esse tipo de coisa. Dou-lhe outro exemplo: em Nova York, existem os “investment districts”. São distritos onde as pessoas pagam um pedaço a mais de imposto e se define com a prefeitura como reinvesti-lo na região. Apoiar o Parque do Povo está dentro dessa lógica, que Nova York já aplica no Central Park

Por falar em uso de recursos públicos, como vê a CPI da Covid?

Acho uma pena termos de fazer uma CPI para tal finalidade. De uma coisa tenho certeza: os eleitores precisam parar de votar em gente que não foi testada na administração pública. Imagina se, no setor privado, eu nomeasse alguém presidente da companhia, sem ele ter atuado antes em várias atividades do negócio. O cidadão comum precisa entender que isso não é uma brincadeira, e o cargo de presidente do País, de um governador, é muito mais importante. A gente tem de ser consciente e não apostar em maluquice. Tem de botar o cara antes para testar. Tem aí iniciativas maravilhosas, como o Raps, o Renova, tem a Comunitas, com gente que tem de ser olhada. Eles vão fazer a diferença no Brasil. 

Acha, então, que estamos agora num caminho melhor?

Acho, vejo uma geração nova, alguns governadores mais preparados. Acho que o que faz um país não são os seus recursos naturais, estradas ou aeroportos... é a qualidade do seu povo. Isso é que a gente tem de ter em mente.

*FORMADO EM ADMINISTRAÇÃO PELA FGV, ASSUMIU A IGUATEMI EMPRESAS DE SHOPPINGS EM 2005. É CONSELHEIRO DE HARVARD E PARTICIPA DOS CONSELHOS DA BIENAL, DA PINACOTECA E DO MASP.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.