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Até quando charlatães abusarão de nós?

Pondo de lado o direito que todo mundo tem de ser pessimista, otimista ou neutro, e de não ser criticado apenas por essa característica de temperamento, vamos a um desafio aos leitores de jornais, telespectadores e radiouvintes.

Marco Antonio Rocha*, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2014 | 02h04

O desafio é atentar para o noticiário munido de papel e lápis para anotar quantas vezes se ouve, vê-se ou se lê a frase "estamos estudando esse problema e já tomamos providências para que seja solucionado" - partindo de autoridades federais, estaduais e municipais diante de qualquer magno problema de administração pública levantado por jornalistas e há anos sem solução. O que autoriza dizer que o Brasil tem os governantes mais "estudiosos" do mundo, pois passam a vida estudando os mesmos problemas.

Ao lado da lista das queixas e das respostas repetitivas das autoridades de plantão, o leitor pode anotar também o tempo que o assunto está em pauta e desde quando as atuais ou antigas autoridades vêm respondendo do mesmo modo.

No momento, por exemplo, em São Paulo, o Sistema Cantareira ameaça secar e a Sabesp e o governo estadual estão "estudando soluções". Só que o Sistema Cantareira pede complementação sucessiva desde que começou a ser projetado, em 1960, quando Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, também criava a Adutora do Guandu (ele governou o então Estado da Guanabara de 1960 a 1965).

As aulas nas escolas públicas de São Paulo começaram este ano sem ter os uniformes e o material didático suficientes para todos os alunos, como se fosse a primeira vez que tivessem de ser fornecidos.

O transporte urbano público massacra a população de muitas cidades há décadas, mas as administrações "estudam soluções". Já o interurbano virou calamidade perene, apesar do PAC.

O fornecimento de energia elétrica, de gás de cozinha e de combustíveis demanda "estudos e soluções definitivas" ano após ano.

O péssimo saneamento básico, no País inteiro, é denunciado pela própria população há anos, sem que se tenha previsão de vê-lo melhorado. E a cada ano as enchentes o agravam.

O ensino básico e médio sofre com a falta de instalações, de professores, de materiais, de transporte, em caráter perene, enquanto o ensino de nível universitário padece da proliferação de estabelecimentos caça-níqueis que cativam a juventude com promessas de melhoria de vida, junto com a "melhoria" do País.

Os planos governamentais para a saúde pública se sucedem a cada ministro que entra, ansioso para obter votos para sua própria candidatura, enquanto o cenário se deteriora em passo galopante.

Na Justiça, na Polícia e na Segurança Pública em geral as possibilidades de melhoria da situação, cada vez mais exíguas, se juntam às de piora cada vez mais assustadoras, enquanto o caos domina os estabelecimentos prisionais e a criminalidade cresce e consolida sua audácia.

O fracasso das administrações públicas brasileiras é mais do que evidente num balanço de tudo o que afeta o dia a dia do brasileiro comum. E, enquanto o País se esfarela, de Brasília nos vem nada além do eco de feroz luta política por mais minutos de TV na campanha eleitoral para saber se dona Dilma se reelegerá em primeiro ou segundo turno. O dia a dia do brasileiro comum fica para "exercício findo" e será levado para mais um governo.

Anotada dezenas de vezes aquela frase do começo, e comparada com o acúmulo de problemas não solucionados, mas agravados, dos últimos 50 anos, você se sente, leitor, pessimista, otimista ou neutro?

Dilma e seus áulicos nos dirão para sermos otimistas, porque "o governo está trabalhando para melhorar a vida de todos".

Quando? No longo prazo?

Mas até lá, "todos estaremos mortos", já dizia John Maynard Keynes, um ícone da economia mundial.

Há longo tempo.

*Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha@estadao.com

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