Auto-regulação do mercado naufraga com crise, diz Mercadante

Para senador do PT, não haverá estabilidade financeira se não forem criados novos mecanismos de controle

Giuliana Vallone, do estadao.com.br,

02 Outubro 2008 | 07h54

A idéia de que o mercado financeiro pode se auto-regulamentar e a visão apresentada pelo Consenso de Washington em 1989 naufragaram com a atual crise financeira, na avaliação do senador Aloizio Mercadante (PT). Para ele, não haverá estabilidade financeira se não forem criados novos mecanismos de regulação e controle do sistema. Em entrevista ao estadao.com.br, Mercadante ressaltou os fundamentos sólidos da economia brasileira, que, segundo ele, não foi contaminada "por essa aventura irresponsável do subprime". Leia abaixo a íntegra da entrevista:   O plano de resgate de instituições financeiras nos Estados Unidos pode salvar o sistema?   Ele é imprescindível para que a crise financeira não se alastre, não se aprofunde, não se agrave. Mas não dá para nós termos a segurança de que ele será suficiente. Seguramente, os Bancos Centrais, o governo dos Estados Unidos, da União Européia, do Japão, onde grandes instituições financeiras foram irresponsáveis na alavancagem, nas hipotecas, na chamada crise do subprime, terão que continuar monitorando, provendo liquidez e acompanhando a evolução dessa crise que já se arrasta há um ano. E se nós não tivermos a aprovação desse pacote, assistiremos a uma deterioração muito profunda, sistêmica, porque a crise já atingiu quatro dos seis maiores bancos dos Estados Unidos de forma muito comprometedora, e ela continua evoluindo e se aprofundando.   Esse pacote e a conseqüente intervenção do Estado no mercado representam o fim do neoliberalismo?   Eu acho que essa idéia de que o mercado financeiro se auto-regulamenta, a visão que o Consenso de Washington (conjunto de medidas - que se compõe de dez regras básicas - formulado em novembro de 1989 por economistas de instituições financeiras como o FMI, o Banco Mundial e o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos) apresentou como pensamento único, de que não é necessário regulação, de que não precisa haver mecanismos de controle e transparência do sistema financeiro internacional, de que os Banco Centrais não precisavam manter uma política de fiscalização e acompanhamento sistêmico da economia, de que os derivativos eram por si só instrumentos de regulação do sistema, naufragou nessa crise.   Nós não teremos estabilidade e sustentabilidade financeira se não tivermos novos mecanismos de regulação e controle sobre o sistema financeiro. Você veja que os Estados Unidos estão estatizando bancos, subsidiando a indústria com uma forma de financiamento proibida pela Organização Mundial de Comércio (OMC), está intervindo de forma sem precedentes na economia, o que mostra que o pensamento de (John Maynard) Keynes, o papel do Estado como regulador da atividade seguramente terá que retornar. Especialmente porque os contribuintes americanos jamais vão aceitar essa socialização das perdas sem a segurança de que situações como essa não se repetirão com essa gravidade.   Qual foi a grande falha nessa teoria?   Foi essa ideologia fundamentalista de que o mercado é auto-regulável e de que não é preciso políticas públicas para assegurar controles, estabelecer limites para a alavancagem, estabelecer regras de prudência bancária. Eu acho que essa ideologia do Estado mínimo foi desastrosa na história recente do Brasil e da América Latina. Felizmente, ela foi derrotada nas últimas eleições dos principais países da região e esse impacto chega agora aos Estados Unidos, que ainda é a economia mais importante do mundo. E eu só espero que a irracionalidade do mercado não prevaleça no âmbito do Congresso e da política. Porque se não houver diálogo e não houver um pacote para amenizar a crise, nós teremos uma evolução dramática do sistema financeiro americano.   Quais as perspectivas agora? Uma nova teoria econômica pode sair desta situação?   A crise de 1929 foi mais profunda do que essa, pelo menos no que diz respeito ao que assistimos até agora. E da crise de 1929 nasceu a teoria geral de Keynes. A idéia do multiplicador keynesiano, do papel do Estado na regulação econômica, nasce exatamente como desdobramento daquela crise. E as crises sempre ajudam na formulação de teorias econômicas, tanto no sentido da prevenção em relação a crises futuras, quanto de alternativas para superar os impasses que elas patrocinam. Então nós teremos um avanço da teoria. Eu até espero que daqui a muito tempo uma nova crise venha e de novo você tenha que rever procedimentos, formas de regulação, mecanismos econômicos.   A diferença mais importante (entre a crise de 1929 e esta) é que hoje o Brasil está melhor para enfrentar essa gravíssima crise do que esteve em crises muito mais amenas no passado. O País tem mais de US$ 207 bilhões de reservas cambiais, o sistema brasileiro não foi contaminado por essa aventura irresponsável do subprime, o mercado interno é grande força propulsora da economia brasileira, nós diminuímos a nossa dependência da economia americana, que era de 25% das nossas exportações quando Lula tomou posse, e hoje é só de 14%, ou seja, nós diversificamos o comércio externo brasileiro. Além disso, estamos caminhando não apenas para a auto-suficiência mas também para nos transformarmos numa grande potência exportadora de petróleo.   O Brasil, historicamente, soube muitas vezes responder de forma criativa às crises, como foi em 1929, e sair fortalecido. Naquela época, nós industrializamos o País, a crise impulsionou a industrialização. E acho que nós poderemos também ter soluções criativas para sair com mais força, mais presença, mais importância na economia global.   O que você acha da tensão política em torno da aprovação do pacote nos Estados Unidos? Muitos deputados podem não se reeleger nas eleições de novembro, o pacote é impopular entre os contribuintes americanos...   É muito difícil, politicamente, essa decisão nas vésperas de uma eleição parlamentar e presidencial. Porque você imagina que centenas de milhares de pessoas estão perdendo suas casas pois não conseguem pagar suas dívidas - essa é a origem da crise. E de repente, parte do dinheiro que elas pagaram como impostos vai socorrer os bancos que financiaram essas moradias de forma irresponsável, socializando os prejuízos, mas não revertendo os riscos de perda dos imóveis a que essas famílias estão expostas. E muitas já foram atingidas pelos próprios bancos que estão sendo socorridos.   Então não é uma questão politicamente fácil, mas se nós não tivermos um pacote para aumentar a liquidez e ajudar essas instituições - algumas delas estão muito alavancadas -, o impacto na economia real, que já existe, vai ser muito mais forte e nós podemos caminhar para uma recessão econômica. Então o custo de aprovar o pacote é muito alto, mas o custo de não aprovar, seguramente, é muito maior.

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