Ata do Copom indica mais cortes de 0,5 ponto porcentual na taxa de juro

Estratégia é combater os efeitos da crise internacional sem comprometer os esforços para reduzir a inflação em direção à meta de 4,5%

FABIO GRANER , FERNANDO NAKAGAWA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2011 | 03h06

O quadro global adverso fez o Comitê de Política Monetária (Copom) oficializar como cenário "central" sobre os rumos da economia e da inflação o que vinha sendo tratado apenas como "alternativo". A hipótese do Banco Central é que a atual crise terá um impacto equivalente a 25% do efeito da turbulência de 2008 e vai ajudar a colocar a inflação na meta mesmo com a continuidade do processo de queda "moderada" na taxa de juros.

Embora os discursos e a própria execução recente da política monetária apontassem nessa direção, o fato é que o Banco Central oficializou na ata do Copom - um de seus principais documentos - o cenário que vai guiar suas futuras ações.

Após o documento divulgado ontem, o mercado financeiro entendeu que o BC continuará a reduzir a taxa Selic no ritmo de 0,5 ponto porcentual. A dúvida está em até quando vai o processo de flexibilização. Na semana passada, o Copom decidiu por unanimidade cortar pela segunda vez a taxa, para 11,5% ao ano.

"No cenário central, entre outras repercussões, ocorre moderação da atividade econômica doméstica, os preços das commodities nos mercados internacionais e a taxa de câmbio mostram certa estabilidade", explicaram os diretores do BC. "Mesmo com um ajuste moderado no nível da taxa básica de juros, a taxa de inflação no horizonte relevante se posiciona em torno da meta em 2012, em patamar inferior ao que seria observado caso não fosse considerado o efeito da crise internacional", completaram.

Impactos da crise. No mesmo documento, alguns capítulos à frente, o BC explica que os cortes de juros servem para diminuir os impactos da crise externa no Brasil, sem comprometer o esforço de devolver a inflação ao nível de 4,5%. "O Copom entende que, ao tempestivamente mitigar os efeitos vindos de um ambiente global mais restritivo, ajustes moderados no nível da taxa básica são consistentes com o cenário de convergência da inflação para a meta em 2012."

Mas o próprio documento do BC acende a luz amarela. Nos dois cenários que costumavam ser tratados com prioridade pelo colegiado, o de referência (que supõe taxas de juros e câmbio constantes ao longo do tempo para prever a inflação) e o de mercado (que considera as expectativas do mercado financeiro para juros e câmbio), as estimativas da inflação oficial em 2012 subiram e estão acima do centro da meta de 4,5%.

Em relatório para clientes, o economista-chefe do BES Investimento, Jankiel Santos, destacou que, apesar de os modelos matemáticos tradicionalmente usados pelo BC indicarem inflação acima da meta - inclusive com estimativas acima das verificadas em agosto -, a autoridade decidiu confiar no modelo alternativo, conhecido pela sigla Samba, que aponta para o IPCA em torno de 4,5% no ano que vem. Diante disso, Santos aposta em apenas mais um corte da taxa Selic, que a levaria para 11% ao ano.

Além de avaliar que a situação externa ajuda a reduzir a inflação, o BC considera que a atividade econômica interna está em processo de moderação, embora siga com perspectiva favorável.

A autoridade monetária mostrou confiança de que as expectativas de inflação vão melhorar com base nos dados que mostram o IPCA mais baixo no fim deste ano e com previsões cada vez menores para o crescimento da economia brasileira.

O departamento econômico do Bradesco destaca, em relatório para clientes, que a ata reforçou o cenário de novos cortes de 0,5 ponto porcentual na Selic. "Em nossa visão, a principal mensagem da ata continua sendo de que a deterioração do cenário internacional é o ponto de maior relevância para o BC atualmente, ao chamar atenção para a ampliação dos riscos para a estabilidade financeira aliada à piora das expectativas para as economias maduras", avalia o banco, que aposta em mais três cortes na taxa, levando-a a 10% ao ano.

Combustíveis. Na ata, o BC também elevou a estimativa de aumento dos preços da gasolina e do gás de cozinha. A previsão de alta para o preço da gasolina em 2011 passou de 4% para 6,7%, que foi a variação do produto no ano até setembro. Para o gás, a expectativa passou de estabilidade para alta de 2,2%. O Copom elevou ainda a estimativa de aumento no conjunto dos preços administrados (tarifas públicas) de 5% para 5,5% este ano e de 4,4% para 4,5% em 2012.

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