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Ataque ao papel-moeda

Na recente noite de oito de novembro, a população da Índia levou um susto quando as autoridades anunciaram que as notas de 1000 e de 500 rúpias, equivalentes a respectivamente R$ 49 e R$ 24,5, iriam simplesmente parar de ser aceitas como dinheiro. Todos os portadores dessas notas se viram obrigados a ir aos bancos para trocá-las por cédulas de menor valor.

Fernando Dantas, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2016 | 05h00

A intenção do governo indiano é combater o dinheiro do crime e da corrupção, que, como em outras partes do mundo, é em boa parte guardado e usado na forma de papel-moeda. A decisão, entretanto, lançou o país numa barafunda financeira, já que as duas notas representavam 85% do dinheiro em espécie na Índia. E a gigantesca população do país está habituada a economizar e realizar grande parte das suas transações em dinheiro vivo.

A Índia está reintroduzindo novas notas de 2.000 e 500 rúpias, mais difíceis de falsificar. No entanto, em outros países vem se fortalecendo a ideia de reduzir ou eliminar de vez as notas de alto valor (para os padrões de renda indianos, aquelas cédulas são altas), como forma de combater o dinheiro do crime.

O Banco Central Europeu (BCE), por exemplo, vai retirar gradativamente de circulação, até 2018, a nota de 500 euros, equivalente a R$ 1.795, muito apreciada por sua praticidade por bandidos e terroristas, a ponto de ser chamada de “bin laden” no mundo do crime. Os Estados Unidos já recolheram todas as notas com valor acima de US$ 100 (havia cédulas de até US$ 10 mil).

Porém, para alguns economistas, o mundo deveria reduzir de forma muito mais drástica o volume de papel-moeda em circulação, especialmente aquele acumulado em notas de alto valor. Em livro recém-lançado (“The Curse of Cash”, título que significa “a maldição do dinheiro em espécie”), o prestigiado economista norte-americano Kenneth Rogoff propõe que se tire de circulação em escala mundial todas as notas com valor acima de US$ 10 (R$ 34).

Rogoff observa que notas de alta denominação em dólares e ienes (a cédula de US$ 100 e a de 10 mil ienes) são responsáveis por respectivamente 80% e 90% do alto volume de dinheiro em espécie presente nos dois países. Esta dinheirama em papel, por sua vez, não está estimulando a economia legal, mas é uma grande ajuda às transações criminosas.

Como ele escreve em recente artigo, “um milhão de dólares em notas de US$ 100 cabem em uma mala, e um milhão de dólares em notas de 500 euros cabem numa bolsa”.

Mas existe outro lado nessa discussão. Segundo o economista José Júlio Senna, do Centro de Política Monetária do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), “um menor volume de notas de elevada denominação em circulação traz dificuldades para indivíduos e bancos se defenderem de políticas de juros negativos adotadas em alguns países”.

Como se sabe, países como Japão, Suíça, Suécia e Dinamarca estão com taxas básicas de juros negativas. Este estranho fato é uma tentativa de estimular as economias depois que os juros já foram a zero com o mesmo objetivo, e sem resultados satisfatórios.

Senna explica que uma forma de se defender do juro negativo, que faz com que recursos aplicados no sistema financeiro encolham, é colocar dinheiro em espécie “no cofre ou debaixo do colchão”. A logística e os riscos desta estratégia, porém, tornam-se mais complicados com notas de baixo valor, especialmente no caso de grandes volumes de dinheiro. De qualquer forma, o economista ressalva que os benefícios da estratégia de juro negativo estão longe de confirmados.

Por outro lado, está muito clara a vantagem de eliminar ou reduzir o volume de notas de alto valor se o objetivo é combater o crime e a corrupção. No caso do Brasil, em que a epopeia de escândalos só faz crescer, talvez fosse o caso de o BC pensar no fim da nota de R$ 100. Mesmo porque até hoje o comércio faz cara feia para trocá-la.

COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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