AFP PHOTO / MANDEL NGAN
AFP PHOTO / MANDEL NGAN

Até onde vai o protecionismo de Trump?

O presidente dos Estados Unidos contraria a história do país que era o simbolismo do livre-comércio

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 Março 2018 | 20h30

Depois da 2ª Grande Guerra, os Estados Unidos se tornaram campeões do livre-comércio, no pressuposto de que a abertura comercial beneficia a todos. Para garantir regras limpas no comércio internacional, criaram a Organização Mundial do Comércio (OMC). Com essa bandeira e com essa macroagenda, tornaram-se líderes no comércio mundial, protagonismo do qual tiraram sua prosperidade e grande proveito geopolítico.

Agora, é o presidente Trump que contraria tudo o que fizeram os chefes dos governos anteriores. A acreditar no seu discurso, a globalização e os acordos de livre comércio, dos quais os Estados Unidos são signatários, trouxeram mais malefícios do que benefícios para seu povo. Por isso, avisa que reverá tudo, ameaça com guerra comercial e começa novo jogo, com proteção à siderurgia e à indústria do alumínio por meio de uma muralha de tarifas aduaneiras.

Paradoxalmente, foi o presidente Xi Jinping, da China, potência de economia centralizada, que, no início deste ano, em Davos, proclamou compromisso radical com os princípios de livre comércio, os mesmos que Trump agora jura renegar.

Trump não é apenas Trump. Ele é, principalmente,  seus eleitores,  que hoje se sentem espoliados de empregos, de salários e de perspectivas de ascensão social. Eles sentem que os chineses os passam para trás, com jogo que consideram sujo, na sua política de câmbio (por meio da desvalorização do yuan), no comércio pirata, por meio de apropriação de patentes, e na distribuição de subsídios à produção e ao comércio.

Ainda não está claro qual é o principal objetivo da nova política comercial dos Estados Unidos. No discurso, é recolocar os Estados Unidos em primeiro lugar e acabar com as vantagens comerciais que supostamente beneficiam chineses, mexicanos e um punhado de emergentes, entre os quais o Brasil. Mas, se é para redesenhar as relações comerciais, esse efeito não se consegue com guerra comercial nem com exacerbação do protecionismo, porque o sistema produtivo dos Estados Unidos não se atém às fronteiras nacionais: como a economia está fortemente globalizada, prejudicar esses setores no resto do mundo leva enorme risco de desestruturar as cadeias produtivas de que participam as multinacionais dos Estados Unidos.

Além disso, ao hostilizar os parceiros comerciais, Trump abre enorme espaço para que se firme a liderança da China na economia global, em flagrante prejuízo para os Estados Unidos.

Uma das hipóteses é a de que tudo o que o presidente Trump quer é dar alguma satisfação a seus eleitores, não importando aqui a eficácia com que as reivindicações sejam atendidas. No caso do aço, os eleitores a afagar são os do Cinturão da Ferrugem (principalmente, Michigan, Pensilvânia e Ohio). Se for para ficar só no discurso e no teatro, a imposição de tarifas protecionistas não poderá ir muito longe. Não poderá, por exemplo, desmontar a máquina criada desde o presidente Roosevelt para refazer o mundo à imagem e semelhança dos Estados Unidos. Mas poderá obter mais do que puramente concessões táticas dos seus parceiros comerciais. Isso só ficará mais claro dentro de alguns meses.

 

CONFIRA

» Extinção de empregos

Em artigo publicado no ‘New York Times’ de terça-feira, o senador republicano da Flórida Marco Rubio acusou a China de destruir, por meio de seu comércio, mais de 2,4 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos, apenas de 1999 a 2011. Um dos instrumentos usados pela China para enfraquecer os Estados Unidos, diz Rubio, foi o de ter formado reservas com títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que produziram valorização do dólar diante das outras moedas e, assim, tiraram competitividade do produto norte-americano.

» E agora, Fiesp?

O mundo dá voltas e, com elas, a situação de alguns dirigentes da Fiesp, que até recentemente pregavam ardorosamente a imposição de barreiras comerciais às importações chinesas para proteger o aço brasileiro, mudou. Agora, a China é aliada e o grande inimigo comercial passou a ser os Estados Unidos. Ou seja, os protecionistas nacionais querem o livre-comércio respeitado só pelos Estados Unidos. Eles próprios querem mais é proteção.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.