Werther Santana/Estadão
Desde o ano passado há rumores de que a empresa deixaria de produzir automóveis no País. Werther Santana/Estadão

Audi pode deixar de produzir carros no Brasil se governo não pagar dívida

Montadora deixará de fabricar em dezembro o A3 e ficará com a produção parada por um ano para avaliação de novos projetos; retomada dependerá do acerto de débito referente ao Inovar-Auto

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 17h18
Atualizado 24 de setembro de 2020 | 22h27

O presidente da Audi do Brasil, Johannes Roscheck, disse nesta quinta-feira, 24, que a empresa vai deixar de produzir o sedã A3 no País em dezembro e suspenderá toda a produção local por cerca de um ano para avaliar investimentos em um novo modelo. A retomada de fabricação local, no entanto, depende de o governo federal acertar o pagamento de uma dívida pendente em créditos tributários desde o programa Inovar-Auto, criado em 2012 e encerrado em 2017.

Segundo o executivo, serão necessários novos investimentos e remodelação da linha produtiva para a produção de um novo veículo. “Assinamos um compromisso de pagar e receber de volta e é difícil convencer a matriz alemã a investir num mercado que não é responsável em cumprir compromissos”, afirmou. Hoje o A3 é o único modelo da marca com produção local e essa versão sairá de linha.

Desde o ano passado há boatos de que a empresa deixaria de produzir automóveis no País porque os investimentos para fabricar as novas versões de A3 e Q3 seriam elevados. O Q3 nacional saiu de linha no início de 2019 e passou a ser importado e o mesmo vai ocorrer com o A3.

Roscheck, porém, afirma que “estamos preparados para lutar por um novo projeto” – provavelmente o SUV Q3 –, mas vai depender das discussões sobre essa pendência.

Segundo a Audi, o ministro da Economia, Paulo Guedes afirmou, há cerca de um ano, que aceitaria pagar a dívida ao longo de dez anos mas não voltou a falar sobre o tema. “Mesmo que o pagamento seja feito no longo prazo nós aceitamos, mas precisamos de uma decisão”, diz Roscheck. Procurado, o Ministério da Economia não comentou.

Segundo ele, ainda que ocorra um acerto, a empresa terá de manter a fábrica parada por pelo menos um ano para definição e adequações a um novo modelo.

Super IPI

O saldo remanescente é de R$ 290,7 milhões divididos entre as três fabricantes alemãs de carros de luxo Audi, BMW e Mercedes-Benz. Quando foi criado, o Inovar-Auto estabeleceu alta de 30 pontos porcentuais no Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para carros importados para estimular a produção local.

Um dos pontos do programa previa a devolução desse imposto extra pagos nos modelos importados de empresas que anunciassem projetos de produção local. O valor seria compensado a partir do momento em que a fábrica começasse a operar.

Quando o Rota 2030, programa que substituiu o Inovar-Auto foi sancionado, no fim de 2018, a questão da dívida não foi citada no texto. O então presidente Michel Temer enviou para o Congresso o Projeto de Lei 10.590 estabelecendo o pagamento num prazo de cinco anos. O PL está parado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)

Gleide Souza, diretora de Assuntos Corporativos da BMW, afirmou que é preciso criar um mecanismo para liberar o crédito que está parado e a aprovação do PL é uma alternativa. Essa pendência, segundo ela, cria insegurança entre as empresas e pode inviabilizar novos projetos, embora não seja o caso da marca no momento. A Mercedes-Benz informou que “tem valor substancialmente a receber e está acompanhando o tema.” 

As três fabricantes investiram R$ 1,7 bilhão para iniciar operações no País. A BMW construiu fábrica em Araquari (SC), a Mercedes em Iracemápolis (SP) e a Audi voltou a dividir instalações com a coligada Volkswagen em São José dos Pinhais (PR) em 2015, onde já tinha produzido o A3 de 1999 a 2006.

Junto com a Jaguar Land Rover, as quatro empresas do segmento premium têm capacidade produtiva de mais de 100 mil veículos ao ano, mas nunca chegaram nem à metade desse volume em razão, segundo alegam, das sucessivas crises econômicas.

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Montadora lança programa de carro por assinatura por R$ 9,6 mil

Pandemia afetou todos os segmentos de veículos, mas queda de vendas dos modelos premium foi menor; inciativa da Audi será feita apenas em São Paulo e vai disponibilizar 20 modelos

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2020 | 22h24

A queda no mercado brasileiro de veículos em razão da crise provocada pela pandemia do coronavírus atingiu de forma diferente os segmentos de mercado. Enquanto as vendas de modelos de massa, ou de alto volume, registram queda acima de 30%, as de modelos premium, ou de luxo, apresentam recuo abaixo de 20%, informa Johannes Roscheck, presidente da Audi do Brasil.

Os modelos premium representam cerca de 2% das vendas totais do mercado e, no ano passado, somaram 50 mil unidades.

A empresa anunciou nesta quinta-feira, 24, um projeto piloto de carro por assinatura, inédito no segmento de veículos premium e visto como uma das soluções para o futuro da mobilidade.

Chamado Audi Luxury Signature, ele permite que o cliente, ao invés de comprar um modelo da marca, faça assinatura de um serviço pelo qual terá direito a rodar até 2 mil km por mês. A mensalidade varia de R$ 9,6 mil a R$ 13,3 mil, dependendo do carro escolhido, e inclui seguro, IPVA, licenciamento, assistência 24 horas, manutenção preventiva e tem a blindagem como opção.

Para esse programa piloto que será feito apenas em São Paulo, a Audi vai disponibilizar 20 modelos A6, A7 Sportback, Q8 e Audi e-tron, primeiro carro 100% elétrico da marca e grande aposta para o mercado brasileiro. Todos custam acima de R$ 400 mil. O plano tem duração de dois anos e, após o prazo, o consumidor pode comprar o veículo ou substituir a assinatura por outro modelo.

“Já temos 35 interessados”, informa Roscheck, a maioria de grandes empresas. Segundo ele, nesta fase de teste a empresa não pretende ampliar o número de modelos disponíveis para o programa. “Precisamos acompanhar os clientes e entender suas necessidades e, se der certo, ampliar no futuro.” 

Ele ressaltou que a indústria da mobilidade passa por uma revolução intensa e o avanço da tecnologia permite explorar novos modelos de negócios. “Mais do que ser a primeira montadora a oferecer esta modalidade, nosso objetivo é deixar que o cliente decida se quer adquirir ou usufruir os modelos Audi, de acordo com sua realidade”.

A Audi projeta para este ano vendas similares às de 2019. De janeiro a agosto a marca vendeu 3.917 veículos, 5,4% a mais que no ano passado, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).

Roscheck disse que este ano tem sido muito importante para a marca, com vários lançamentos, em especial o do elétrico e-tron. Desde abril, foram vendidos 111 unidades do SUV que custa R$ 512 mil e tem autonomia de quase 450 quilômetros com carga total na bateria.

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