Ed Ferreira/Estadão
Ed Ferreira/Estadão

'Até eu peço desculpas'

Para Gabrielli, que presidiu a Petrobrás durante o período investigado, corrupção teria sido prática isolada

Entrevista com

Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobrás

IRANY TEREZA , O Estado de S.Paulo

24 Abril 2015 | 02h03

RIO - Presidente da Petrobrás de 2005 a 2012, ou seja, por quase todo o período sob investigação da Polícia Federal, iniciado um ano antes, José Sergio Gabrielli se disse tão constrangido quanto o atual presidente da companhia, Aldemir Bendine, que pediu desculpas ao revelar, durante a divulgação do balanço de 2014 da companhia, as perdas de R$ 6,2 bilhões com corrupção. O ex-presidente, porém, mantém a tese de que a corrupção teria sido prática isolada de alguns funcionários e um grupo de empreiteiras. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O senhor acompanhou a divulgação do balanço?

Não, não vi.

A empresa contabilizou em R$ 6,2 bilhões as perdas por corrupção.

Li o texto. O que a Petrobrás fez foi aplicar uma regra geral, um cálculo linear, generalizado, sobre todos os contratos de 27 empresas acusadas de cartel. Porque era impossível para a Petrobrás identificar o que é específico da corrupção em cada contrato e em cada momento. Em função disso, a Petrobrás optou por uma visão mais conservadora, com maior precaução, e aplicou um valor linear de 3% em todos os contratos, mesmo sabendo que pode não ter sido isso. Ficou impossível para a contabilidade explicar o que era específico de corrupção de cada caso.

Aldemir Bendine reconheceu que houve corrupção.

Ele diz de forma explícita que o que aconteceu foi uma relação de ex-funcionários da Petrobrás com as empreiteiras e as transações que levaram a isso ocorreram fora da Petrobrás tanto é que o sistema de contabilidade não consegue capturar.

Mas, chegou a pedir desculpas pelo que ocorreu na empresa.

Evidente. Até eu peço desculpas, porque criou-se uma situação que ninguém podia imaginar. Se tem um diretor que confessa o que fez, tem que pedir desculpas, é lógico.

O senhor diz que a corrupção ficou restrita às áreas dos diretores presos?

Não tenho como dizer isso. Corrupção é um caso de polícia. A contabilidade não consegue ver isso. Não acredito em corrupção sistêmica geral. Não se consegue identificar nem depois de um ano de intensa investigação o tamanho do problema e opta-se por uma regra geral. O que ocorreu foi uma operação entre empreiteiros e alguns empregados.

Os números dos contratos não levantaram suspeitas de superfaturamento na época?

Não, porque se tem uma variação aceitável de -15% e +20% sobre o valor do orçamento. É um intervalo grande, mas essa é a prática usual de projetos complexos e sob encomenda.

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