Ataque ao dólar pode atingir crescimento

Anunciado para conter a especulação com o dólar, o aumento do compulsório dos bancos sobre os depósitos à vista, a prazo e na poupança deve comprometer ainda mais as perspectivas de retomada da economia neste fim de ano. As projeções de crescimento neste ano e no próximo já vêm caindo mês a mês, de acordo com o levantamento feito semanalmente pelo Banco Central (BC) junto aos departamentos de pesquisa das instituições financeiras. No final de julho, a previsão média do mercado era de crescimento de 1,93% em 2002 e de 3,50% em 2003. Na última rodada de previsões do BC, no dia 4, a previsão média já havia caído para 1,32% e 2,60%, respectivamente. Com o aumento dos compulsórios, que tem um efeito sobre a atividade econômica equivalente ao de uma alta na taxa de juros, é provável que o crescimento projetado para 2003 caia ainda mais. Octavio de Barros, economista-chefe do BBV, diz que o banco está revisando os cenários para 2003, e que o aumento do compulsório vai ter impacto: "O nosso cenário mais otimista, de 2%, deve cair". Para Barros, em 2003, "não vai haver muito espaço para o consumo crescer, com a massa salarial estagnada e o canal de crédito sem muita exuberância". É esta questão do crédito que preocupa os empresários, que prevêem mais restrição aos empréstimos, já que o aumento dos compulsórios deve provocar a alta dos juros pagos tanto pelas empresas como pelas pessoas físicas, enfraquecendo a demanda. Por esta razão, já há um movimento para que a elevação do compulsório tenha curta duração e seja revista logo depois do segundo turno das eleições. "O crédito neste país não existe e essa medida só agrava e complica a situação. É como matar passarinho com um tiro de canhão: faz mais estrago em volta do que no próprio passarinho. Ou seja, quem vai pagar a conta é quem trabalha e produz, e não quem especula", protesta o diretor do Departamento de Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Mário Bernardini. Em nota divulgada sexta-feira, dia do anúncio da medida, o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, já alertava para o fato de que toda esperança de recuperação da atividade econômica estava sendo desperdiçada pelo governo. "O resultado será o agravamento da situação financeira de muitas empresas e um banho de água fria no nível de atividade da economia, às vésperas de serem feitas as encomendas para as festas de final de ano". O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, tem a mesma avaliação. "Espero que sejam medidas transitórias de curtíssimo prazo. Do contrário, elas poderão comprometer as vendas no Natal e reduzir a arrecadação do próprio governo." Segundo cálculos do BC, o aumento do compulsório deverá tirar de circulação cerca de R$ 14,2 bilhões. Burti observa que esse valor quase equivale ao que vem sendo injetado na economia pelo pagamento das parcelas de correção do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) referente aos expurgos dos Planos Verão e Collor 1. "A expectativa do varejo era de que esse dinheiro trouxesse algum ânimo novo para a economia", acrescenta Burti. O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, ressalta que o aumento dos compulsórios deverá provocar alta nas taxas de juros e restringir ainda mais a oferta de crédito: "Os bancos passarão a ter menos recursos e deverão ser mais seletivos e cobrar mais pelos empréstimos". Oliveira observa que ainda não é possível medir qual deverá ser o aumento dos juros em pontos porcentuais.

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