Imagem Paulo Leme
Colunista
Paulo Leme
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Atividade econômica mundial: precária

O WEO prevê que a taxa de crescimento do PIB mundial cairá de forma sincronizada de 3,6% em 2018 para 3,0% em 2019 (o pior resultado desde 2008)

Paulo Leme, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2019 | 04h00

Em outubro, o FMI publicou a nova edição do World Economic Outlook (WEO), onde apresenta suas estimativas para a economia mundial para 2019 e 2020. Apesar de não antecipar uma recessão global, as previsões do FMI para a recuperação do crescimento do PIB mundial para 2020 são desanimadoras.

Gita Gopinath, economista-chefe do FMI, rotulou essa recuperação de precária, adicionando que o viés de risco das previsões é para baixo. Fiquei mais preocupado ainda ao ler o relatório irmão do WEO sobre a Estabilidade Financeira Global (GFSR). Este alerta que a política de juros baixos ou negativos deixou o sistema financeiro global vulnerável a uma nova crise financeira. 

O WEO prevê que a taxa de crescimento do PIB mundial cairá de forma sincronizada de 3,6% em 2018 para 3,0% em 2019 (o pior resultado desde 2008). Para 2020, o FMI antecipa que o crescimento mundial será de apenas 3,4%. Isso é preocupante, porque as economias desenvolvidas crescerão no mesmo ritmo lento de 1,7% previsto para 2019, e a China desacelerará para 5,8% em 2020, ante 6,6% em 2018 e 6,1% em 2019. Portanto, a modesta recuperação mundial esperada para 2020 dependerá da capacidade de algumas combalidas economias emergentes de saírem da recessão. 

O viés das projeções para o crescimento mundial é para baixo, o que é explicado por sete grandes riscos. O primeiro é a intensificação do protecionismo e da guerra comercial iniciada pelos Estados Unidos. Em 2020, as barreiras comerciais reduzirão o crescimento do PIB mundial em pelo menos 0,8% e deprimirão o comércio internacional e a indústria automobilística.

O segundo é o Brexit, caso o Reino Unido e a União Europeia não cheguem a um acordo sensato sobre quais serão as regras de transição. Isso poderia custar ao Reino Unido entre 3,0% a 5,0% de crescimento econômico nos próximos dois anos.

O terceiro é a desaceleração do crescimento do PIB da China, cujo ritmo será ditado pela guerra comercial e falta de reformas. O quarto é a queda da produtividade e o envelhecimento da população nas economias desenvolvidas. O quinto é a incerteza e a perda da confiança dos investidores gerada pela cegueira e a forma errática com que os líderes das economias avançadas vêm conduzido a sua política econômica. O sexto é o risco geopolítico generalizado, o que poderia afugentar os investidores dos ativos de risco. 

O sétimo risco é a fragilização do sistema financeiro internacional gerada pelos efeitos tóxicos da política monetária expansionista e de juros baixos ou negativos. É fácil de explicar o problema. Primeiro, as taxas de juros negativas de longo prazo matam a intermediação financeira. Para melhorar os seus resultados financeiros, os bancos são forçados a tomar mais riscos e aumentar o grau de alavancagem. 

Em segundo lugar, os grandes investidores institucionais (fundos de pensão, seguradoras, e fundos mútuos) vêm tomando mais risco e investindo em produtos ilíquidos e créditos de má qualidade para minimizar a queda da rentabilidade de suas carteiras. Além disso, os fundos aumentaram exposição a produtos estruturados, alavancados e exóticos. Isso os torna vulneráveis à uma redução do apetite por risco e a mudanças na política monetária. A situação técnica do mercado é ruim, porque os investidores estão aplicados nas mesmas posições e os bancos perderam a capacidade de dar a liquidez necessária para que possam liquidar suas carteiras. Isso é uma das consequências do aperto regulatório e do aumento dos requerimentos de capital e liquidez: os bancos diminuíram o seu estoque de ativos, o que reduz a liquidez e aumenta a volatilidade do mercado – comparável à retirada dos amortecedores de um carro.

Em terceiro lugar, o barateamento do custo do crédito vem estimulando o endividamento excessivo das empresas não financeiras nas economias avançadas e na China. Nos EUA, empresas no segmento de alto risco de crédito estão se endividando não para investir, mas para recomprar ações, pagar dividendos, e adquirir empresas. O grau de alavancagem e o de cobertura do serviço da dívida em relação à receita dessas empresas são preocupantes. 

O que poderia ser feito para diminuir esses riscos para a economia mundial? O presidente Trump poderia reverter o dano causado pela guerra comercial e os grandes bancos centrais das economias desenvolvidas deveriam ter um plano crível e um cronograma para a normalização da política monetária.

*PROFESSOR VISITANTE DE FINANÇAS NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

Tudo o que sabemos sobre:
economiainvestimento estrangeiro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.