Austeridade na UE é autodestrutiva e prejudica crescimento, diz estudo

Instituto inglês constatou que a relação entre PIB e dívida será 5 pontos porcentuais mais alta por causa dos cortes de despesas e elevação de impostos

Priscila Arone, da Agência Estado,

31 Outubro 2012 | 16h10

LONDRES - As amplas medidas de austeridade adotadas em países de toda a União Europeia (UE) são autodestrutivas e sufocam o crescimento econômico, além de elevar - em vez de reduzir - a relação da dívida, afirma um estudo do Instituto Nacional para Pesquisa Econômica e Social (Niesr, na sigla em inglês), sediado em Londres.

Ao examinar a consolidação fiscal coordenada da Europa, o instituto disse que a relação da dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) será cerca de cinco pontos porcentuais mais alta tanto no Reino Unido quanto na zona do euro por causa dos cortes de despesas e elevação de impostos entre 2011 e 2013.

O Niesr disse que as implicações de seu estudo - que é o primeiro a simular o impacto quantitativo de medidas de austeridade coordenadas na UE - é que a atual estratégia de austeridade aplicada por países de forma individual, assim como na UE como um todo, é fundamentalmente falha e está tornando as coisas piores. "Não apenas o crescimento seria mais alto se tais políticas não tivessem sido aplicadas, mas a relação dívida/PIB seria menor", diz o documento, escrito pelos economistas Dawn Holland e Jonathan Portes. "É irônico que, embora a UE tenha sido criada em parte para evitar falhas de coordenação em políticas econômicas, o bloco deve fazer exatamente o oposto."

As conclusões do Niesr vão intensificar o debate no Reino Unido e em outros países altamente endividados do Ocidente sobre cortes de gastos versus estímulos, em meio às crescentes evidências de que as medidas de austeridade são um grande impedimento ao crescimento.

No início deste mês, o Fundo Monetário Internacional (FMI) admitiu que havia subestimado o efeito negativo dos cortes de gastos e do aumento de impostos no crescimento. O Fundo disse que os esforços globais para reduzir déficits e dívidas podem ter, na verdade, atingido o crescimento, porque aconteceram muito rapidamente e de uma forma muito ampla.

O relatório do Niesr diz que, em circunstâncias econômicas menos voláteis, medidas de austeridade levariam a uma queda na relação dívida/PIB. Porém, os efeitos na UE são intensificados pelo "efeito de transbordamento", o que significa que a produção econômica de cada país é reduzida não apenas por seus próprios cortes orçamentários e elevação de impostos, mas também pelas medidas adotadas em outros países da UE, em razão de suas ligações comerciais.

Na Grécia e em Portugal, os cortes de gastos acumulativos e aumentos de impostos entre 2011 e 2013 representarão um montante perto de 10% do PIB de cada país, enquanto na Irlanda vai representar 8% do PIB. Na França, Itália, Espanha e Reino Unido, as medidas de austeridade totalizarão entre 5% e 6% da produção econômica. Na Alemanha e na Áustria, as medias terão impacto menor, representando menos de 1,5% do PIB em três anos. O Niesr estima que, com exceção da Irlanda, a relação da dívida será maior em 2013 em cada país da UE por causa das medidas de austeridade.

Defensores das medidas de austeridade - particularmente o ministro de Finanças britânico, George Osborne - argumentam que ter um plano confiável para lidar com endividamento elevado é benéfico porque dá segurança aos investidores de bônus internacionais, o que reduz o custo de endividamento dos países. O documento divulgado hoje, entretanto, alerta pode ser o contrário. "Se permitirmos a realimentação da relação da dívida do governo com os prêmios cobrados sobre os bônus, isso vai, na verdade, elevar as taxas de juros, exacerbar os efeitos negativos sobre a produção e, por sua vez, tornar a relação dívida/PIB ainda pior. É verdadeiramente uma 'espiral da morte' ", diz o documento. As informações são da Dow Jones.

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