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Assembleias de empresas atraem mais acionistas

Nova regra da CVM e mudança de postura das companhias facilitam e incentivam participação dos donos de ações

Sabrina Valle, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

Ser acionista de uma empresa brasileira de capital aberto pode ser uma verdadeira saga. Viagens de monomotor à Amazônia às vésperas do Ano Novo para chegar à sede, horas de estradas esburacadas rumo a uma longínqua cidade do interior e reuniões até numa saleta insalubre ao lado de um alto-forno fumegante de siderúrgica já foram situações reais vividas por quem tentou participar de uma assembleia de acionistas.

Mas uma mudança de regras na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a percepção de algumas empresas de que abrir as portas para investidores pode vir a render frutos e um aumento do interesse de acionistas têm, aos poucos, mudado o cenário. O próprio perfil de quem frequenta a reunião vem se transformando, com advogados e investidores institucionais engravatados dividindo espaço com pequenos investidores e até senhoras aposentadas.

"Ainda estamos longe do bilionário americano Warren Buffett, que faz megaevento para milhares de pessoas em estádios com distribuição de brindes. Mas é uma tendência. Encontrar o presidente da empresa já é um grande incentivo", diz o especialista em governança corporativa Renato Chaves, ele próprio veterano dessas reuniões.

A temporada anual de assembleias gerais ordinárias (AGOs), obrigatórias para empresas de capital aberto, vai até abril, após a publicação dos balanços de 2010. Alguns grupos já preparam novidades para os investidores individuais, aqueles que não representam grandes fundos ou investidores institucionais.

Regra. A mudança de postura foi impulsionada pela instrução 481 da CVM, que passou a exigir um grau de informação muito maior das empresas antes das assembleias. A temporada de 2010 foi a primeira sob as novas regras e, para este ano, é esperada uma consolidação desse movimento, conta a advogada Marta Viegas, do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

A Natura é um dos exemplos. No ano passado, a companhia foi além do exigido pela CVM e inovou com um evento para 200 pessoas, em que bancou transporte e alimentação para todos, num auditório perfumado por seus produtos na fábrica da companhia, em Cajamar (SP). Este ano, a empresa espera mais do que o dobro de participantes.

"Há um carinho enorme pelo acionista individual, um dos públicos que mais nos motivou a abrir o capital da empresa", disse o diretor de governança corporativa da Natura, Moacir Salzstein, acrescentando que esse público tem hoje menos de 10% do capital da companhia. "Nos Estados Unidos, os acionistas se sentem donos da empresa. Já a história do mercado brasileiro é diferente. Mas temos esperança de que um dia esse público seja muito mais relevante, qualitativamente e quantitativamente."

Outra tendência é a possibilidade de o acionista participar da assembleia via internet. A localização fora das grandes capitais pode ter desde explicações históricas, como o local que deu origem à empresa, até tributárias.

Discute-se no mercado a mudança dessa exigência, mas a alteração da lei precisaria de aprovação no Congresso e, até agora, nenhuma entidade do setor encampou a ideia. A CVM acredita que a assembleia online é uma forma de baratear custos e aumentar a participação de acionistas, mas diz que não há projeto nessa linha. Já a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) prepara um sistema próprio, para evitar problemas por parte de empresas privadas.

Petrobrás, Lupatech, Totvs, Brasil Telecom e Estácio já fazem assembleia online. "Discute-se muito hoje a transformação da assembleia em um fórum de acionistas, com apresentação de resultados e metas dos diretores; deveria ser assim", diz Isabella Saboya, sócia da Jardim Botânico Investimentos.

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