Marcos Santos/USP Imagens
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Assim como o Brasil, principais países da América Latina devem estourar meta de inflação

México, Chile, Colômbia e Peru também enfrentam alta de preços causada pelo aumento das commodities, depreciação cambial e gargalos globais de oferta

Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 15h00

O Brasil não está sozinho quando o assunto é estouro da meta inflacionária este ano. Todas as grandes economias da América Latina também devem superar a banda superior do alvo de inflação: México, Chile, Colômbia e Peru. Segundo especialistas, uma mistura de commodities (produtos básicos, como alimentos, minério de ferro e petróleo, cotados no mercado internacional em dólar) em alta, depreciação cambial, gargalos globais de oferta e retomada econômica explicam a aceleração dos preços na região.

Em relação aos outros países, porém, o Brasil deve ter a maior taxa de inflação, e as preocupações são crescentes com a dinâmica inflacionária. Para 2022, a expectativa é de "convergência lenta" à meta em todos os países, com previsões dentro da meta, mas acima do alvo central, conforme o cenário da maioria das instituições consultadas. 

Após o anúncio da "bandeira escassez hídrica" na conta de luz, as projeções de mercado indicam que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, deve fechar este ano perto de 8%, o maior nível desde 2015 (10,67%) e quase 3 pontos porcentuais acima do teto da meta de inflação (5,25%).

Na quarta-feira, 1.º, por exemplo, o Itaú Unibanco elevou a projeção para o IPCA de 2021 de 6,9% para 7,7%. As previsões do banco para a inflação ao consumidor no México (6,0%), Chile (4,5%), Colômbia (4,4%) e Peru (3,6%) também indicam estouro da meta, que é de 3,0% nos primeiros e de 2,0% no último - todos têm 1 ponto de margem de tolerância. 

"Na América Latina, todos os países superam a meta de inflação", destacou o economista-chefe do Itaú, Mario Mesquita, em evento do banco esta semana.

Para 2022, apenas a inflação colombiana converge exatamente para o centro da meta, segundo o Itaú, enquanto a expectativa para o México é de 3,6%, para o Chile, de 3,2%, para o Peru, de 2,6% e, para o Brasil, de 3,9% - superior ao alvo central (3,50%).

A Oxford Economics têm cenário parecido para o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) em 2021: México (6,2%), Peru (4,4%), Chile (4,5%) e Colômbia (4,2%). Para 2022, por sua vez, a expectativa é de que todos convirjam à meta, mas ainda acima do ponto central. As projeções são de 3,4% para Chile, Colômbia e México, e 3,0% para o Peru.

Segundo Felipe Camargo, economista-sênior da consultoria na América Latina, a aceleração da inflação na região é uma combinação de commodities em alta, depreciação cambial e gargalos globais de oferta. No Brasil, ele adiciona ainda a crise hídrica.

O economista-chefe para América Latina do BNP Paribas, Gustavo Arruda, concorda que a crise hídrica é uma idiossincrasia brasileira. Após o anúncio da "bandeira escassez hídrica", o banco elevou a projeção para o IPCA deste ano de 7,5% para 8,0%. Para 2022, a projeção é de 4,5%, 1 ponto acima do centro da meta (3,50%).

Mas, para além do choque de commodities, que tem persistido, elevando preços de alimentos e começando a produzir efeitos de segunda ordem, e dos problemas na cadeia global de suprimentos, o economista acrescenta a retomada do crescimento como outro fator de pressão sobre a inflação que os países latino-americanos compartilham.

No cenário do BNP, Chile (4,5%), Colômbia (4,5%) e México (6,3%) também estouram a meta de inflação deste ano e ficam acima do centro em 2022, com 3,5%, 4,0% e 3,8%, respectivamente.

"É uma parte de recuperação de um choque que temos dificuldade de classificar, da covid. É importante termos essa visão para também enxergar o contexto e não ficar achando que somos um ente isolado. Quando olha para os outros países similares ao Brasil está todo mundo no mesmo barco, preocupado, não só os latino-americanos, mas também Rússia e África do Sul."

Nesse contexto, Arruda argumenta que a política monetária precisa atuar para evitar a contaminação do choque. No caso do Brasil, é necessário, contudo, "bom senso" de que não dá para levar a inflação diretamente para meta em 2022 sem um choque negativo sobre a atividade.

O economista projeta atualmente 7,5% para a taxa Selic no fim do ano e 8,5% no início do ano que vem, mas admite que, com o IPCA no fim do ano em 8,0%, os riscos de inércia e reajustes salariais em 2022 podem provocar antecipação do ciclo de juros.

Nos outros países da América Latina monitorados, somente a Colômbia não iniciou ainda um processo de aperto monetário, mas o economista do BNP diz que será inevitável diante da inflação em alta e do déficit em conta corrente. A expectativa é que os juros subam dos atuais 1,75% para 3,0% no final de 2021 e 4,50% no fim de 2022.

Na última quarta-feira, o Chile surpreendeu com uma alta de 0,75 ponto porcentual dos juros, para 1,5%. Por lá, a vacinação foi mais rápida, há estímulos fiscais e a economia está se recuperando bem, diz Arruda. O BNP está em processo de revisão do cenário após a surpresa. Mas a Oxford passou a prever taxa de 2,5% no fim do ano ante 1,5%.

No México, a economia também tem surpreendido, mas Arruda destaca que não há consenso dentro de comitê de política monetária do banco central do país (Banxico) sobre os próximos passos de política monetária.

"O México de hoje lembra o discurso do BC do Brasil no início do ano, de que o ajuste seria parcial. Achamos que a ação vai ser parecida também, que os dados vão forçar o BC a manter o processo de alta em 0,25 ponto, mas de forma contínua", diz, sobre a projeção de 5,25% no fim deste ano e de 6% no término do ano que vem para os juros básicos mexicanos, dos atuais 4,50%.

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