Ata do Copom provoca polêmica

Ata do Copom provoca polêmica

Parte dos analistas avalia que o tom duro da última ata do Copom não combina com a decisão de manter a Selic em 8,75% ao ano

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Os últimos movimentos do Banco Central (BC) em relação à taxa básica de juros (Selic) causaram polêmica no mercado financeiro. Parte dos analistas considerou contraditória a atuação da autoridade monetária por, de um lado, manter a taxa em 8,75% ao ano, e, de outro, ter sido dura na ata em que descreveu o modo como a decisão foi tomada.

A principal divergência está no item 26 do documento, divulgado quinta-feira. "À luz dessas considerações (discussões durante a reunião), houve consenso entre os membros do Comitê (Copom) quanto à necessidade de se implementar um ajuste na taxa básica de juros, de forma a conter o descompasso entre o ritmo de expansão da demanda doméstica e a capacidade produtiva da economia", diz o texto.

"Atrás da curva". Em relatório, o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore disse que há "evidente contradição entre os fatos empíricos descritos na ata e a decisão tomada". Por isso, avalia que a autoridade monetária ficou "atrás da curva", jargão do mundo financeiro que significa que o BC está atrasado em sua decisão sobre o juro.

Também em relatório, o economista-chefe do Itaú Unibanco e ex-diretor do BC, Ilan Goldfajn, criticou a autoridade monetária . "A ata apresenta argumentos fortes para elevar a taxa Selic", afirma o texto, assinado com o economista Guilherme da Nóbrega. "Mas, então, por que adiar (a elevação)?", indagam.

"Uma parte do Comitê disse "não" para o ajuste imediato na taxa básica, mas se comprometeu enfaticamente com a subida no mês que vem, e num ritmo possivelmente mais forte. Como conciliar as duas mensagens?", perguntam os analistas.

Na avaliação do economista-chefe da Corretora Prosper, Eduardo Velho, os passos titubeantes do BC indicam que a Selic provavelmente terá de subir mais em abril do que o mercado esperava. "Antes da reunião de março, acreditávamos que havia uma chance de 30% de uma elevação de 0,75 ponto da Selic em abril. Agora, achamos que essa chance cresceu para 50%", disse.

Em nota a clientes, a Tendências Consultoria - que apostava em manutenção da Selic - avaliou que o equívoco do BC se deu na redação da ata. "Embora a ata tivesse de ser realmente dura, sinalizando os próximos passos da autoridade monetária, o tom talvez tenha sido muito forte, o que pode alimentar o boato de influências políticas sobre as decisões do Copom", disse o texto, assinado por Gian Barbosa.

A questão política é, segundo os especialistas, o que estaria por trás da aparente contradição do BC. Uma das hipóteses é a de que a autoridade monetária quis adiar ao máximo a elevação do juro por causa das eleições.

A economista Thaís Zara, da Rosenberg & Associados, descarta a possibilidade. "A não subida do juro em março dá margem para os dois lados: pode-se interpretar que o BC não mexeu no juro por questões políticas, mas também se pode dizer que não alterar o juro em março faz com que provavelmente haja elevações mais perto das eleições."

"Acredito que há comprometimento do BC em alcançar a meta (de inflação)." A Rosenberg mantém a estimativa de que a Selic sairá dos atuais 8,75% para 11,25% em dezembro.

Outro capítulo da especulação política está relacionado à provável saída do atual presidente do BC, Henrique Meirelles. "Meirelles pode querer deixar para seu sucessor a tarefa de elevar a Selic", diz Eduardo Velho.

O Estado apurou que, nos corredores do BC, a possibilidade de o próximo presidente iniciar o ciclo de altas da taxa juros é bem-vista, pois mostraria ao mercado o compromisso dessa autoridade com o cumprimento da meta de inflação. O BC também avalia que o tamanho do ciclo de elevações ainda é incerto. Daí a importância de ganhar tempo para analisar o cenário.

Hoje, o principal candidato a substituir Meirelles no BC, caso sua saída para a disputa de um cargo político seja confirmada, é o diretor de Normas da instituição, Alexandre Tombini.

Incerteza. Outro grupo de analistas avalia que o BC não só acertou na decisão de manter o juro, como não mostrou contradição no texto da ata. "O reconhecimento da necessidade de elevar o juro não significa que não possa haver incerteza quanto ao momento em que o ciclo de altas deve começar", disse Diego Donadio, estrategista para América Latina do banco BNP Paribas.

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