Aumenta interesse do Brasil pelas empresas argentinas

A possibilidade de conquista de uma participação de mercado nada desprezível e a queda significativa dos preços de ativos estão levando companhias brasileiras buscar novas oportunidades de negócios na Argentina, apesar de o país estar enfrentando a maior crise econômica, financeira e política de sua história. De acordo com a Ernst & Young, o número de consultas e estudos de viabilidade de aquisição de empresas argentinas por parte de grupos brasileiros triplicou nos últimos três meses. Entre dezembro do ano passado e janeiro deste, por exemplo, o valor de mercado, em dólares, das empresas argentinas, cujos papéis são negociados na Bolsa de Buenos Aires, caiu de US$ 59 bilhões para US$ 16,1 bilhões.Carlos Alberto Miranda, sócio da Ernst & Young, diz, no entanto, que as companhias brasileiras não podem apenas visar o preço dos ativos, que despencaram com a desvalorização do peso. "Há uma série de componentes que precisam ser observados, como a taxa de risco país, os fundamentos macroeconômicos e a questão jurídica", alerta Miranda. O diretor da Ernst & Young comenta, entretanto, que alguns setores, como varejo e consumo, além do imobiliário, estão oferecendo hoje boas oportunidades de negócios na Argentina porque estão entre as mais sensíveis a uma rápida recuperação.Miranda acredita também que, apesar do rápido empobrecimento, a classe média argentina passou a ser uma parcela importante da população potencialmente a ser explorada no futuro. "Os excluídos, em determinado momento, voltarão a consumir. Aí é quando valoriza o ativo de uma empresa de determinado setor", explica Miranda.De acordo com dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), cerca de 18 milhões de pessoas recebem hoje recursos insuficientes para pagar uma cesta básica de alimentos e serviços. O Indec, o IBGE argentino, coloca nessa situação famílias que vivem com menos de 598 pesos (US$ 187 pelo câmbio de sexta-feira) por mês. Até dois anos atrás, a maioria desses 18 milhões de argentino fazia parte da classe média do país, a que mais consumia. "Na Rússia ocorreu fenômeno semelhante. Por isso, vejo uma boa oportunidade de conquistar um mercado potencial que deverá se recuperar a médio e longo prazos", diz Miranda.Processo InversoO economista Rafael Ber, sócio diretor da Argentine Research, acredita também que a desvalorização do peso intensificou o interesse de companhias brasileiras sobre empresas argentinas. "Está começando a ocorrer o processo inverso do que foi verificado logo depois da desvalorização do real, em janeiro de 99", afirma Ber. "Embora seja difícil mensurar esse interesse por causa do sigilo dos processo e estratégia de cada companhia, as empresas argentinas mais visadas são as que estão ligadas ao setor exportador, principalmente as que têm alguma parcela de mercado no Brasil e outros países do Mercosul."Para o presidente do Grupo Brasil, Elói Rodrigues de Almeida, a desvalorização do peso deixará a Argentina em situação altamente competitiva, razão pela qual é importante levar em conta que alguns setores, como o de exportação, precisam ser observados com muita atenção. "Se não for o Brasil (empresas), certamente será de outro país, que acabará competindo dentro do mercado brasileiro", alerta Rodrigues de Almeida.Embora alerte sobre os cuidados que as companhias brasileiras precisam ter neste momento, o presidente do grupo Brasil acredita que é o momento para adquirir ou se associar a alguma empresa argentina, principalmente às dos setores de alimentos e autopeças, além de couro e têxteis. "O mercado argentino, que se encontra retraído por causa de quatro anos de recessão consecutivos, pode se recuperar rapidamente com o câmbio favorável", diz Rodrigues de Almeida.De acordo com o índice Big Mac, utilizado mundialmente para saber a valorização do câmbio em cada país, a Argentina passou a ser um dos países mais baratos do mundo em apenas quatro meses. Em dezembro do ano passado, por exemplo, o preço do Big Mac era de 2,50 pesos, ou 2,50 dólares (R$ 6,20 pelo câmbio comercial de hoje), por causa da conversibilidade. Na semana passada, o preço desse sanduíche na Argentina havia caído para apenas US$ 0,78 (R$ 1,90), passando a ser o mais barato do mundo.O presidente do Grupo Brasil afirma, no entanto, que as companhias brasileiras interessadas em investir na Argentina precisam analisar cuidadosamente as questões políticas e jurídicas do país antes de empreender qualquer decisão de investimento. "É bom observar a situação de cada empresa, principalmente no que se refere ao endividamento", alerta o empresário brasileiro.

Agencia Estado,

13 de maio de 2002 | 12h05

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