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Austeridade perde força e isola Merkel

Das cinco maiores potências da zona do euro, França, Itália, Espanha e Holanda adotaram posições desenvolvimentistas

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2013 | 02h03

Depois de três anos de hegemonia no discurso a favor das políticas de austeridade na Europa, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, está cada vez mais isolada. A cinco meses das eleições parlamentares que definirão se ela permanece ou não à frente da chancelaria em Berlim, cada vez mais líderes políticos se afastam do discurso pró-rigor. Das cinco maiores potências da zona do euro, quatro adotaram posições desenvolvimentistas: França, Itália, Espanha e Holanda.

Os sinais de que a paciência com a política de austeridade acabou na Europa vieram em massa ao longo da semana passada, quando o bloco viveu uma enxurrada de más notícias. Na Espanha e na Grécia, o desemprego ultrapassou os 27%, o nível mais elevado entre todos os países industrializados do planeta. Na França e em Portugal, o número de trabalhadores fora do mercado também é recorde, contribuindo para um cenário desolador: 19 milhões de desempregados na zona do euro - ou 12% da população ativa -, um total de 5,6 milhões a mais em comparação a 2007. Ao mesmo tempo, o poder aquisitivo das famílias despenca nos países periféricos, com perdas de 20% na Irlanda e na Grécia.

O dado que provoca mais críticas, entretanto, é o fato de que mesmo com todo o esforço de rigor econômico, o déficit fiscal ainda é superior a 3% em nove dos 17 países da zona do euro - e na maioria as dívidas públicas continuam subindo.

Cansado do linguajar diplomático, na sexta-feira o Partido Socialista (PS), do presidente francês François Hollande, revelou o conteúdo de uma carta aberta sobre a economia da Europa, a ser discutida pelos seus militantes. A mensagem convoca à "batalha pela reorientação" das políticas econômicas e define Merkel como a "chanceler da austeridade, dona de uma intransigência egoísta". A recuperação econômica e social da Europa passa pelo retorno do crescimento e pelo fim da austeridade, afirma o documento.

No governo Hollande, pelo menos três ministros apoiam abertamente o texto, e até o ministro da Economia, Pierre Moscovici, não se furtou a criticar a Alemanha. O ministro já havia ignorado o pacto firmado entre Paris e Berlim para trazer o déficit da França a 3% em 2014 - a conta deve ficar em 3,8%.

Essa posição foi seguida na sexta-feira pela Espanha e, para surpresa geral, já havia sido adotada há dez dias pela Holanda, ex-aliada pró-austeridade da Alemanha. Pressionado pela estagnação da economia e pelo desemprego de 8,1% - o mais elevado em quase 20 anos -, o primeiro-ministro, Mark Rutte, suspendeu um corte orçamentário de € 4,3 bilhões que aconteceria em 2014. Em setembro, uma nova reunião será realizada para decidir se cortes previstos para 2013 ocorrerão.

Virada em Roma. Na quarta-feira, foi a vez do primeiro-ministro em exercício da Itália, Enrico Letta, puxar o freio de mão da austeridade fiscal no país. "É importante que a Itália seja um dos protagonistas dessa mudança de abordagem, da orientação das políticas europeias em direção ao crescimento e a mais unidade política na Europa", reiterou o novo premiê.

Além da insurreição dos líderes políticos nacionais, a paciência parece ter se esgotado também em organizações internacionais. Na mesma linha, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, advertiu para o risco do ajuste fiscal demasiado na Europa.

Até o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, subalterno de Angela Merkel e de outros líderes políticos do bloco, afirmou na semana passada que basta de rigor. "Ainda que pense que esta política é justa, eu creio que ela chegou no limite", disse ele, em uma declaração que repercutiu em todo o continente. "Para dar certo, uma política não deve apenas ser bem concebida, mas tem de se beneficiar de um mínimo de apoio político e social."

A preocupação de Barroso faz sentido. Nunca a confiança dos cidadãos na União Europeia foi tão pequena. Pesquisa realizada na semana passada por um consórcio de jornais do continente, entre os quais o britânico The Guardian e o francês Le Monde, indicou que o euroceticismo, assim como o desemprego, não param de crescer.

Na Itália, os céticos chegam a 52%, na Alemanha, 49%, e na França, 32%.

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