Ativos da Cimpor podem ser repartidos

A CSN fracassou em sua oferta de compra de pelo menos um terço mais uma ação da cimenteira

Reuters,

23 de fevereiro de 2010 | 16h58

A CSN fracassou nesta terça-feira,23, em sua oferta de compra de pelo menos um terço mais uma ação da cimenteira portuguesa Cimpor, mas a luta pela empresa lusa não terminou e até pode levar à divisão de seus ativos.

 

A CSN recebeu intenções de venda de apenas 8,56 por cento do capital da Cimpor, não atingindo o patamar mínimo de sucesso e a oferta revisada este mês de 5,75 euros por ação para 6,18 euros ficou sem efeito, não permitindo ao grupo siderúrgico comprar qualquer ação dentro da operação proposta.

 

A oferta da CSN, inicialmente lançada em dezembro de 2009, disparou uma resposta rápida de duas das principais cimenteiras do Brasil, Votorantim e Camargo Corrêa, que compraram posições relevantes da Cimpor sem manifestarem intenção de avançar para o controle.

 

O analista Bruno Silva, do BPI, em Portugal, disse que "a Camargo Corrêa e a Votorantim atingiram o primeiro objetivo imediato: travar a entrada da CSN, sem terem pago um elevado prêmio pelo controle".

 

"Nem a Votorantim, nem a Camargo Corrêa, nenhum deles, entrou na Cimpor para ficar minoritário, e um dos principais objetivos era ter acesso aos ativos de cimento (da Cimpor) no Brasil", disse a analista Rita Carles, do banco de investimento Banif, em Lisboa.

 

A Cimpor, terceira produtora de cimento do Brasil, tornou-se atraente diante da alta na demanda por cimento que o Brasil deve registrar com um boom no setor de construção civil fomentado por projetos de infraestrutura e pela realização da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016.

 

A Votorantim, maior produtora de cimento do Brasil com participação de 40 por cento do mercado, comprou 21,2 por cento da Cimpor e fez um acordo para travar os 9,6 por cento detidos pela estatal Caixa Geral de Depósitos (CGD) na cimenteira portuguesa.

 

A Camargo Corrêa, número quatro na produção de cimento no Brasil, após ver a sua tentativa de fusão com a Cimpor bloqueada pelo regulador português CMVM, comprou 31 por cento da Cimpor.

 

"Esta estrutura acionista tem os mesmos problemas da estrutura anterior e ninguém tem maioria. O viés especulativo aliviou um pouco agora, mas a médio prazo não, e vai manter-se", disse Rita.

 

CADE pode ter palavra decisiva

 

O analista Paulo Macena, da All Consulting, em São Paulo, lembrou que a Cimpor "era o melhor ativo para a CSN crescer de maneira considerável (em cimento) no Brasil", ressaltando que a queixa da CSN ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) pode ser um "revés para Camargo e Votorantim".

 

O órgão antitruste avalia uma eventual concentração excessiva de mercado caso Votorantim ou Camargo Corrêa fiquem com ativos da Cimpor no Brasil.

 

A Secretaria de Direito Econômico (SDE) identificou grave potencial de lesão à concorrência nos acordos fechados pelas duas cimenteiras brasileiras sobre a Cimpor e recomendou ao Cade medidas para evitar mudanças no setor de cimento.

 

"O jogo da Cimpor ainda não acabou, pois o Cade ainda não se pronunciou sobre Votorantim e Camargo Corrêa", afirmou o analista Pedro Galdi, da corretora SLW, também em São Paulo. Ele considera que caso o Cade não permita que as duas cimenteiras passem a controlar fábricas brasileiras da Cimpor, a "CSN poderia insistir ou talvez tentar adquirir outra empresa do setor."

 

A corretora Itaú comentou em relatório que "a CSN poderia ainda adquirir diretamente uma participação minoritária na Cimpor e/ou comprar a Nassau, segunda maior produtora de cimento do Brasil".

 

Os analistas frisam, independentemente do que fizer o Cade, que é quase impossível Votorantim e Camargo Corrêa serem acionistas na Cimpor sem que se sintam tentadas a repartir a empresa.

 

"Acho que muita gente não vendeu ações da Cimpor na oferta da CSN por pensar que ainda poderá haver uma luta pelo controle. Mas, meu cenário central é que, mais cedo ou mais tarde, a Votorantim e a Camargo se entendam em uma divisão da Cimpor", disse o analista do BPI em Portugal.

 

Outros acionistas relevantes da Cimpor são o empresário Manuel Fino (com 10,7 por cento) e o fundo de pensões do Millennium bcp (com 10 por cento). Menos de 20 por cento das ações do capital da Cimpor estão em circulação no mercado.

 

Ações valorizadas, luta não terminou

 

Segundo analistas, apesar de terem caído 5,35 por cento nesta terça-feira, as ações da Cimpor ainda são negociadas a um prêmio maior em relação a grandes nomes do mercado mundial de cimento.

 

Isso porque investidores apostam que a luta pela companhia pode durar, o que sustentará a cotação do papel, que nesta terça-feira terminou em 5,54 euros na bolsa de Lisboa.

 

Dados da Thomson One Analytcs mostram a Cimpor sendo negociada com uma relação preço/lucro de 16 vezes, ante relação de 12 vezes da Lafarge, maior produtora mundial de cimento, e 15 vezes da Holcim.

 

Analistas acreditam que o fato de muitos acionistas não terem vendido suas ações na oferta melhorada da CSN mostra que aguardam a possibilidade de uma venda posterior com termos mais favoráveis.

 

"A luta pela Cimpor acabou de começar e isto não significa uma trégua. Aparentemente, a Votorantim e a Camargo conseguiram, por ora, afastar a CSN", disse um analista de um banco de investimento em Lisboa que pediu para não ser identificado.

 

Procurada, a CSN informou que não vai comentar o assunto. Às 14h33, as ações da companhia brasileira exibiam queda de 1,77 por cento, a 57,12 reais. O Ibovespa perdia 1,76 por cento.

 

(Por Sérgio Gonçalves e Alberto Alerigi Jr. )

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