Até o superávit comercial é consequência da crise

O saldo positivo de US$ 2,37 bilhões na balança comercial em julho e de US$ 4,6 bilhões nos primeiros sete meses do ano, informado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), não justifica comemoração.

O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2015 | 03h00

O déficit visível até maio ficou para trás, mas nem todos os especialistas confiam na continuidade do superávit nem se pode ignorar que o comércio exterior brasileiro está encolhendo. A redução das exportações e das importações – estas em ritmo mais intenso, daí o superávit – reflete a desaceleração da economia e a falta de competitividade dos produtos brasileiros.

O que mais beneficia os exportadores é a desvalorização do real, que favorece as vendas externas. Indústrias ouvidas pelo Estado voltam a se animar a exportar. Mas o câmbio mais favorável demora para surtir efeito. A média diária de exportações foi de apenas US$ 805 milhões em julho, inferior em 13,8% à de junho e em 19,5% à de julho do ano passado, quando superou US$ 1 bilhão. Não haveria superávit se as importações não estivessem tão frágeis: média diária de apenas US$ 702 milhões, uma redução de 24,8% em relação a julho de 2014.

Os exportadores têm conseguido aumentar as quantidades embarcadas, mas as vendas fracas decorrem da queda de preços: as exportações de petróleo bruto caíram 61,5%; de minério de ferro, 37,5%; de fumo em folhas, 31,9%; de carne bovina, 27,1%; e de café em grão, 22,2%.

A redução do crescimento econômico da China reduz sua demanda de soja em grão, minério de ferro e petróleo – dos quais é grande importadora –, o que comprime nossas exportações. De outro lado, com a baixa dos preços, principalmente de petróleo e derivados, o Brasil está pagando bem menos pelas importações de combustíveis e lubrificantes (-60,9%). 

Segundo o boletim Focus, do Banco Central, os agentes econômicos projetam saldo comercial de US$ 6,6 bilhões em 2015, em contraste com o déficit de US$ 3,9 bilhões em 2014. Mas a corrente de comércio (soma de exportações e importações e melhor indicador da integração ao mercado global) caiu de US$ 481 bilhões em 2013 para US$ 455 bilhões em 2014 e é estimada em US$ 400 bilhões neste ano.

Por ora, o principal efeito positivo do superávit comercial é ajudar a cortar o déficit na conta corrente do balanço de pagamentos, de US$ 104 bilhões em 2014 para estimados US$ 80 bilhões neste ano.

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