Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Auditoria aponta ação política na Caixa

Investigação contratada pelo banco encontrou casos de influência em quatro vice-presidências; estatal diz que há erro de interpretação

Fabio Serapião, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2018 | 05h00

BRASÍLIA – Investigação independente contratada pela Caixa detectou casos de influência política no banco em ao menos quatro vice-presidências. O documento foi produzido pelo escritório Pinheiro Neto e será anexado aos processos relacionados ao banco para reforçar as denúncias contra políticos e ex-funcionários que atuariam em favor de grandes empresas.

Nesta segunda-feira, 15, Procuradoria da República do Distrito Federal entregou à 10.ª Vara Federal em Brasília as alegações finais no processo sobre desvios na vice-presidência de Fundos de Governo e Loterias, responsável pelo fundo de investimento do FGTS (FI-FGTS). O caso teve origem na Operação Sépsis, que prendeu o corretor Lúcio Bolonha Funaro, apontado como operador do ex-deputado Eduardo Cunha e do PMDB da Câmara.

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O documento produzido pelo Pinheiro Neto é o mesmo cujo conteúdo embasou a recomendação do MPF para que a Caixa substitua os seus 12 vice-presidentes e contrate uma empresa de recrutamento para selecionar os executivos do banco.

A solicitação foi encaminhada ao banco e ao ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, em dezembro de 2017. Em resposta, a Caixa negou a troca de executivos e afirmou ter um “sistema de governança adequado à Lei das Estatais, fazendo com que a maior parte das recomendações já estejam implementadas, em implementação ou em processo de estudo pelas suas instâncias decisórias, antes mesmo de qualquer manifestação do MPF”.

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A Caixa é alvo das operações Sépsis, que apura desvios no FI-FGTS; Cui Bono?, sobre desvios em liberações de créditos a grandes empresas; e Patmos, que investiga desvios praticados por Geddel Vieira Lima e Fábio Cleto, ex-vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias. Personagens políticos como Cunha e o ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves (PMDB) estão presos por causa dessas operações.

No documento encaminhado à Caixa, os procuradores apontaram supostas irregularidades que teriam sido mapeadas pela investigação do Pinheiro Neto contra ao menos quatro vice-presidentes do banco: vazamento de informações privilegiadas para políticos sobre andamento de pedidos de empréstimos, negociação de cargo em estatal como moeda de troca para liberação de crédito e pedidos para atender a “demandas” de políticos como garantia para a manutenção da vaga de vice-presidente.

Em dezembro de 2016, o Estado mostrou que 11 dos atuais 12 vice-presidentes foram indicados por sete partidos: PMDB, PSDB, DEM, PR, PRB, PP e PSB. Ainda na interinidade, Temer anunciou que barraria o aparelhamento político nas estatais e fundos de pensão. Ele suspendeu as nomeações com o argumento de que só seria nomeado “pessoal com alta qualificação técnica”.

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Outro lado. Por meio da assessoria de imprensa, a Caixa informou que “não concorda com as interpretações que vem sendo dadas às conclusões do relatório do Escritório Pinheiro Neto, elaborado a pedido da própria Caixa. Tais interpretações vem gerando percepções equivocadas em relação ao banco e alguns dirigentes”. O ministro Moreira Franco e o ex-ministro Marcos Pereira negaram que tenham influência na Caixa. As defesas do ex-deputado Cunha e do ex-ministro Geddel não responderam aos pedidos de posicionamento da reportagem.

+ Indicações.

Presidente: Gilberto Occhi (PP); VPs: Clientes, Negócios e Transf. Digital: José Henrique Marques da Cruz (PP); Tec. da Informação: José Antônio Eirado Neto (PSB); Fundos de Governo e Loterias: Deusdina dos Reis Pereira (PR); Gestão de Pessoas: Marcos Fernando F. dos Santos Jacinto (PMDB); Varejo: Fábio Lenza (PMDB); Corporativo: Antônio Carlos Ferreira (PRB); Governo: Roberto Derziê de Sant’Anna (PMDB); Habitação: Nelson Antônio de Souza (PP); Logística: Marcelo C. Prata (PMDB); Riscos: Paulo Henrique A. Souza (DEM); Finanças e Controladoria: Arno Meyer (PSDB); Admin. e Gestão de Ativos de Terceiros: Flávio Eduardo Arakaki (nome técnico)

+ Antônio Carlos Ferreira

Disse que o ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, o procurou para colocar três condições para sua manutenção no cargo: demitir Hermínio Basso, prestar contas sobre sua atuação e informar a ele todas as operações do banco acima de R$ 50 milhões

+ Deusdina dos Reis Pereira

Em e-mails trocados com Mauro Lemos e Carlos Eduardo Bastos Nonô, negociou sua nomeação para cargo no conselho de administração da Cemig “mediante insinuação” de trocas de interesses em operação da companhia no banco

+ José Henrique Marques da Cruz

Relatório interno apontou relações com Geddel Vieira Lima e Cunha, que tinham interesse sobre operações Marfrig/Seara e J&F. Eles esperavam sinalização de pagamento da J&F em razão de operação do conglomerado

+ Roberto Derziê de Sant’Anna

Troca de mensagem de Cunha e Geddel apontam Derziê como intermediador de interesses de Henrique Constantino na Caixa. Joesley Batista afirma conhecer que ele está envolvido em “recebimento de pagamentos indevidos”

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