Até a ceia pode ser parcelada

Embora concedam crédito, redes varejistas já mostram apreensão com um possível aumento da inadimplência

Vera Dantas, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2007 | 00h00

Vinhos, peru, tender e bacalhau, entre outros alimentos e bebidas do cardápio tradicional de fim de ano, já são oferecidos a prazo. No Wal-Mart, por exemplo, a ceia pode ser dividida em três vezes sem juros. "É uma compra pontual e o consumidor, entre tantas despesas no fim do ano, pode se programar melhor", justifica o diretor de Serviços Financeiros do Wal-Mart, Givaldo Marinho. A oferta farta de crédito beneficia e ao mesmo tempo deixa o comércio em estado de alerta. Afinal, é a soma de prestações mais curtas, com outras de 24 meses ou mais, acrescidas às vezes de despesas imprevistas, que pode levar o consumidor ao descontrole financeiro e à inadimplência. As lojas e financeiras estarão de olho principalmente nos próximos meses de abril e maio, quando a curva de inadimplência costuma subir pelo excesso no crédito tomado para as despesas de fim de ano. "A inadimplência por enquanto está empatada com a do ano passado, mas acima do desejável", diz o supervisor-geral das Lojas Cem, Valdemir Colleone. De cada 100 débitos, ele perde cinco. "O ideal seriam três", diz. Do seu total de vendas, 90% são a prazo e as compras podem ser parceladas em 20 vezes, a uma taxa de juros de 4,2% ao mês. A expectativa da rede para dezembro é crescer, graças à força do crediário,cerca de 10% em relação ao mesmo mês em 2006.Este ano a busca de crédito avançou 35% em relação a 2006, revela um levantamento da Associação Comercial de São Paulo, com base nas consultas de novos CPFs feitas pelo varejo de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná. O financiamento, com prazos mais longos, tem sido uma arma estratégica das redes de varejo na disputa pelo consumidor. O Grupo Carrefour estendeu o prazo do pagamento no crediário no cartão de 18 meses no Natal passado para 25 vezes este ano. Do total das vendas das lojas que levam a marca Carrefour (o grupo tem também as bandeiras Dia% e Atacadão), 40% são a crédito. "O plano mais procurado é o de 12 vezes sem juros, mas oferecemos a alternativa de 25 vezes com juros para incentivar as vendas", diz o presidente do Carrefour Soluções Financeiras, Caíque Mello. Na rede Extra de hipermercados, do Grupo Pão de Açúcar, a estratégia para fisgar o consumidor na compra a crédito foi adaptar o financiamento à capacidade de pagamento individual. "No Natal passado, o limite era um teto único. Por exemplo, se fosse de R$ 600, não dava para comprar um televisor de R$ 900. Este ano, transferimos o teto para as parcelas. Assim, com limite de R$ 60 por mês, é possível parcelar um televisor de R$ 900 em 15 vezes", diz Fernando Teles, diretor da FIC - joint-venture do Itaú com o Pão de Açúcar para financiamentos. A mudança deve trazer para a rede um crescimento de 20% a 25% nas vendas parceladas no Natal em relação ao mesmo período em 2006. "Incorporei 1,8 milhão de pessoas à minha base de potenciais clientes, que antes não tinham capacidade financeira para compra de determinados bens", diz. Até brinquedos são divididos em 10 vezes no cartão em lojas especializadas, como a Ri Happy. Em 2006, o prazo máximo era de seis vezes. "A ampliação do crédito abre espaço para um aumento de vendas de produtos de maior valor, como os brinquedos tecnológicos, que eram inacessíveis para as classes de menor renda", diz o diretor da rede Ricardo Sayon.

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