''Ausência de reformas ameaça globalização''

BCs advertem governos e dizem que os sinais de crescimento são ilusórios

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2009 | 00h00

Os maiores bancos centrais do mundo concluíram ontem sua assembleia anual com um tom pessimista e de advertência: se as reformas no sistema financeiro não forem aceleradas, o próprio processo de globalização poderá ser revertido. Os BCs avaliam que pode haver uma retomada do crescimento no fim do ano. Mas não será sustentável se as falhas no sistema financeiro não forem reparadas. "Não é difícil de imaginar um mundo em que a globalização seja revertida", alertou Jaime Caruana, diretor do Banco de Compensações Internacionais (BIS), em discurso ontem, na Basileia. Uma prolongação da crise provocaria uma queda nos fluxos de capitais, de comércio, da exposição internacional de empresas e ainda elevaria a tensão entre governos. Todo o esforço hoje da instituição é de convencer governos de que as reformas prometidas precisam ser concluídas. O BIS deixa claro que os tímidos sinais de crescimento são ilusórios e podem não passar de uma reação temporária aos pacotes de estímulo. "A queda livre acabou e temos sinais de estabilização. Os mercados emergentes provaram ser menos frágeis do que se temia e poderemos ter crescimento positivo no fim do ano. Mas o caminho para a recuperação está repleto de riscos", disse Caruana. O alerta é de que os avanços não têm sido suficientes. Só com uma reforma completa é que a estabilidade voltaria ao sistema. "Essa é a precondição para a volta do crescimento no mundo", disse Caruana. "Enquanto os governos estiverem hesitantes em adotar essas medidas, as perspectivas de crescimento serão pequenas."No caso dos países emergentes, o economista-chefe do BIS, Stephen Cechetti, acredita que essas economias devem se recuperar de forma mais rápida que os países ricos. Mas disse que não tinha uma data. Pela primeira vez, o relatório anual do BIS sequer traz uma projeção de crescimento. Os xerifes das finanças, no entanto, prometem fazer as reformas. No último fim de semana, várias medidas foram tomadas para iniciar os trabalhos de criação de novas regras de capitalização de bancos, supervisão, controle de hedge funds e até de monitoramento das economias. O Brasil ainda propôs durante a reunião do Conselho de Estabilidade Financeira que um maior controle sobre derivativos fosse estabelecido. "Teremos muitas novidades até o fim do ano", prometeu Mario Draghi, o presidente do Conselho, um órgão subsidiário ao G-20. Uma das sugestões é para que os bancos centrais ganhem novo papel e não se limitem a controlar apenas a inflação. A ideia é de que possam acompanhar eventuais bolhas no mercado e tomar medidas. Para o presidente do BC brasileiro, Henrique Meirelles, o modelo do País é considerado "ideal", já a instituição atua em política monetária e supervisão.

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