Ata do Copom deixa claro que juro vai subir em abril, para evitar inflação

Ata do Copom deixa claro que juro vai subir em abril, para evitar inflação

Documento revela que houve consenso entre os membros do Comitê sobre a necessidade da alta, mas a maioria preferiu adiar a decisão

Fabio Graner e Fernando Nakagawa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

A ata da reunião de março do Comitê de Política Monetária (Copom) deixou claro que a taxa básica de juros, a Selic, deve mesmo subir em abril. Na avaliação do Banco Central, a demanda crescente reduz a capacidade ociosa da economia e aumenta o risco de descumprimento da meta de inflação em 2010 e 2011, que é de 4,5%.

Para evitar o descontrole dos preços, o documento divulgado ontem revela que, na semana passada, houve consenso entre os membros do Copom de que a alta é necessária. A maioria do grupo, porém, entendeu que o aperto pode esperar até o próximo mês. No mercado, há certeza de aumento da Selic. Há dúvida, porém, se a alta será de 0,50 ponto porcentual ou 0,75 ponto. A Selic está em 8,75% ao ano.

Mais assertiva e direta que as anteriores, a ata afirma que "houve consenso entre os membros do Comitê quanto à necessidade de se implementar um ajuste na taxa básica de juros". No texto, o BC diz que a alta da Selic é necessária para "conter o descompasso entre o ritmo de expansão da demanda doméstica e a capacidade produtiva da economia".

Apesar da avaliação contundente, o juro foi mantido na semana passada por 5 votos a favor e 3 pela alta de 0,5 ponto. O argumento vitorioso é que a retirada de estímulos econômicos adotados na crise - como a redução de depósitos compulsórios e o fim das desonerações tributárias - permite espera maior antes do início dos aumentos. A maioria "entendeu ser mais prudente aguardar a evolução do cenário macroeconômico até a próxima reunião do Comitê para então dar início ao ajuste da taxa básica", informa a ata. O encontro de abril ocorrerá nos dias 27 e 28.

"Ficou a certeza de que o juro sobe em abril. A ata só deixou aberta a possibilidade de um aumento de 0,5 ponto ou ainda maior", diz o sócio e economista-chefe da Modal Asset Management, Alexandre Póvoa. A possibilidade de alta maior que 0,5 ponto existe porque as perspectivas para a inflação podem piorar nesses 45 dias, diz Póvoa. "Se o próprio BC admite que já existia consenso para o aumento do juro, acho que a opção de esperar até abril é bastante negativa. No fim do próximo mês, pode ser necessário subir ainda mais o juro para segurar a inflação."

O principal foco do BC nos próximos 45 dias deve ser a evolução das perspectivas para a inflação em meio à expansão da economia. Na ata, a projeção oficial do BC para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2010 subiu em relação a janeiro e já está "sensivelmente acima do valor central (da meta) de 4,5%".

Para 2011, a estimativa também "se encontra acima do valor central". Há 45 dias, na reunião de janeiro, o Copom previa IPCA em 2010 e 2011 ao redor do centro da meta. O cenário de inflação ascendente tem relação direta com o aquecimento da economia. Na ata, o Copom demonstra preocupação com o tema.

Com a certeza de que o juro subirá em abril, o presidente do BC, Henrique Meirelles, deu a oportunidade - caso deixe o cargo para disputar as eleições - para seu sucessor demonstrar independência ao subir o juro em sua primeira reunião. Especula-se que o diretor de Normas do BC, Alexandre Tombini, pode ser o substituto.

TRECHOS

"Houve consenso quanto à necessidade de se implementar um ajuste na taxa básica de juro"

"A maioria do Copom, tendo em vista as informações disponíveis, aliado ao fato de que já está em curso processo de retirada dos estímulos introduzidos durante a crise, entendeu ser mais prudente aguardar a evolução do cenário até a próxima reunião do Comitê"

"Três membros do comitê, entendendo que as projeções de inflação e o balanço de riscos considerado justificariam o início do ajuste já nesta reunião, votaram por uma elevação imediata de 0,50 ponto"

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