Atrasos frustram demanda por seguros de grandes riscos

Expectativa com eventos esportivos, PAC e pré-sal não se concretizaram e setor teve volume menor de prêmios

ALINE BRONZATI, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 23h59

O atraso no cronograma das principais obras de infraestrutura do País decepcionou a demanda por seguros de grandes riscos ao longo de 2012. Atraídas pelos grandes contratos, as seguradoras que vislumbraram nos projetos dos jogos mundiais, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do pré-sal uma fonte alavancadora de negócios tiveram de se contentar com um volume menor de prêmios disputado em um cenário bastante competitivo que pressionou para baixo as taxas praticadas no setor.

O seguro garantia, considerado um dos ramos com o futuro mais promissor no âmbito das grandes obras por garantir que elas sejam concluídas conforme previsto no contrato, amargou queda de 7,51% nos prêmios emitidos de janeiro a setembro, para R$ 565,178 milhões, segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep). No caso das apólices de riscos de engenharia, que oferecem proteção para incêndio e erros de execução, entre outros problemas que podem ocorrer durante a construção, a queda acumulada neste ano é ainda maior. Foram R$ 468 milhões em prêmios, declínio de quase 15%.

"O atraso nas obras do PAC e também nos projetos da Copa fez com que a expectativa de negócios para o mercado de seguros em 2012 não acontecesse. Isso provocou uma dilatação no prazo do fechamento dos negócios", avalia Renato Rodrigues, diretor de riscos especiais da Liberty Seguros.

Além de frustrar a demanda de seguros, a demora dos projetos também já começa a preocupar o mercado, segundo o executivo, em relação a um possível aumento da sinistralidade. Isso porque, embora parte das obras tenha data para serem concluídas, a pressa no andamento do projeto para a conclusão dentro do prazo estabelecido pode resultar em falhas na execução das obras e um maior volume de sinistros no médio e longo prazos.

A SulAmérica, por exemplo, reduziu o seu apetite pelo setor de grandes riscos depois de duas apólices bilionárias, uma da hidrelétrica de Jirau e outra de um terminal portuário da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), terem resultado em brigas judiciais. "As seguradoras têm de estar atentas à qualidade da informação. Assumir grandes riscos também significa pagar sinistros de grande monta", lembra Eduardo Takahashi, diretor de risk management da corretora Marsh Brasil.

Cenário. Mas, mesmo com as expectativas frustradas, as seguradoras seguem otimistas em relação ao ano de 2013. A razão é que, com os atrasos na agenda dos projetos, ainda há pela frente um grande volume de obras para saírem do papel, não só no próximo exercício, mas também ao longo dos demais anos.

Dentre as áreas mais promissoras para o mercado de seguros em 2013, de acordo com executivos do setor ouvidos pelo Estado, estão rodovias, portos, aeroportos, telecomunicações com a implantação comercial da tecnologia 4G, energia, petróleo, além da indústria pesada que reúne os investimentos em papel e celulose, siderurgia, mineração e outras. Só a primeira fase do Programa de Investimentos em Logística prevê investimentos de R$ 133 bilhões em rodovias e ferrovias que a partir do ano que vem vão fomentar a infraestrutura do País. Há também expectativas quanto às medidas para concessão de portos previstas para serem anunciadas em breve, e que devem superar os R$ 70 bilhões nos próximos anos.

Diante disso, algumas seguradoras já estão sentindo uma maior demanda no número de consultas para 2013. Segundo Edson Toguchi, superintendente de grandes riscos da Allianz Seguros, a procura de construtoras e empreiteiras por apólices de grandes riscos tem crescido na esteira dos projetos previstos. Para atender à demanda, a seguradora prepara até mesmo novos produtos e coberturas de seguros voltados especialmente para os projetos de infraestrutura. Sem dar mais detalhes, ele adianta que as novidades serão lançadas em 2013.

Já a Liberty Seguros foi buscar a expertise da seguradora norueguesa Norwegian Hull Club (NHC). Ambas firmaram recentemente uma parceria cujo objetivo é ofertar apólices para o segmento de embarcações especializadas no atendimento à indústria de petróleo da costa brasileira. "Os negócios neste segmento são muito grandes, com apólices de US$ 300 milhões de valores em risco", justifica Rodrigues, da Liberty.

Apetite estrangeiro. Interessadas em abocanhar uma fatia dos seguros de grandes riscos, mais seguradoras e resseguradoras devem continuar desembarcando no Brasil. Argo Brasil, Essor Seguros, a francesa Axa, a americana Starr Companies e também a britânica Torus Insurance integram a lista de companhias que estão de olho nesse mercado. Isso porque, além dos grandes riscos envolvidos nas obras de infraestrutura, os projetos também devem impulsionar, segundo executivos do mercado, o segmento corporativo, com demanda para seguros de vida e acidentes pessoais.

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