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Atrás da curva

Terá vindo essa reação do Fed aos últimos indicadores econômicos tarde demais?

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2019 | 04h00

A recente guinada do Federal Reserve (Fed) ao sinalizar uma trajetória de juros mais branda em 2019 e 2020 deflagrou o debate se a nova postura de política monetária do Banco Central americano será suficiente para evitar uma desaceleração mais forte ou até mesmo uma recessão econômica nos Estados Unidos.

Terá vindo essa reação do Fed aos últimos indicadores econômicos tarde demais? O alarme foi dado após os juros dos pelos títulos do Tesouro americano de 10 anos de prazo terem caído abaixo da taxa paga pelos papéis de três meses de duração, gerando uma inversão na curva de juros, quando, em condições normais, os juros de longo prazo são mais altos do que os de curto prazo.

A inversão da curva de juros é um dos termômetros mais utilizados pelo mercado e pelo próprio Fed para medir a saúde da economia, afinal esse movimento precedeu as últimas nove recessões nos Estados Unidos. Quando a taxa dos papéis de três meses do Tesouro americano fica acima dos juros pagos pelos títulos de 10 anos, a probabilidade de recessão nos próximos 12 meses é de 48%, subindo para 56% no prazo entre 12 e 24 meses.

A divulgação na semana passada de indicadores mais fracos do que o esperado de atividade industrial nos Estados Unidos, na zona do euro e no Japão deflagraram pânico nos mercados globais ao reacender temores de recessão nas economias desenvolvidas.

O nervosismo com os frustrantes indicadores econômicos foi maior do que o normal porque em sua última reunião de política monetária, o Fed surpreendeu os investidores com uma mensagem bem mais “dovish”, jargão financeiro em inglês para caracterizar uma política monetária mais suave, do que o mercado estava esperando. Que informações o Fed tem sobre a verdadeira situação da economia americana que o mercado ainda não dispõe?

O Fed revisou sua estimativa para a trajetória dos juros em 2019 de duas para nenhuma alta da taxa e também alterou a previsão para 2020, de duas elevações dos juros para apenas uma.

Além disso, o BC americano antecipou o fim da redução do seu balanço de ativos para setembro deste ano, o que, na prática, resultará em um enxugamento muito menor do que previsto originalmente da liquidez injetada para estimular a economia americana desde a crise financeira mundial de 2008.

Mas a deterioração rápida das condições econômicas globais, em particular na China e na zona do euro, e mais recentemente nos Estados Unidos, levou os investidores a se indagarem agora se o BC americano não estaria atrás da curva, isto é, se a desaceleração econômica é inevitável e o Fed terá de adotar medidas mais enérgicas do que sinalizou para evitar o pior.

Os contratos futuros de juros embutem atualmente 80% de probabilidade de um corte de juros de 0,25 ponto porcentual neste ano e dois outros cortes (num total de 0,50 ponto) em 2020. Mas há quem tenha uma aposta mais agressiva.

A consultoria inglesa Capital Economics, por exemplo, considera que a recente sinalização “dovish” do Fed para a trajetória dos juros não será suficiente para evitar que o crescimento econômico dos EUA neste ano caia abaixo do seu nível potencial. Assim, a Capital Economics prevê que o Fed será forçado a reduzir os juros em 0,75 ponto em 2020, ou seja, cortará mais agressivamente do que o mercado futuro está prevendo atualmente.

Já o banco holandês ING estima que a economia americana crescerá 2,0% neste ano e 1,8% em 2020, o que é pouco, porém longe de uma recessão. Nesse cenário, os analistas do ING preveem que a inversão da curva de juros será revertida em algum momento. Uma prolongada inversão da curva de juros poderia prejudicar o mercado de crédito mais adiante.

Todavia, a recente postura mais estimulativa do Fed para a política monetária levará algum tempo até ter efeito na economia. O mais provável é que os indicadores de atividade seguirão fracos neste primeiro semestre, o que poderá causar volatilidade nos preços dos ativos e nervosismo nos investidores globais. De qualquer forma, uma política monetária relaxada nos EUA é geralmente um fator positivo para os mercados e a economia global, em especial para os países emergentes, desde que não haja um ambiente de recessão.

*COLUNISTA DO BROADCAST

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