Ata do Copom concentra atenções do mercado na semana

Depois de um comunicado que levou muitos analistas a considerarem que o Copom pode voltar a elevar a taxa Selic no curto prazo, a ata da reunião de janeiro passa a ser o destaque da agenda econômica da semana. O documento, que será divulgado pelo BC na quinta-feira (31) deve esmiuçar as razões e o ambiente que levaram o colegiado a optar pela manutenção da taxa Selic e emitir na seqüência um comunicado recebido como uma espécie de recado de alerta por boa parte dos economistas.A Selic vem se mantendo em 11,25% ao ano desde a reunião de setembro, quando foi reduzida em 0,25 ponto porcentual. Mas, desta vez, o comitê de política monetária mudou o texto do comunicado que se segue ao término das reuniões. "Avaliando a conjuntura macroeconômica e as perspectivas para a inflação, o Copom decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 11,25% ao ano, sem viés. O comitê irá acompanhar o cenário macroeconômico até a sua próxima reunião para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária", disse o colegiado no texto.Para os especialistas, neste momento, em que todos já vêem os efeitos iniciais de uma crise internacional que ainda nem mostrou toda a sua estatura e de elevação de preços no mercado interno, o conteúdo desse comunicado sinaliza para ações que confirmariam a preocupação das autoridades monetárias com a extensão da deterioração da economia mundial a partir dos problemas enfrentados nos EUA. O próprio presidente do BC brasileiro, Henrique Meirelles, deixou claro durante a semana que, apesar da solidez dos fundamentos macroeconômicos, a economia doméstica não está totalmente imune aos solavancos no cenário mundial. Portanto, a ata será para o mercado a chave que abrirá a porta de entrada do arsenal de munições que o BC poderá usar para combater os efeitos da crise internacional.Paralelamente à instabilidade da economia mundial, vem ocorrendo no mercado doméstico um processo inflacionário, ainda administrável, mas que exige medidas no sentido de evitar o comprometimento da meta central de inflação para este ano, que é de 4,50%. A crise deflagrada nos EUA a partir do mercado de títulos imobiliários de alto risco até poderá vir a gerar mais inflação no Brasil, caso a demanda mundial por commodities se reduza e o preço do dólar aumente. Mas não é, por enquanto, o que se observa. A inflação no Brasil tem como origem o aquecimento da demanda agregada provocada pela melhora da renda e da massa salarial a reboque da também recuperação do mercado de trabalho. Acrescente-se aí os benefícios para a economia dos programas assistenciais do governo, como o Bolsa Família, que tem trazido para o consumo uma classe de pessoas que, até então, encontrava-se à margem do processo econômico, e a facilidade de se obter crédito no País.Fora as variáveis de caráter econômico, influenciam também a formação da inflação neste momento os fatores sazonais e climáticos, além dos efeitos do calendário gregoriano, que consiste nos irrefutáveis pagamentos de taxas e impostos nesta época do ano. Tudo isso poderá ser visto nos indicadores de inflação que compõem a agenda de divulgação da próxima semana. Neste campo, o destaque fica para o IGP-M de janeiro, que será anunciado na quarta-feira (30) pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em dezembro, este índice mostrou uma alta de 1,76%. Para janeiro os especialistas já esperam algum arrefecimento da inflação por este indicador para algo mais próximo de 1,00%. Essa expectativa está associada à redução dos preços de produtos importantes como feijão, carnes, milho e soja no atacado. Não será um indicador mais ameno, de acordo com especialistas, porque os preços dos alimentos in natura continuam ainda muito sujeitos às intempéries comuns nos começos de ano.Um dia antes, na terça-feira (7), a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) divulgará o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da terceira quadrissemana de janeiro. Para esse indicador, as expectativas apontam para uma alta substancial em decorrência das pressões exercidas pelas matrículas, mensalidades e materiais escolares e por conta dos desembolsos para pagamentos de impostos imobiliários e veiculares. Acrescenta-se também as altas dos alimentos, sobretudo de verduras, legumes e frutas. Na quadrissemana anterior, o IPC-Fipe havia registrado uma alta de 0,71% ante elevação de 0,81% na primeira medição do mês.Na sexta-feira (01/02), a FGV divulgará a inflação cheia de janeiro apurada pelo Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S). Por ser resultante da coleta de preços em um número maior de regiões (são sete capitais pesquisadas), este indicador funciona como, até certo ponto, uma proxy do IPCA do IBGE, utilizado como indicador oficial do governo no regime de metas de inflação. Em dezembro, o IPC-S fechou com uma alta de 0,70%. As razões são as mesmas que justificam as altas da inflação apuradas por outros indicadores de preços ao consumidor.Também na sexta-feira, será conhecido o resultado da balança comercial de janeiro. No mês passado, o saldo foi positivo em US$ 3,636 bilhões. Os superávits da balança têm sido menores por causa do aumento das importações acima do crescimento das exportações. Com o dólar mais baixo que em outras épocas, com a renda das pessoas melhorando na esteira do aumento do emprego, a demanda por produtos importados se elevou na mesma proporção. Antes, porém, na segunda-feira, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) informará também o saldo comercial apurado na quarta semana do mês. Na terceira semana, a balança reuniu um superávit de US$ 1,000 milhão.Ainda em relação ao setor externo, na segunda-feira o Banco Central divulgará os números referentes às transações correntes de dezembro, bem como o volume de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) no mês passado. Para a conta corrente, a expectativa dos analistas do mercado consultados pelo AE Projeções é de um déficit de US$ 2,400 bilhões a US$ 450,000 milhões. No caso do IED, as previsões vão de US$ 1,000 bilhão a US$ 2,800 bilhões. No mesmo dia, por volta das 8h30, o BC divulgará o relatório Focus, documento com as medianas das expectativas dos analistas do mercado financeiro para os principais indicadores econômicos.Os números das contas públicas de dezembro serão anunciados na quarta-feira. Antes, o Tesouro Nacional, informará os dados fiscais no âmbito do Governo Central (Banco Central, Tesouro Nacional e INSS). Na seqüência, o Banco Central informará o resultado fiscal do setor público consolidado, composto pelas contas do Governo Central, Estados e municípios mais estatais federais. Nos dois casos, as previsões são de déficits por conta das maiores despesas em dezembro das três esferas de governo com pagamentos de 13º e abonos para funcionários públicos e beneficiários da Previdência. EUANos Estados Unidos, as atenções de analistas e investidores estarão voltadas sobretudo aos desdobramentos da crise econômica local, com um foco especial ao encontro de dois dias do Federal Reserve, que pode reduzir novamente os juros na quarta-feira. A grande maioria dos analistas internacionais espera que o Fed deve diminuir a taxa em 0,50 ponto porcentual, o que promoveria um corte de 1,25 ponto porcentual em apenas oito dias, pois a taxa foi reduzida de forma extraordinária de 4,25% para 3,50% na última terça-feira.Na terça-feira, começa a reunião de dois dias do FOMC, na qual os especialistas entrevistados pela Agência Estado nos EUA esperam que os juros baixem pelo menos 0,25 ponto porcentual, redução que poderia até atingir novamente 0,75 ponto porcentual caso ocorra nos próximos dias uma forte deterioração dos preços de ativos financeiros, sobretudo as ações negociadas em bolsas de valores. A maioria dos analistas aguarda que os juros devem cair para 3%, pois avaliam que o Fed vai intensificar a distensão da política monetária para evitar que o país ingresse numa recessão profunda. Antes da reunião do Federal Reserve, o mercado estará atento à divulgação de indicadores econômicos nos EUA muito relevantes. Mais do que observar os números relativos às vendas de casas novas de dezembro, que serão anunciados hoje e devem continuar a retratar que o setor passa por uma intensa depressão, os especialistas querem saber qual foi o desempenho da produção de bens duráveis em dezembro, que será informado amanhã. A fabricação destas mercadorias é uma espécie de indicador antecedente dos investimentos das empresas, o que influencia diretamente o nível de atividade e a geração de empregos. Também na terça-feira, sai também o índice de confiança do consumidor de janeiro, que segundo os especialistas, deve registrar uma marca inferior aos 88,6 pontos apurados em dezembro, redução que deve ser provocada basicamente pelas fortes quedas recentes apresentadas pelo mercado de ações norte-americano. Na quarta-feira, antes do Federal Reserve manifestar sua decisão para os juros, será divulgada pela manhã a pesquisa ADP employment de janeiro, que é avaliada como um antecedente razoável do relatório de emprego do mesmo mês que será informado na sexta-feira. A sexta-feira, dia 1º de fevereiro, reserva uma expressiva concentração de dados econômicos relativos aos EUA, cujo principal indicador é o relatório de emprego de janeiro. A maioria dos analistas de mercado espera a criação de 55 mil postos de trabalho. Há especialistas, contudo, como o economista sênior do Dresdner Kleinwort, Kevin Logan, que esperam uma marca bem menor. Ele avalia que o número poderá atingir uma elevação de 25 mil vagas, patamar próximo da baixa geração de 18 mil postos apurada em dezembro. ?O número não é alto porque há um enfraquecimento generalizado da economia, com queda na atividade nas indústrias e nos setores de construção civil e varejo?, comentou. Se esta estimativa for confirmada, a taxa de desemprego deve subir dos 5% de dezembro para 5,1% neste mês. No entanto, o economista do Lehman Brothers Zach Pandl, acredita que a desaceleração do PIB norte-americano não é tão intensa, o que pode causar uma redução substancial dos pedidos de auxílio-desemprego e promover a geração de 75 mil postos de trabalho em janeiro, o que seria capaz de reduzir a taxa relativa às pessoas desocupadas para 4,9%.

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