Fátima Meira/Estadão
Banco Central considera que, para fazer frente a perdas de crédito em um cenário “catastrófico”, provisões poderiam chegar a quase R$ 400 bi Fátima Meira/Estadão

Aumento na inadimplência de empresas preocupa bancos e entra no radar do BC

Os quatro maiores bancos do País reservaram R$ 28 bilhões para bancar possíveis calotes por causa da crise causada pela pandemia; valor supera em R$ 10 bilhões as provisões feitas no primeiro trimestre de 2019

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 05h00

O aumento da inadimplência das empresas por causa da crise do coronavírus já entrou no radar do sistema financeiro. Na divulgação dos balanços do primeiro trimestre, os quatro maiores bancos do País (Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil) destinaram R$ 28 bilhões para bancar possíveis calotes de empréstimos concedidos no passado – R$ 10 bilhões a mais que em igual período de 2019. O valor foi mais que o dobro do lucro líquido de R$ 13,7 bilhões apurado no período, segundo a Economatica.

Um teste de estresse feito pelo Banco Central (BC) para avaliar a capacidade do sistema financeiro diante da pandemia considera que, para fazer frente a perdas de crédito em um cenário mais “catastrófico”, as provisões poderiam chegar a quase R$ 400 bilhões. O resultado faz parte de um relatório feito periodicamente pelo BC e, desta vez, trouxe a estimativa do aumento da inadimplência das empresas por causa da covid-19

O calote projetado viria de um conjunto de empresas consideradas mais vulneráveis e que respondem por 29% da dívida de pessoas jurídicas – ou seja, juntas elas devem R$ 893 bilhões. Em nota, o BC reforçou que se trata de uma projeção para um cenário severo e que o pior resultado do sistema até hoje foi em 2016, quando os bancos tiveram de fazer provisões de R$ 81,4 bilhões. “O exercício é um choque que simula a perda de todas as operações num único momento. Na prática, isso ocorreria ao longo do tempo”, diz o BC, ressaltando que o sistema financeiro tem capacidade para enfrentar a crise, mas exigiria aporte de recursos.

Procurados para falar sobre essas perspectivas, os bancos não se pronunciaram. Na divulgação dos balanços, no entanto, a maioria falou sobre a necessidade de elevar as provisões. O Bradesco destacou que, a partir da segunda quinzena de março, o agravamento da crise da covid-19 colocou pressão adicional sobre os índices de inadimplência e entende que a situação deverá se agravar nos trimestres subsequentes. O Itaú afirmou que é fundamental “manter um balanço forte e é com este objetivo que incrementou o nível de provisões”.

No mercado, economistas destacam que os números de inadimplência vão começar a piorar a partir de agora. Até meados do mês passado, os cartórios estavam fechados e, portanto, sem protesto de títulos. Mesmo assim, no primeiro trimestre do ano, ainda com efeito limitado da crise, algumas linhas de crédito já vinham registrando alta, segundo dados do BC. Na modalidade de capital de giro, com prazo de até um ano, a taxa de inadimplência avançou 1,4 ponto porcentual; cartão de crédito, 0,4 ponto; e desconto de duplicata, 0,3 ponto.

Segundo Flávio Calife, economista da Boa Vista, esse avanço no está associado à alta do crédito em 2019, quando havia expectativa de retomada de emprego e renda. O cenário mudou bastante e os números vão piorar, já que a atividade econômica está parada, destaca ele. 

Explosão de calote. O histórico das últimas crises dá uma noção do que pode vir pela frente. Em 2008 e entre 2014 e 2016, a inadimplência subiu 50% a 60%. Na primeira, provocada pelo subprime americano, a alta foi rápida e alcançou o topo em um ano. Já na retração econômica, que coincidiu com a Operação Lava Jato, a escalada levou dois anos, explica a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Para a entidade, o mais provável é que, na crise atual, o movimento siga um padrão mais parecido com o de 2008. 

Ou seja, haveria uma explosão de calote no curto prazo, apesar da decisão dos bancos de renegociarem crédito e darem carência de 60 a 180 dias para pagamento de algumas parcelas. Segundo dados da Febraban, entre pessoas físicas e jurídicas, os bancos prorrogaram o pagamento de parcelas no valor de R$ 40 bilhões desde o início da pandemia. “Esse montante, se não tivesse sido postergado, já estaria compondo o índice de inadimplência”, afirma Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin Rating.

Segundo VanDyck Silveira, presidente da Trevisan, a eficácia da iniciativa está relacionada ao prazo de fechamento da economia. “Se perdurar muito, a carência dada pelos bancos vai terminar, as empresas vão continuar sem caixa e inadimplentes.” Para ele, neste momento todas as empresas estão preservando caixa. “Já reduziram despesas, jornada de trabalho e salários. Agora, vão começar a parar de pagar fornecedores, o que gera um efeito em cadeia.”

Uma pesquisa feita pela Corporate Consulting, que trabalha com reestruturação de companhias, mostra que, neste momento, há um volume de R$ 93 bilhões de crédito que não cabe na conta das empresas. Desse total, 60% devem terminar em recuperação judicial. “O resto vai virar calote ou vai passar por um processo de alongamento do passivo”, diz o economista e presidente da consultoria, Luis Alberto de Paiva.

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Calote em alta pode dificultar a retomada econômica

Empresas endividadas terão dificuldades em obter crédito para investimentos, que estará mais restrito

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 05h00

Uma das preocupações com o aumento da inadimplência é o reflexo na retomada econômica no pós-pandemia. Com as empresas endividadas, sem dinheiro em caixa e sem crédito, a recuperação será mais difícil. A tendência é que, diante do aumento de calotes, os bancos elevem ainda mais as restrições para a concessão de novos empréstimos e isso vai dificultar a volta dos investimentos.

Relatório do Banco Central (BC), com o teste de estresse da pandemia, traz esse alerta. Com o aumento das provisões, a capacidade das instituições financeiras para conceder “novos créditos e sustentar o crescimento da economia ficaria temporariamente comprometida”. Segundo a autoridade monetária, considerando a rentabilidade em períodos de crises anteriores, seriam necessários três anos para o sistema recompor sua atual capacidade.

“Sem perspectiva de melhora no mercado de trabalho e com empresas com caixa debilitado, a retomada econômica vai ser mais demorada”, afirma Rodolpho Tobler, economista da FGV/Ibre. Segundo ele, hoje há uma população grande com renda baixa ou sem rendimentos. Isso vai criar uma bola de neve, elevar o calote entre as pessoas físicas e bater nas empresas, que também ficarão inadimplentes.

Para Tobler, ao contrário de outras crises, o coronavírus pegou a economia ainda com dificuldades para acelerar o crescimento e com alto índice de desemprego. “O cenário que antecedeu as crises de 2008 e 2014 era melhor. Desta vez, os indicadores já estavam ruins.”

Na avaliação de economistas, a saída da crise é uma incógnita. Ninguém sabe quanto tempo vai demorar para voltar aos níveis pré-pandemia. Em alguns setores, a dúvida é ainda mais latente, como as áreas de entretenimento e restaurantes, por causa do comportamento da população ao fim do isolamento.

Nesse cenário, os investimentos vão desabar, com capacidade ociosa alta e falta de crédito. “Hoje não podemos contar com o investimento externo. O impulso teria de vir do governo, de obras públicas”, diz o presidente da Corporate Consulting, Luis Alberto de Paiva. Ele reconhece, no entanto, as limitações do governo de se autofinanciar. Antes de a pandemia afetar o País, o governo vinha num esforço para reduzir gastos. Isso teve de ser abandonado para aliviar a perda de renda no mercado.

Proposta. Um grupo formado pelos economistas José Roberto Afonso, Geraldo Biasoto Jr. e Murilo Ferreira Viana e pelo engenheiro Paulo Vales propõe um programa de proteção econômica para evitar uma depressão. Segundo Afonso, o objetivo é evitar a desorganização de produção, comércio e transportes. “Sem saber ao certo até onde vai a quarentena, é preciso dar oxigênio para empresas se manterem nesse período. Isso significa pagarem o mínimo essencial, que sejam salários e encargos, as utilidades públicas e os impostos.”

Na avaliação dele, a ideia é usar o mercado de capitais e as empresas de maquininhas, no lugar de bancos, para fazer com que o crédito público chegue para as empresas. “As microempresas usam esses meios de pagamento para toda sua vida financeira e seria o canal para receberem o crédito”, afirma.

“Já as médias e grandes empresas poderiam emitir títulos que seriam comprados por fundos operados por gestores privados, mas que pertenceriam ao Tesouro.” Quando se liberar aos poucos a economia, o governo também poderia repassar tais fundos ou títulos para o próprio setor privado, diz.

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78% das empresas não tiveram acesso à ajuda emergencial do governo

Entre aqueles que tiveram acesso, 17,5% declararam que a ajuda emergencial esbarrou na falta de informações nos bancos, mostra pesquisa da consultoria Quist Investimentos

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 05h00

A maioria das empresas está tendo dificuldade para ter acesso à ajuda emergencial do governo federal. Com queda no faturamento e caixa no limite, as companhias relatam que não conseguem ter acesso às linhas de crédito para cumprir obrigações de curto prazo. 

Uma pesquisa feita pela consultoria Quist Investimentos, especializada em reestruturação de empresa e recuperação judicial, mostra que 78% das companhias consultadas não tiveram acesso a nenhum tipo de crédito desde o anúncio da equipe econômica. A sondagem ouviu 100 empresas com faturamento entre R$ 30 milhões e R$ 300 milhões.

Entre aqueles que tiveram acesso, 17,5% declararam que a ajuda emergencial esbarrou na falta de informações nos bancos e que os profissionais dos bancos de repasse não tinham orientações claras sobre como seriam operacionalizadas na prática as linhas de socorro. 

Apenas 22% das empresas disseram ter tido acesso a crédito. Mas, nesse caso, acabaram pegando empréstimos pré-aprovados pelo banco de relacionamento e não a ajuda emergencial do governo. “O dinheiro está empoçado porque o banco está com medo do que vai ocorrer. Há muito incerteza”, diz o presidente da Quist, Douglas Duek.

Segundo ele, os bancos só vão conceder crédito para quem tem uma nota de crédito melhor. Aqueles que representam mais risco não terão acesso a dinheiro novo. “Nesse cenário, quem estava mal vai entrar em colapso. Quem estava bem vai ficar ruim.”

Para Duek, apesar de os bancos serem apenas repassadores do dinheiro público, eles terão muito trabalho se houver problema de inadimplência porque teriam de ir atrás dos devedores. “As instituições não querem ficar corresponsáveis pelas dívidas com o BNDES e ter de cobrar e administrar uma carteira de crédito de empresas que eles não aprovam.”

O executivo acredita que uma das soluções seria o BNDES criar Fundos de Investimentos de Direito Creditório (Fidc), que seriam os repassadores do dinheiro. Nessa situação, o banco estatal entra como cotista do fundo e uma outra instituição faz a administração do fundo.”

Segundo ele, que tem acompanhado o dia a dia de algumas empresas, as empresas estão criando comitês de crise, que neste momento estão selecionando as prioridades de pagamento. “Funcionários estão sendo dispensados, novos investimentos postergados e lojas deficitárias fechadas. Só está sendo pago coisas consideradas essenciais.”

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“Os bancos não vão fazer, na guerra, a função que não faziam na paz”, diz José Roberto Afonso

Para economista e professor do Instituto Brasiliense de Direito Público, não há possibilidade de recuperação no curto prazo

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 05h00

O economista José Roberto Afonso, professor do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), é pessimista em relação à retomada da economia. Para ele, não há possibilidade de se pensar em recuperação da economia no curto prazo. Além disso, a retomada não vai ocorrer por meio do crédito tradicional dos bancos, que têm aversão ao risco em cenários normais. “Os bancos não vão fazer, na guerra, a função que não faziam na paz.”

A seguir, trechos da entrevista:

A crise já começa a deixar um rastro de inadimplência no País. Quais os efeitos desse movimento?

A primeira e mais importante inadimplência é dos impostos. As empresas devem, não negam, mas não recolhem. É uma forma rápida e eficiente de ter acesso a crédito – às vezes, mesmo com juros de mora e multa – mais barato comparado ao do banco quando se consegue. A inadimplência com as instituições financeiras cresce quando não se tem perspectiva de tomar novo crédito com o mesmo banco. Se os dois casos acima não resolveram, cresce inadimplência com fornecedores e até com funcionários. É uma cadeia de inadimplência que ameaça a economia tanto quanto a queda de vendas. 

Esse movimento já começou?

Pelo relato de autoridades fazendárias e do empresariado, já foi disparada essa cadeia de inadimplência. Faltam evidências empíricas, mas faz todo sentido.

Hoje há ambiente para conseguir crédito novo?

Crédito novo seria para pagar débitos velhos e para cobrir custos fixos durante a parada da economia. Esse crédito tem de ser ofertado por linhas do governo, como no resto do mundo. Mas não está funcionando, pelo que tem sido divulgado.

Isso pode comprometer a retomada? 

Não há menor possibilidade de retomada, no curto prazo, para a grande maioria das atividades e das empresas. O que está em jogo é sobrevivência, ou seja, não morrer. O crédito agora é para isso. Longe de pensar em retomar. Precisamos mudar a estratégia. O sistema bancário tem aversão a risco no meio de uma recessão, que está para virar depressão, em qualquer lugar do mundo. O brasileiro, que já em termos de paz e de crescimento, também era muito avesso a risco, emprestava pouco. Ele não vai fazer agora, na guerra, a função que não fazia na paz.

E o que o seria mudar a estratégia?

É preciso inovar e desenhar outros instrumentos de crédito que passem pelo mercado de capitais e por outros veículos, como os novos meios de pagamento – as chamadas maquininhas. Quem as opera conhece mais as empresas e os trabalhadores independentes do que qualquer banco, público ou privado, no País, quando se trata de micro e pequenas empresas. A inadimplência subirá e não será resolvida com empréstimos bancários tradicionais, mesmo que sejam ofertados com recursos públicos.

Mas como seria isso?

Companhias aéreas poderiam emitir título de crédito conversível em passagens a serem usadas no futuro, como já fazem com agências de turismo. Por que empresas de autopeças não poderiam emitir títulos privados dando como garantia as encomendas feitas pelas montadoras de automóveis?

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