‘Aumentar a oferta é a palavra chave do turismo’

Ministro reconhece que viajar no Brasil é muito caro e diz o que o governo pretende fazer para melhorar a situação

Entrevista com

JOÃO VILLAVERDE, IURI DANTAS / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2013 | 02h05

Dez anos depois de sua criação e R$ 11 bilhões investidos no período, o Ministério do Turismo ainda tem diante de si um sério obstáculo para tornar a atividade turística uma das molas propulsoras do crescimento econômico: o Brasil é um país caro. De acordo com o ministro Gastão Vieira, a principal meta do governo federal deve ser baratear hotéis e passagens aéreas, por meio de maior competição entre empresas, de forma a permitir que toda a infraestrutura criada para dar conta dos grandes eventos não fique ociosa.

Ainda em estudo no ministério também está a possibilidade de devolver ao turista estrangeiro parte dos impostos que ele pagou aqui. "Precisamos trazer mais estrangeiros, especialmente aqueles dos Brics (grupo que reúne, além do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e tornar o turismo mais acessível aos brasileiros", disse o ministro, em entrevista ao Estado. Segundo dados do ministério, apenas um em cada quatro brasileiros faz viagens de turismo.

À frente do Plano Nacional do Turismo (PNT 2013-2016), lançado na semana passada e antecipado pelo Estado, Vieira espera ampliar em 28% a entrada de turistas estrangeiros no Brasil, dos cerca de 5,7 milhões por ano a 7,9 milhões em 2016. Com isso, o governo pretende levar a US$ 10,8 bilhões as receitas com esses visitantes. Além disso, o governo Dilma Rousseff quer aumentar de 190 milhões para 250 milhões as viagens de turismo em 2016.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

O Brasil está na iminência de receber os grandes eventos para os quais está se preparando há anos. O País está pronto?

Poucos países no mundo sediaram tantos eventos em tão pouco tempo. A partir de agora, vamos receber a Copa das Confederações, a Jornada Mundial da Juventude Católica, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Se tudo der certo, vamos receber também a Expo Mundial em São Paulo, no fim desta década. O nosso grande desafio está em manter todo esse investimento que fazemos para o período após os grandes eventos. Em dez anos de ministério, investimos R$ 11 bilhões em mais de 3 mil municípios, ao todo. Precisamos agora aumentar o turismo de brasileiros e estrangeiros no Brasil. Os brasileiros estão viajando mais, mas não estão fazendo turismo.

Por quê?

Porque é caro, é muito caro viajar no Brasil. Nós temos diárias de hotel caras. Recentemente, por exemplo, a Fifa abriu a venda de ingressos para a Copa do Mundo, e já vi diária de hotel aqui em Brasília de R$ 1,5 mil. As passagens de avião para quem faz planejamento tem preços razoáveis, mas quem precisa comprar em cima da hora paga preços completamente fora da realidade. Ainda é caro fazer turismo no Brasil. De outro lado, o brasileiro está viajando muito ao exterior. Os brasileiros estão em todos os lugares, menos aqui no País. Só um em cada 4 brasileiros viaja pelo País. Aumentar a oferta é a palavra chave, tanto para diária de hotel quanto para passagem aérea.

Mas é caro também para os estrangeiros, não?

Sem dúvida. Precisamos reduzir os preços internos, e também modernizar a promoção do Brasil no exterior. Precisamos ir atrás dos turistas que mais gastam no mundo, como russos e chineses, por exemplo. Precisamos diversificar nossa oferta, para não ser concentrada apenas em sol e praia. Os chineses, por exemplo, visitam muito Foz do Iguaçu. Por isso precisamos desenvolver parques nacionais, mas também parques temáticos e centros de exposição para atrair o turista de negócios. Mas a redução de custos é central.

Como o governo pode fazer isso?

Em parte já tem feito, basta ver que os hotéis e resorts estão entre os setores beneficiados com a desoneração da folha de pagamentos. No caso de resorts, o número de hóspedes aumentou. Vamos tentar, agora, devolver ao turista estrangeiro uma parte dos gastos dele com serviços no Brasil. A partir da base de dados do Siscoserv, que registra todos os gastos com serviços feitos por estrangeiros e brasileiros, e a nota fiscal que passará a discriminar todos os impostos, podemos abater algumas despesas dos estrangeiros com hotel e restaurante, e assim tornar o turismo mais barato. Vou fechar uma proposta e apresentar ao ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, para desenharmos um projeto de governo.

Mas o empresário brasileiro do turismo está preparado para esse cenário de maior competitividade desejado pelo governo federal?

Há ainda segmentos bem antigos, muito resistentes a mudanças. Estamos tentando desde o ano passado a classificação dos meios de hospedagem, com a definição de critérios claros para condecorar os hotéis, resorts, pousadas, albergues e outros com até cinco estrelas. Mas enfrentamos muita resistência dos empresários, a adesão dos hotéis tem sido muito baixa. Vamos fazer uma reunião com o setor para compreender as dificuldades e tentar contornar. O sistema de turismo vai passar por um processo semelhante ao ensino superior privado.

Como assim?

Há dez anos, já sabíamos que as instituições privadas de ensino superior empregavam muito, e aos poucos estavam permitindo a entrada de sócios estrangeiros, por meio da chegada de fundos de investimentos internacionais. Depois, nos últimos anos, algumas instituições foram aumentando, adquirindo pequenas universidades e, de repente, surge no Brasil a maior instituição do mundo. O caminho do turismo deve ser muito parecido.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.