Ascensão e queda da Atlântida de Stalin

Nem o petróleo abundante impediu o declínio de Neft Dashlari, no Azerbaijão, após o colapso da URSS

ARNO , FRANK, DER SPIEGEL , O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h22

Artigo

Balas passam raspando por James Bond, que corre por um embarcadouro. Um franco-atirador dispara de um helicóptero, enquanto 007, interpretado por Pierce Brosnan, corre em meio a um labirinto de dutos e pontes. De repente, uma explosão destrói a enorme planta industrial controlada pela máfia russa, uma enorme cidade no Mar Cáspio. Bond consegue saltar num veículo convenientemente equipado com um sistema de lançamento de mísseis e imediatamente derruba o helicóptero.

O pano de fundo da cidade flutuante da qual Bond luta para escapar, no filme O Mundo não é o bastante, de 1999, foi criado no Pinewood Studios, na Inglaterra - mas inspirado num local bem real, uma das cidades mais impressionantes do mundo: Neft Dashlari, no Mar Cáspio.

Esta área do Azerbaijão é famosa pelos abundantes recursos de petróleo desde os primórdios. O "fogo líquido" com que Constantinopla expulsou os agressores árabes no século sétimo e que consistia em grande parte de petróleo que borbulhava para a superfície ao longo das costas do Mar Negro e Cáspio. Os persas chamavam a área de "Terra do Fogo", onde padres iluminavam seus templos com lâmpadas com óleo proveniente dessas fontes naturais.

A indústria petroquímica só prosperou a partir de 1870, depois de a Rússia conquistar o território. Nos anos seguintes, industriais como Ludvig Nobel e os irmãos Rothschild transformaram a capital Baku numa versão oriental da cidade francesa de Nice, considerada a "Joia do Mediterrâneo". Em 1941, o Azerbaijão, então parte da União Soviética, estava contribuindo com 175 milhões de barris de petróleo ao ano - 75% de toda a produção de petróleo do país. Por isso as forças germânicas lutaram tanto para capturar a cidade e a península de Absheron que a circunda. Não conseguiram.

Um monstro de aço e madeira. Depois da guerra, engenheiros soviéticos examinaram com muita atenção um recife que os marinheiros chamavam de "Rocha Negra". Construíram um galpão na minúscula ilha e realizaram testes de perfuração. Na noite de 7 de novembro de 1949 encontraram petróleo de alta qualidade a uma profundidade de 1.100 metros abaixo do leito do mar; logo depois, a primeira plataforma de petróleo marítima do mundo foi construída no local, hoje chamado de Neft Dashlari. "Plataforma" é um a palavra inadequada para o monstro de aço e madeira que gradativamente se espalha pelas ondas do mar, que em média ficou a apenas 20 metros de profundidade nos anos seguintes.

A base do assentamento principal consiste de sete navios afundados como o "Zoroastro", o primeiro navio-tanque do mundo, construído na Suécia. No apogeu de Neft Dashlari, cerca de 2 mil plataformas de petróleo se espalhavam num círculo de 30 quilômetros, ligados por uma rede de viadutos somando 300 quilômetros.

Caminhões trafegavam pelas pontes e prédios de apartamentos de oito andares foram construídos para os 5 mil trabalhadores que às vezes passavam semanas no local. A viagem de volta ao continente podia levar entre 6 e 12 horas, dependendo do tipo de navio. A ilha tinha uma cervejaria, um campo de futebol, uma biblioteca, padaria, lavanderia, cinema de 300 lugares, saunas, hortas e até um parque com árvores cujo solo foi trazido do continente.

Era uma utopia stalinista para a classe operária. Um selo soviético de 1971 resume as esperanças gigantescas que ela representava numa imagem minúscula: em frente a um perfil negro de uma plataforma petrolífera, uma estrada feita de pontes serpenteia pelo profundo mar azul na direção de outras torres de perfuração, com um sol vermelho no horizonte.

As ondas recuperam a cidade. Mas existem poucas coisas tão precárias como um mundo criado com base em água e petróleo. O colapso da União Soviética provocou o declínio da sua cidade flutuante à medida que novos campos foram descobertos em outros lugares e o preço do petróleo começou a flutuar. A mão de obra caiu para 2.500 trabalhadores e a maior parte das plataformas hoje está desativada e não pode ser alcançada porque as pontes caíram. Dos 300 quilômetros de estradas, somente 45 quilômetros ainda podem ser usados, e mesmo assim estão em situação de abandono. Durante uma inundação, há alguns anos, muitos apartamentos ficaram inundados até o segundo andar.

Um trabalhador de Neft Dashlari ainda ganha cerca de US$ 130 por mês, duas vezes mais o salário de uma pessoa com a mesma função no continente. Mas a plataforma não funciona de modo eficiente há anos. As construções de aço submersas são uma ameaça à navegação, vazamentos de óleo são frequentes e os equipamentos estão se desintegrando.

Desmantelar a planta provavelmente será mais caro do que simplesmente mantê-la com uma produção reduzida. Para o governo, o local ainda é um segredo muito bem guardado como nos tempos soviéticos. É muito difícil para estrangeiros acessarem a cidade, que nem mesmo é exibida no Google Maps.

Houve planos para recuperar Neft Dashlari ou transformá-la num resort de luxo, mas nada foi conclusivo. Hoje ela representa apenas uma fração da produção petrolífera do Azerbaijão. Especialistas calculam que os depósitos de petróleo que estão embaixo da cidade durarão somente mais 20 anos. Em algumas décadas, aço enferrujado se projetando nas ondas e os velhos mapas náuticos serão tudo o que restou deste labirinto gigantesco no mar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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