Aumenta embate entre governo argentino e ruralistas

Fracasso de reunião alimentou temores em torno de conflito responsável por atirar governo em crise política

Nicolás Misculin, da Reuters,

23 de maio de 2008 | 12h30

A atual disputa entre o governo e os ruralistas argentinos, que no fim de semana devem medir forças por meio da realização de manifestações de rua, intensificou-se nesta sexta-feira, 23, quando os dois lados culparam um ao outro pelo fracasso de uma reunião convocada para negociar o controverso imposto de exportação. O encontro de quinta, 22, era aguardado com ansiedade, depois do locaute de quase duas semanas realizado por produtores rurais em maio. No entanto, o fracasso da reunião acabou por alimentar os temores em torno de um já arrastado conflito responsável por atirar o governo em uma crise política. Enquanto as quatro entidades ruralistas do país esperavam escutar propostas concretas, o governo disse que apenas na próxima semana começará a conversar sobre os impostos de exportação, cujo surgimento provocou a disputa que ameaça paralisar as exportações argentinas de produtos agrícolas. "Aceitamos interromper a paralisação para termos esse diálogo. Conseguimos conter a nossa gente durante esses dias. Ou seja, toda essa irritação (devido à falta de um acordo) é gratuita e unilateral", afirmou à Rádio Continental Hugo Biolcati, vice-presidente da Sociedade Rural Argentina. O governo planeja regressar à mesa de negociação só depois do protesto convocado pelas entidades ruralistas para domingo, na cidade de Rosário, no centro agrícola do país. Essa pode se transformar em uma das maiores manifestações já ocorridas contra o atual governo. Os ruralistas reclamam das mudanças feitas no sistema de cobrança de impostos sobre a exportação de grãos, chamadas de retenções. A alteração, adotada em março, significou na prática um aumento do imposto cobrado sobre a soja, o principal grão produzido na Argentina. "O que o governo mostrou ontem (quinta-feira) é uma vocação para corrigir, e isso é o fundamental. Nada se resolve da noite para o dia", afirmou à Rádio Mitre Aníbal Fernández, ministro da Justiça. Fernández, porém, confirmou que as "retenções flutuantes não serão tocadas." O conflito atingirá no próximo domingo seu ponto máximo de ebulição. Nesse dia, além do protesto convocado pelos ruralistas, ocorrerá no norte da Argentina uma manifestação convocada pelo governo. "Acredito que isso (a mobilização) contará com um grande número de pessoas e com uma mensagem que não terá relação apenas com um setor, o da política agropecuária, mas também com o país em que desejamos viver", afirmou Eduardo Bizzi, presidente da Federação Agrária Argentina. O embate já provocou a renúncia do agora ex-ministro da Economia Martín Lousteau e resultou em uma forte queda nos índices de popularidade da presidente do país, Cristina Fernández. Ao mesmo tempo, várias pesquisas mostram que a sociedade argentina de um modo geral está cansada diante da falta de um acordo capaz de solucionar a crise.

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