Até que ponto os mercados emergentes são fracos?

Se houver uma pausa no poderoso crescimento da China, o tumulto observado hoje nos emergentes vai parecer um soluço

Kenneth Rogoff* / Project Syndicate, O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 02h07

As ações e as taxas de câmbio dos mercados emergentes voltam a sofrer forte pressão para baixo, mas será que as economias em desenvolvimento são de fato tão frágeis quanto os operadores financeiros globais parecem temer? A resposta sintética, para alguns, é provavelmente "sim", mas para a maioria, "ainda não".

Na maior parte dos países, o que estamos observando é uma nova calibragem para os investidores incorporarem o risco de que o Produto Interno Bruto (PIB) da China possa subir mais lentamente, para que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) possa começar a endurecer as condições monetárias de maneira mais rápida, e uma recaída da política econômica em muitos países possa afetar o crescimento potencial. Ao mesmo tempo, a mudança maciça da Europa para uma situação de superávit comercial (um fator fundamental que respalda a recente estabilidade da região) e a significativa desvalorização do iene japonês são alguns dos inúmeros fatores que pressionam os países preocupados em conter os déficits das contas correntes.

Parece que foi ontem que os analistas do Goldman Sachs comemoravam o crescimento dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e o Fundo Monetário Internacional previa uma recuperação global em três velocidades liderada pelos emergentes.

O que aconteceu? Como sempre, o culpado seria o Fed, que começou a reduzir sua política de afrouxamento quantitativo. Mas o papel do Fed quase certamente é exagerado.

Em primeiro lugar, o recuo do Fed reflete em parte a crescente confiança na economia americana, o que deveria significar um mercado de exportação mais forte para a maioria dos emergentes. Além disso, ao modesto endurecimento do Fed soma-se a tendência para uma política monetária mais frouxa na zona do euro e no Japão; portanto, em geral, a política monetária dos países avançados continua favorável.

A incerteza quanto ao rumo do crescimento da China é entretanto fundamental. Durante mais de dez anos, o espantoso crescimento chinês alimentou um boom considerável dos preços que envaideceu enormemente os estrategistas econômicos dos mercados emergentes exportadores de commodities, da Rússia à Argentina.

Agora, a situação não chega a tanto. O crescimento a curto prazo da China é uma questão em aberto, enquanto seus novos líderes procuram conter o insustentável boom alimentado pelo crédito. Com certeza, se houver uma pausa no poderoso crescimento da China, o tumulto observado hoje nos mercados emergentes parecerá um soluço em comparação com o terremoto que se seguirá.

Há outros elementos fundamentais na atual conjuntura. A revolução do gás de xisto nos EUA está mudando a equação energética global. Países exportadores de energia como a Rússia sentem a pressão de queda nos preços. Ao mesmo tempo, a energia exageradamente barata nos EUA afeta a competitividade das indústrias asiáticas, pelo menos no caso de alguns produtos.

A Abenomics do Japão é também importante para alguns países, pois a significativa desvalorização do iene pressiona a Coreia em particular e os concorrentes asiáticos do Japão em geral.

Entretanto, no cerne dos problemas desses mercados está a estratégia e a reincidência no erro da política. Há consideráveis diferenças entre os países. No Brasil, os esforços do governo para reduzir a independência do Banco Central e se envolver nos mercados energéticos e nos mercados de capitais prejudicaram o crescimento. A Turquia sofre com as dificuldades enfrentadas por suas instituições democráticas. A incapacidade da Rússia de criar fortes instituições independentes tornou difícil a emergência de uma classe empreendedora capaz de contribuir para diversificar a economia.

Na Índia, a independência do BC continua razoavelmente forte, e o Banco da Reserva da Índia agora estuda uma mudança para um regime preocupado com a inflação. Mas um período prolongado de políticas populistas debilitou a tendência ao crescimento e exacerbou a inflação.

À parte o México, países como Chile, Colômbia e Peru estão bem posicionados para ganhar com os investimentos na criação de instituições. Mas, evidentemente, novas instituições podem levar décadas, e às vezes mais até, para se consolidarem.

Portanto, em termos gerais, até que ponto os mercados emergentes são frágeis? Contrariamente ao que aconteceu nos anos 90, quando o câmbio fixo era muito difundido, a maioria dos países agora adota um câmbio flexível de forma a absorver os choques. A questão real é o que acontecerá quando o tumulto se deslocar para os mercados da dívida.

Muitos países acumularam reservas substanciais, e agora estão emitindo muito mais títulos da dívida em moeda nacional. Infelizmente, com certeza o drama continuará nos próximos anos.

*Kenneth Rogoff foi chefe da equipe de economistas do FMI.

TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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