Ata revela momento de transição nas preocupações do BC

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2012 | 03h07

Toda ata das reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) tem uma chave de interpretação. A chave da reunião da semana passada, em que se decidiu, por unanimidade, promover mais um corte de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juros, trazendo-a ao nível nominal inédito de 8% ao ano, está no penúltimo parágrafo. Lá está escrito: "(...) mesmo considerando que a recuperação da atividade vem ocorrendo mais lentamente do que se antecipava, o Copom entende que, dados os efeitos cumulativos e defasados das ações de política implementadas até o momento, qualquer movimento de flexibilização monetária adicional deve ser conduzido com parcimônia".

Traduzindo do "coponês" - o idioma específico das atas do Copom - para o vernáculo, fica claro que, para o Banco Central, a retomada, ainda que moderada, do crescimento na economia brasileira não é uma questão de "se", mas de "quando". A demora numa definição mais nítida dessa retomada, até aqui mais lenta do que o esperado, é o fator que mantém acesa a incerteza em relação ao momento de encerrar o ciclo já longo de corte dos juros. Assim, ainda deve haver uma redução da taxa Selic na reunião do Copom em fins de agosto e, dependendo do ritmo da recuperação, uma outra em outubro. Há consenso de que a taxa recuará para 7,5% antes de se estabilizar, restando apostas no sentido de estender para outubro o fim do período de afrouxamento monetário, com os juros básicos estacionando em 7,25% ou 7%.

Em seu conjunto, a ata da última reunião do Copom aponta para o fato de que o fundo do poço, pelo menos nos estreitos limites do curto prazo, teria sido alcançado. Essa percepção se refere não só à economia brasileira, mas também à situação da economia internacional, incluindo a própria e mais problemática zona do euro. Do mesmo modo como a retomada no Brasil virá, mas será gradual e moderada, a redução do ritmo nos demais grandes emergentes - China à frente - será lenta e suave. Nos países encalacrados do euro, combinam-se a inexistência de solução rápida e o atualmente baixo potencial de rupturas.

O outro lado dessa moeda em que se localizam sinais de relativo otimismo quanto à trajetória da economia é o tom mais conservador em relação à política monetária. Especificamente quanto à economia brasileira, a ata do Copom de julho pode ser vista como retrato de um momento de transição, rumo a uma recuperação, representada, de todo modo, por uma curva de inclinação suave. Mas pode também ser interpretada como momento de transição nas preocupações do BC - da trajetória do nível de atividades para a trajetória dos índices de preços.

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